Byung-Chul Han, filósofo: “Ficar em casa é a forma mais lúcida de resistência; é um bastião da liberdade.”
A filosofia de Byung-Chul Han parte do princípio que vivemos na chamada sociedade do cansaço
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, vencedor do Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades em 2025, propõe uma ideia revolucionária que vai contra tudo que a sociedade moderna prega: ficar em casa é a maneira mais inteligente de resistir ao sistema que nos explora diariamente. Para ele, o lar se transforma em um verdadeiro bastião de liberdade onde podemos escapar da pressão constante por produtividade, da exposição incessante nas redes sociais e da obrigação sufocante de sempre estar fazendo alguma coisa que gere valor ou aprovação.

Por que Byung-Chul Han considera ficar em casa um ato de resistência?
A filosofia de Byung-Chul Han parte do princípio que vivemos na chamada sociedade do cansaço, onde cada pessoa se tornou um empresário de si mesmo que se autoexplora até o esgotamento total. Diferente das sociedades antigas onde havia um patrão claro explorando funcionários, hoje nós mesmos somos os capatazes que exigem produtividade sem parar de nós mesmos, acreditando que isso é liberdade e realização pessoal quando na verdade é apenas uma forma mais sofisticada de dominação.
O capitalismo contemporâneo odeia profundamente o vazio e o silêncio porque esses momentos não geram lucro nem capital social, e é exatamente por isso que o lar se torna um espaço subversivo. Ao ficar em casa você pode criar momentos onde não precisa prestar contas a ninguém, não precisa exibir nada nas redes sociais, não precisa justificar como está usando seu tempo e finalmente pode apenas ser sem produzir valor econômico para o sistema que te consome.
Como a sociedade moderna transforma a felicidade em obrigação devastadora?
Para Han, a pressão por ser feliz constantemente se tornou a nova forma de dominação na sociedade atual. Vivemos bombardeados por mensagens que dizem que precisamos estar sempre felizes, otimistas, realizados e mostrando nossos sucessos para o mundo, criando uma angústia profunda quando não conseguimos atingir esse estado permanente de alegria que simplesmente não existe na experiência humana real.
Essa obrigação de felicidade transforma a alegria em uma espécie de capital emocional que você precisa acumular e exibir, gerando consequências terríveis para a saúde mental. A sociedade atual nos empurra de um vício para outro, sempre buscando o próximo estímulo, a próxima conquista, o próximo like ou reconhecimento, sem nunca parar para refletir se realmente queremos isso ou se estamos apenas cumprindo expectativas que nos foram impostas de fora para dentro sem nosso consentimento consciente.

Quais práticas simples podemos adotar para transformar casa em refúgio de liberdade?
Transformar o lar em um verdadeiro bastião de liberdade não significa se isolar permanentemente do mundo, mas sim criar momentos sagrados de desconexão genuína onde você recupera soberania sobre seu próprio tempo. Essas práticas funcionam como pequenas revoluções silenciosas contra a lógica produtivista que domina cada aspecto da vida moderna.
- Brincar sem culpa com filhos ou pessoas queridas por quanto tempo quiser, lembrando que nascemos para jogar e não apenas para trabalhar e produzir resultados mensuráveis
- Cozinhar receitas elaboradas com calma apreciando cada aroma e processo como forma de atenção plena, sem pressa de terminar rápido ou fotografar para redes sociais
- Ler ou estudar temas completamente desconectados do trabalho apenas pelo prazer puro de aprender, imaginar e expandir horizontes sem objetivos produtivos ou úteis
- Criar rituais pessoais de desconexão estabelecendo momentos onde dispositivos eletrônicos ficam desligados e a presença no aqui e agora é total e completa
Por que aceitar a dor é essencial para encontrar felicidade verdadeira?
Han denuncia que a sociedade contemporânea nos obriga a fugir da dor a qualquer custo, vendendo a mentira de que podemos e devemos estar sempre bem e felizes. Porém, a felicidade real é apenas fragmentária e vem sempre acompanhada da dor que paradoxalmente a traz e a sustenta como parte inseparável da experiência humana autêntica.
Quando aceitamos que a dor faz parte natural da vida, paramos de nos culpar por não estarmos sempre radiantes e produtivos, e finalmente encontramos liberdade de verdade. O filósofo alerta que sem respeito por esses momentos de vazio, reflexão e até sofrimento, a própria democracia está em perigo porque pessoas exaustas e constantemente estimuladas perdem a capacidade de pensar criticamente e se tornam apenas consumidores vazios sem aspirações elevadas ou direção própria que façam sentido para além do sistema produtivo.