Adam Smith, economista escocês: “Nenhuma sociedade pode ser feliz se a maioria dos seus membros for pobre.”

Adam Smith nasceu na Escócia em 1723 e passou a maior parte de sua vida acadêmica como professor de Filosofia Moral na Universidade de Glasgow.

26/04/2026 19:15

Quando se fala em Adam Smith, o nome vem acompanhado de conceitos como livre mercado, concorrência e interesse próprio. Mas há uma frase do economista escocês que raramente aparece nessas conversas e que contradiz boa parte do que se atribui a ele: “Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a maior parte dos seus membros for pobre e miserável.” Escrita em A Riqueza das Nações, em 1776, essa sentença revela um pensador muito mais complexo do que o símbolo do capitalismo selvagem que a história convencionou criar. Entender o que ele quis dizer muda completamente a leitura de sua obra e sua relevância para o mundo de hoje.

A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII de A Riqueza das Nações, intitulado “Dos salários do trabalho”.
A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII de A Riqueza das Nações, intitulado “Dos salários do trabalho”.Imagem gerada por inteligência artificial

Quem foi Adam Smith e por que ele ainda importa?

Adam Smith nasceu na Escócia em 1723 e passou a maior parte de sua vida acadêmica como professor de Filosofia Moral na Universidade de Glasgow. Figura central da Ilustração escocesa, ele não era apenas economista: era um filósofo profundamente preocupado com a moral, a justiça e o bem-estar humano. Suas duas obras mais importantes, A Teoria dos Sentimentos Morais, de 1759, e A Riqueza das Nações, de 1776, formam um sistema de pensamento que só faz sentido quando lido em conjunto, e não de forma isolada.

A influência de Adam Smith é inabarcável. Considerado o pai da economia moderna e do liberalismo clássico, suas ideias moldaram a política econômica dos séculos XIX e XX e inspiraram pensadores tão diferentes quanto David Ricardo e Karl Marx. O que poucos percebem é que Adam Smith defendeu, ao longo de toda a sua obra, que a prosperidade econômica só é legítima quando conduz a uma sociedade mais justa para a maioria das pessoas, e não apenas para uma elite privilegiada.

Em que contexto Adam Smith escreveu essa frase sobre a pobreza?

A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII de A Riqueza das Nações, intitulado “Dos salários do trabalho”. O contexto é preciso: no século XVIII, muitos economistas defendiam a chamada “teoria da utilidade da pobreza”, que argumentava que os salários deveriam ser mantidos baixos porque, se os trabalhadores pobres ganhassem mais, se tornariam “preguiçosos” ou teriam filhos demais. Adam Smith escreveu essa passagem exatamente para destruir esse argumento, que ele considerava ao mesmo tempo moralmente repugnante e economicamente equivocado.

Para Adam Smith, quando uma economia cresce, os salários sobem, e isso não é um problema: é o sinal mais claro de que a nação está se tornando genuinamente mais rica. Dois pontos centrais sustentam esse raciocínio. O primeiro é que a riqueza de uma nação não se mede pelo ouro no cofre do rei, mas pelo padrão de vida de sua população. O segundo é o que ele chama de simples equidade: quem alimenta, veste e dá abrigo à sociedade, ou seja, os trabalhadores, tem o direito elementar de estar eles mesmos bem alimentados, bem vestidos e bem alojados.

O que é a mão invisível e como ela se conecta à desigualdade social?

A expressão “mão invisível” é provavelmente o conceito mais citado e mais mal interpretado de toda a obra de Adam Smith. Ela aparece apenas uma vez em A Riqueza das Nações e descreve o mecanismo pelo qual o interesse individual de cada agente econômico, ao buscar seu próprio benefício, acaba contribuindo indiretamente para o bem coletivo. Esse mecanismo foi transformado, ao longo dos séculos, em uma justificativa para a ausência total de regulação e para a ideia de que o mercado resolve tudo sozinho.

O problema é que esse não era o argumento de Adam Smith. Ele era um crítico severo dos monopólios, da cumplicidade entre governos e grandes comerciantes e da concentração de poder econômico nas mãos de poucos. Em A Riqueza das Nações, ele escreveu que “todo para nós e nada para os outros parece ter sido, em todas as épocas do mundo, a vil máxima dos donos da humanidade”. Essa frase, muito menos citada do que a da mão invisível, revela o quanto a leitura dominante de sua obra é seletiva e conveniente para quem a usa para justificar a desigualdade social.

A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII de A Riqueza das Nações, intitulado “Dos salários do trabalho”.
A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII de A Riqueza das Nações, intitulado “Dos salários do trabalho”.Imagem gerada por inteligência artificial

O que Adam Smith diria sobre a desigualdade social no mundo de hoje?

A frase sobre a impossibilidade de uma sociedade feliz com a maioria de seus membros na pobreza tem uma ressonância impressionante quando colocada diante dos dados do mundo contemporâneo. Nunca a humanidade produziu tanta riqueza, e ao mesmo tempo nunca a concentração dessa riqueza foi tão extrema. O pensamento de Adam Smith sugere que esse desequilíbrio não é apenas uma injustiça moral, mas um problema estrutural que compromete a saúde econômica e social de qualquer nação. Os elementos que ele considerava fundamentais para uma sociedade verdadeiramente próspera eram:

  • Salários que permitam aos trabalhadores viver com dignidade, e não apenas sobreviver
  • Distribuição dos frutos do crescimento econômico entre aqueles que efetivamente o produzem
  • Limitação do poder dos monopólios e de grupos que capturam o Estado em benefício próprio
  • Reconhecimento de que a desigualdade social extrema é incompatível com o florescimento coletivo
  • Compreensão de que o mercado livre não significa mercado sem regras, mas mercado sem privilégios arbitrários

Por que a obra de Adam Smith é tão disputada por correntes opostas?

A Riqueza das Nações é um dos livros mais citados e menos lidos da história do pensamento ocidental. Sua obra é poderosa justamente porque permite leituras múltiplas e, às vezes, contraditórias. Defensores do liberalismo clássico mais radical encontram nela o argumento da mão invisível e do interesse próprio como motor do crescimento. Críticos do capitalismo encontram nela a denúncia dos proprietários que conspiram contra o público e a defesa intransigente dos trabalhadores. Ambos os lados estão lendo o mesmo livro.

O que a frase sobre a pobreza e a felicidade coletiva revela, acima de tudo, é que Adam Smith nunca separou a economia da ética. Para ele, uma ciência econômica que ignora o bem-estar da maioria não é economia, é uma racionalização do privilégio de poucos. Essa dimensão moral de sua obra, enterrada sob séculos de interpretações convenientes, é talvez o aspecto mais urgente de seu pensamento para o século XXI. Uma sociedade que produz riqueza sem distribuí-la não é, nos termos do próprio pai do liberalismo clássico, uma sociedade que merece ser chamada de próspera.