Aristóteles, o filósofo, já previa isso aos 60 anos: “Amar é desejar o bem do outro acima do próprio bem”

Nas obras dedicadas à ética e à natureza humana, Aristóteles distinguia cuidadosamente entre diferentes formas de afeto que as pessoas cultivam

26/02/2026 12:26

O pensamento aristotélico atravessa mais de dois milênios mantendo relevância surpreendente para questões humanas fundamentais, especialmente aquelas relacionadas às virtudes e aos afetos que moldam as relações interpessoais. Entre as inúmeras reflexões deixadas pelo filósofo grego, sua compreensão sobre a natureza do amor verdadeiro destaca-se pela profundidade e pela capacidade de sintetizar em poucas palavras um princípio que desafia o egoísmo natural humano, propondo que o ato de amar autêntico manifesta-se quando priorizamos o florescimento alheio mesmo diante de nossos próprios interesses.

Aristóteles, o filósofo, já previa isso aos 60 anos: "Amar é desejar o bem do outro acima do próprio bem"
A sociedade moderna frequentemente promove narrativas centradas na realização pessoal, no cultivo da autoestima e na busca incessante de felicidade individualImagem gerada por inteligência artificial

O que Aristóteles compreendia sobre a essência do amor genuíno?

Nas obras dedicadas à ética e à natureza humana, Aristóteles distinguia cuidadosamente entre diferentes formas de afeto que as pessoas cultivam ao longo da vida, categorizando-as conforme suas motivações subjacentes. O filósofo identificava o amor utilitário, baseado nas vantagens que o outro proporciona, o amor hedônico, fundamentado no prazer que a companhia alheia oferece, e finalmente o amor virtuoso, forma superior que transcende benefícios pessoais ao concentrar-se genuinamente no bem-estar da pessoa amada independentemente de retornos imediatos.

A máxima sobre desejar o bem do outro acima do próprio bem emerge dessa reflexão profunda sobre a philia, termo grego que abrange simultaneamente amizade e amor em suas manifestações mais elevadas. Aristóteles observava que esse tipo de afeto exige maturidade emocional considerável, desenvolvida apenas através de experiências acumuladas ao longo de décadas de convivência com outros seres humanos, razão pela qual o filósofo associava essa sabedoria afetiva aos seus próprios sessenta anos, idade em que a reflexão sobre relacionamentos vividos permite compreender nuances impossíveis de captar na juventude impulsiva.

Como essa concepção desafia o individualismo contemporâneo?

A sociedade moderna frequentemente promove narrativas centradas na realização pessoal, no cultivo da autoestima e na busca incessante de felicidade individual, valores que colidem frontalmente com a proposta aristotélica de subordinar voluntariamente os próprios desejos ao florescimento alheio. Os principais pontos de tensão entre essas visões incluem:

  • Inversão das prioridades afetivas convencionais: Enquanto discursos populares enfatizam a necessidade de amar-se primeiro para depois conseguir amar outros, Aristóteles sugeria que o amor verdadeiro nasce precisamente quando transcendemos essa preocupação exclusiva conosco mesmos, direcionando energias vitais para nutrir o crescimento de quem amamos.
  • Questionamento da reciprocidade imediata: A cultura contemporânea frequentemente avalia relacionamentos pela equidade nas trocas, medindo constantemente se estamos recebendo tanto quanto oferecemos, enquanto a perspectiva aristotélica propõe que o amor genuíno opera em frequência diferente, encontrando satisfação no simples fato de contribuir para a felicidade alheia sem contabilizar retornos.
  • Redefinição do que constitui sacrifício: O que aparenta ser renúncia na superfície revela-se, sob análise aristotélica, como realização de nossa natureza social mais profunda, sugerindo que encontramos plenitude precisamente ao servir o bem de quem amamos, contrariando narrativas que retratam qualquer diminuição do ego como perda inaceitável.

Por que Aristóteles vinculava essa sabedoria à maturidade avançada?

