A pulperia que deu origem a uma cidade e que hoje é uma importante atração turística de Buenos Aires
As primeiras pulperías surgiram na época colonial
Muito antes de existirem as cidades que hoje pontilham o interior da Província de Buenos Aires, havia as pulperías: comercios rústicos de paredes de adobe e chão de terra batida onde os gauchos paravam para comprar provisões, beber, jogar cartas e trocar notícias. O que poucos sabem é que esses estabelecimentos não apenas refletiram a vida da pampa argentina, eles literalmente a criaram. No século XIX, os pueblos começaram a surgir ao redor das pulperías e dos fortins, e o que começou como um simples ponto de parada no meio da imensidão do pampa se transformou no núcleo de comunidades inteiras. Hoje, dezenas dessas pulperías históricas são destinos de turismo rural que atraem visitantes de toda a Argentina e do mundo.

O que era uma pulpería e qual era o seu papel na vida da pampa argentina?
As primeiras pulperías surgiram na época colonial, quando os espanhóis instalaram esses comercios ao longo de toda a América Latina como postos de abastecimento para as caravanas de carroças que cruzavam o continente. Na Argentina, elas se tornaram muito mais do que simples lojas: eram o único ponto de encontro possível para o gaucho na imensidão e solidão do pampa. Ali, como registra algum poema gauchesco, as pessoas se reencontravam com a possibilidade de falar depois de dias e às vezes meses sem trocar uma palavra com outro ser humano.
Uma pulpería vendia absolutamente tudo: comida, bebida, remédios, ferramentas, roupas, sal para conservar carnes e até informações sobre o que acontecia nas regiões vizinhas. Mas seu papel social ia muito além do comércio. Nelas funcionavam improvisadas pistas de dança, pequenos teatros rurais, jogos de cartas e dados, e as célebres payadas, duelos de versos improvisados ao violão que o historiador Felipe Pigna descreve como expressão genuína da cultura gaucha. Em 1810, estimava-se que havia mais de 500 pulperías ativas na Província de Buenos Aires.
Como as pulperías deram origem às cidades da Província de Buenos Aires?
A lógica era simples e inevitável. As pulperías estavam estrategicamente posicionadas nas cruzadas de caminhos, nas margens dos rios e nas rotas que os tropeiros percorriam. Com o tempo, outros comerciantes se instalavam ao redor delas. Surgiam o ferreiro, o curtume, a pousada. Famílias se fixavam. E o que começava como um rancho isolado na imensidão do pampa se transformava progressivamente em um pueblo. O jornalista e pesquisador Leandro Vesco, fundador da ONG Projeto Pulpería, resume o processo: as pulperías funcionavam como postas para trocar os cavalos das carruagens e como pontos de descanso, e foi ao redor dessa função que os primeiros núcleos urbanos da província se organizaram.
Esse fenômeno explica por que tantas cidades históricas da Província de Buenos Aires ainda preservam uma pulpería centenária no centro ou nos arredores, como parte viva e legível da sua própria origem. Baradero, Mercedes, San Antonio de Areco, Chivilcoy e San Andrés de Giles são apenas alguns exemplos de municípios que cresceram ao redor desses estabelecimentos e que hoje os preservam como parte indissociável da sua identidade cultural.

Quais são as pulperías mais históricas e visitadas da Província de Buenos Aires hoje?
Entre as pulperías que ainda funcionam e recebem visitantes, algumas se tornaram verdadeiros marcos do turismo rural bonaerense. A Pulpería de Cacho, em Mercedes, é talvez a mais famosa. Fundada em 1830, ela foi atendida por décadas por Cacho Di Catarina, considerado o último pulpero tradicional da Argentina, falecido em 2009. Seu interior permanece praticamente intocado: o balcão comprido de madeira gasta pelos séculos, o piso de pedra, as prateleiras com garrafas cobertas de teia de aranha e as fotos em preto e branco que documentam gerações de parroquianos. A família ainda está atrás do balcão e as famosas empanadas de Cacho, fritas e com um toque picante, continuam sendo a especialidade da casa.
Outra referência incontornável é a pulpería El Torito, em Baradero, fundada em 1880 e considerada uma das mais antigas do país ainda em funcionamento. Sua fachada em formato de capelinha, construída em altura para ser visível na planície infinita do pampa, é um símbolo da arquitetura pulpera da província. Já em Uribelarrea, o El Palenque é um almacén de ramos generales de mais de cem anos que se tornou o coração turístico de um dos pueblos mais charmosos do entorno de Buenos Aires, a menos de 80 quilômetros da capital. Os lugares que mais se destacam no roteiro turístico das pulperías bonaerenses incluem:
- Pulpería de Cacho, em Mercedes: fundada em 1830, uma das mais antigas em funcionamento contínuo da Argentina
- El Torito, em Baradero: de 1880, com pequeno teatro rural ainda preservado e empanadas fritas como especialidade
- El Palenque, em Uribelarrea: almacén centenário no coração de um pueblo que virou roteiro obrigatório de fim de semana
- Almacén El Terruño, em Morse: lotado todas as semanas com reserva, referência da gastronomia pulpera contemporânea
- Boliche de García, em San Andrés de Giles: de 1901, numa esquina de tijolos à vista que captura qualquer olhar
Confira o vídeo do canal CONOCIENDO PUEBLOS, mostrando a pulpería El Torito:
Por que o turismo rural nas pulperías cresceu tanto nos últimos anos?
A pandemia funcionou como um acelerador de uma tendência que já vinha se consolidando na Província de Buenos Aires: o turismo rural. Com o fechamento das cidades e a necessidade de espaços abertos e tranquilos, milhares de pessoas redescobriram as estâncias, os pueblos e as pulperías da região bonaerense. Muitos que visitaram nesses anos voltaram a investir na restauração e reabertura de estabelecimentos históricos que estavam abandonados, ampliando o mapa turístico da província.
A gastronomia pulpera se tornou um dos grandes atrativos desse turismo. Verónica Rezk, à frente do almacén El Terruño em Morse, explica que a proposta vai muito além de um almoço no campo: “A gastronomia pulpera tem a ver com uma volta às origens, a se reconectar com nossas histórias familiares.” O menu típico inclui picada com vermute e frios caseiros, empanadas, guisados, locro em datas patrias e carnes assadas na brasa, tudo com produtos locais e receitas de família. Em um mundo urbano cada vez mais acelerado, as pulperías da Província de Buenos Aires oferecem exatamente o que não se encontra nas capitais: tempo lento, sabores simples e uma conexão direta com a história de um território que ainda conserva, em cada balcão de madeira gasta e em cada garrafa centenária empoeirada, a memória viva de onde tudo começou.