Byung Chul Han, filósofo sul-coreano: “A depressão é a doença de uma sociedade que sofre de positividade excessiva.”

Para Han, a sociedade contemporânea abandonou o modelo disciplinar descrito por Michel Foucault

28/03/2026 16:45

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han provocou o pensamento contemporâneo ao afirmar que a depressão não é apenas uma doença individual, mas o sintoma de uma sociedade inteira que sofre de positividade excessiva. Em sua obra “Sociedade do Cansaço”, Han argumenta que vivemos numa era em que a cobrança por desempenho, produtividade e otimismo constante transformou o ser humano em explorador de si mesmo. Essa reflexão filosófica desafia a narrativa dominante de que basta “querer para conseguir” e revela como essa mentalidade está adoecendo gerações inteiras.

Han argumenta que cada época histórica possui suas enfermidades fundamentais.
Han argumenta que cada época histórica possui suas enfermidades fundamentais.Imagem gerada por inteligência artificial

O que Byung-Chul Han entende por “sociedade da positividade excessiva”?

Para Han, a sociedade contemporânea abandonou o modelo disciplinar descrito por Michel Foucault, onde o controle vinha de fora através de proibições, regras e vigilância. No lugar dessa negatividade externa, surgiu o que o filósofo chama de sociedade de desempenho, onde o imperativo não é mais “você não pode”, mas sim “você consegue”. Projetos, iniciativas e motivação substituíram mandamentos e proibições, criando uma ilusão de liberdade que na verdade aprisiona o indivíduo em uma corrida sem fim.

Essa positividade excessiva se manifesta na crença de que tudo é possível, de que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual e de que parar é sinônimo de fracasso. A filosofia de Han revela o paradoxo central dessa lógica: quanto mais livre o sujeito se sente para perseguir seus objetivos, mais se autoexplora, mais se cobra e mais se esgota. O resultado não é a realização plena prometida pelo discurso motivacional, mas sim o colapso psíquico que se manifesta em depressão, burnout e ansiedade generalizada.

Por que a depressão é considerada a doença fundamental do nosso século?

Han argumenta que cada época histórica possui suas enfermidades fundamentais. O século XIX foi marcado por doenças bacteriológicas, o século XX enfrentou ameaças virais. O século XXI, segundo a filosofia de Han, é definido por patologias neuronais: depressão, transtorno de déficit de atenção, transtorno de personalidade limítrofe e síndrome de burnout. Todas essas condições nascem do mesmo solo, o excesso de positividade que sobrecarrega o sistema nervoso.

A depressão, nessa perspectiva filosófica, irrompe quando o sujeito de desempenho “não pode mais poder”. O indivíduo que internalizou a crença de que nada é impossível se depara, inevitavelmente, com seus próprios limites. A distância entre o que ele acredita que deveria ser e o que consegue efetivamente realizar gera uma autoacusação destrutiva que se transforma em autoagressão. O depressivo, para Han, é o “inválido de uma guerra internalizada” contra si mesmo.

Como a autoexploração substituiu a exploração externa na análise de Han?

Uma das contribuições mais originais da filosofia de Byung-Chul Han é a identificação de que o mecanismo de dominação contemporâneo não opera mais pela coerção externa, mas pela autocoação. O sujeito de desempenho é simultaneamente agressor e vítima: ele se impõe metas inalcançáveis, se pune quando não as atinge e reinicia o ciclo sem perceber que está preso em uma lógica de exploração de si mesmo.

Os principais mecanismos dessa autoexploração identificados pela filosofia de Han incluem:

  • A transformação de cada indivíduo em “empresário de si mesmo”, que se cobra com mais intensidade do que qualquer chefe ou patrão faria
  • A eliminação da fronteira entre trabalho e descanso, onde até o lazer precisa ser produtivo e registrado nas redes sociais
  • A cultura do otimismo obrigatório que transforma a tristeza em tabu e o descanso em preguiça a ser combatida
  • A comparação constante com as vitrines de sucesso exibidas nas redes sociais, que alimenta a sensação de insuficiência permanente
Han argumenta que cada época histórica possui suas enfermidades fundamentais.
Han argumenta que cada época histórica possui suas enfermidades fundamentais.Imagem gerada por inteligência artificial

O que a filosofia de Han propõe como alternativa ao esgotamento?

Diante desse diagnóstico sombrio, Byung-Chul Han não propõe simplesmente trabalhar menos ou desconectar-se das redes sociais. Sua reflexão filosófica aponta para algo mais profundo: a necessidade de resgatar a vida contemplativa, o tédio criativo e a capacidade de dizer não. Para o pensador, a recuperação do equilíbrio psíquico passa por recuperar formas de existência que a sociedade de desempenho destruiu sistematicamente.

As propostas que emergem da filosofia de Han como caminhos de resistência ao esgotamento incluem:

  • A valorização do ócio contemplativo como espaço legítimo de reflexão e criatividade, não como tempo desperdiçado a ser otimizado
  • O resgate do tédio profundo como experiência necessária para que o pensamento se aprofunde além da superficialidade dos estímulos constantes
  • A recusa consciente do imperativo de desempenho que transforma toda atividade humana em capital a ser maximizado
  • A construção de relações genuínas com o outro em vez de conexões superficiais mediadas pela lógica da exposição digital

Por que o pensamento de Byung-Chul Han é essencial para entender o sofrimento contemporâneo?

A relevância da filosofia de Han está na sua capacidade de nomear um mal-estar que milhões de pessoas sentem, mas não conseguem articular. Ao identificar que a depressão não é falha individual, mas sintoma de uma estrutura social que adoece, o filósofo liberta o sujeito da culpa e redireciona o olhar para as condições que produzem o sofrimento. Essa mudança de perspectiva é, em si, um ato de resistência filosófica.

Num mundo onde 72% dos brasileiros relatam estresse no trabalho e quase um terço sofre de burnout, as reflexões de Byung-Chul Han deixaram de ser teoria abstrata e se tornaram descrição precisa da realidade vivida. A filosofia, quando toca o cotidiano com essa profundidade, cumpre sua função mais nobre: não apenas interpretar o mundo, mas oferecer instrumentos para que as pessoas compreendam o que as adoece e encontrem, na consciência crítica, o primeiro passo para uma existência menos exausta e mais verdadeiramente livre.