O filósofo grego reconhecia que compreender verdadeiramente essa dinâmica afetiva exige percorrer longos caminhos de experiência vivida, enfrentando sucessos e fracassos em relacionamentos diversos que gradualmente revelam padrões sobre o que sustenta vínculos duradouros versus o que os corrói. A juventude, ainda que vibrante e apaixonada, tende a projetar nos relacionamentos expectativas egocêntricas disfarçadas de amor, confundindo atração física, necessidade de validação ou medo da solidão com afeto genuíno que deseja sinceramente o florescimento do outro.

Aos sessenta anos, idade que Aristóteles considerava propícia para reflexões maduras sobre a existência, o indivíduo já testemunhou relacionamentos superficiais desmoronarem enquanto vínculos fundamentados no cuidado mútuo autêntico resistiram às tempestades inevitáveis da vida. Essa observação empírica acumulada permite discernir com clareza crescente a diferença entre conexões que nutrem ambas as partes versus aquelas que drenam energia através de dinâmicas parasitárias mascaradas de amor, sabedoria inacessível para quem ainda não acumulou décadas de interações humanas complexas e frequentemente dolorosas.

Aristóteles, o filósofo, já previa isso aos 60 anos: "Amar é desejar o bem do outro acima do próprio bem"
A sociedade moderna frequentemente promove narrativas centradas na realização pessoal, no cultivo da autoestima e na busca incessante de felicidade individualImagem gerada por inteligência artificial

Quais filósofos posteriores expandiram essa visão aristotélica?

O pensamento sobre a natureza altruísta do amor verdadeiro atravessou séculos influenciando tradições filosóficas e religiosas diversas que reinterpretaram o núcleo aristotélico sob perspectivas culturais distintas. As elaborações mais significativas incluem:

  • Tomás de Aquino na síntese medieval cristã: O teólogo dominicano integrou a compreensão aristotélica de amor virtuoso com a noção de caridade cristã, argumentando que o ágape divino representa a forma suprema do princípio grego, manifestando-se quando seres humanos amam próximos imitando o amor incondicional que Deus oferece às criaturas imperfeitas.
  • Immanuel Kant no imperativo categórico iluminista: O filósofo prussiano reformulou a intuição aristotélica em termos de dever moral universal, propondo que tratar outros sempre como fins em si mesmos e nunca meramente como meios reflete estrutura ética similar ao amor que prioriza o bem alheio sobre vantagens pessoais.
  • Martin Buber na filosofia dialógica contemporânea: O pensador austro-israelense distinguia entre relacionamentos do tipo eu-isso, onde objetificamos outros para nosso uso, e relações eu-tu autênticas, caracterizadas pelo reconhecimento pleno da alteridade e pelo desejo genuíno de encontro que privilegia o florescimento mútuo sobre ganhos unilaterais.

Como aplicar esse princípio aristotélico nas relações cotidianas?

Traduzir abstrações filosóficas milenares em práticas concretas que transformam vínculos diários exige atenção consciente aos padrões habituais que governam nossas interações com familiares, amigos e parceiros românticos. A primeira transformação ocorre na qualidade da escuta oferecida aos outros, evoluindo de esperas impacientes pela nossa vez de falar para receptividade genuína que busca compreender profundamente necessidades, medos e aspirações alheias sem imediatamente relacioná-los às nossas próprias experiências ou agendas.

A prática cotidiana desse amor aristotélico manifesta-se em escolhas aparentemente pequenas mas cumulativamente transformadoras, como celebrar sinceramente sucessos alheios mesmo quando nossos próprios projetos enfrentam dificuldades, oferecer tempo e energia para apoiar sonhos que não nos beneficiam diretamente, ou abdicar de ter razão em discussões quando percebemos que insistir no argumento prejudicaria o bem-estar emocional de quem amamos. Essas decisões diárias, repetidas ao longo de anos, constroem gradualmente relacionamentos caracterizados pela profundidade e durabilidade que Aristóteles identificava como marcas distintivas do amor verdadeiro, contrastando radicalmente com vínculos frágeis sustentados apenas enquanto ambas as partes extraem vantagens imediatas da associação.