Cientistas chilenos acham provas de incêndios em florestas de 237 milhões de anos atrás na Ásia mostrando que os ecossistemas antigos da Terra já queimavam de formas bem surpreendentes
Fogo existia na Terra muito antes dos dinossauros dominarem o planeta e uma nova descoberta muda tudo o que sabíamos sobre isso
Um estudo internacional identificou carvão vegetal fossilizado com 237 milhões de anos na Formação Madygen, no Quirguistão, comprovando que incêndios florestais já ocorriam durante o Triássico, muito antes do que se imaginava. Essa descoberta redefine a compreensão sobre o fogo como força ecológica ancestral e levanta questões urgentes sobre os incêndios que assolam o planeta hoje.

Quais são as evidências de incêndios florestais no período Triássico?
Pesquisadores encontraram fragmentos de madeira carbonizada de gimnospermas preservados em sedimentos lacustres na Formação Madygen, datados da transição Ladiniano-Carniano. Os fragmentos são pequenos, variando de aproximadamente 0,3 mm a 2 cm, o que explica por que esse tipo de registro pode ficar esquecido em coleções científicas por décadas sem ser identificado.
Os sedimentos lacustres indicam que os resíduos carbonizados foram carregados pelas águas até o lago após os incêndios nas áreas vizinhas. Esse padrão de deposição é fundamental para entender como os paleoincêndios interagiam com a paisagem e os corpos d’água do Triássico Central da Ásia.
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Idade do achado: Fragmentos de carvão com 237 milhões de anos, da transição Ladiniano-Carniano do Triássico - 🌿
Tipo de planta: Madeira carbonizada de gimnospermas, grupo que inclui coníferas e parentes - 🔬
Método de análise: Microscópio eletrônico de varredura para confirmar a queima e estudar a anatomia da madeira - 🗺️
Local da descoberta: Formação Madygen, no sudoeste do Quirguistão, na Ásia Central
Por que a Formação Madygen é tão importante para a paleontologia?
A Formação Madygen é classificada como um Lagerstätte, termo reservado para sítios com preservação fóssil excepcionalmente abundante e detalhada. O local preservou plantas, insetos, invertebrados e vertebrados do Triássico Médio ao Tardio, totalizando mais de 25 mil espécimes de insetos fósseis já catalogados.

Além disso, a formação tem cerca de 560 metros de espessura, composta por depósitos lacustres, fluviais e aluviais, datados de aproximadamente 237 milhões de anos. Um dos seus diferenciais é capturar um ecossistema continental praticamente sem influência marinha, algo raro para depósitos desta era na Ásia Central.
Como o carvão fóssil revela o comportamento do fogo na pré-história?
O carvão vegetal se forma quando tecidos vegetais são aquecidos de maneira que preserva a estrutura microscópica original, em vez de permitir a decomposição comum. Pesquisadores utilizam o microscópio eletrônico de varredura para confirmar a queima e analisar a anatomia da madeira carbonizada, extraindo informações valiosas sobre a vegetação antiga.
O que o carvão fóssil de Madygen revelou sobre a vegetação triássica
Uma paisagem arbórea mais diversa do que se imaginava
Os fósseis vegetais da Formação Madygen eram conhecidos principalmente como impressões bidimensionais. A descoberta de madeira carbonizada abriu uma janela inédita para identificar quais espécies lenhosas realmente cresciam às margens do lago quando os incêndios ocorreram há 237 milhões de anos.
Os pesquisadores identificaram múltiplos tipos de madeira entre os fragmentos, sugerindo uma vegetação lenhosa mais variada do que os registros de impressões isoladas haviam indicado até então, ampliando significativamente o entendimento sobre a flora do Triássico na Ásia Central.
A análise dos paleoincêndios de Madygen também sustenta um padrão mais amplo de atividade ígnea no Triássico, com registros distribuídos ao longo de todo o intervalo Ladiniano-Carniano. Os pesquisadores destacam ainda que os níveis de oxigênio atmosférico do Triássico podem ter sido superiores aos atuais 21%, o que tornava as paisagens mais suscetíveis a ignições.
- O carvão fóssil preserva a microestrutura celular da madeira queimada, permitindo identificar o gênero ou família das plantas
- A presença de múltiplos tipos de madeira indica diversidade vegetal maior do que os registros de impressões sugeriam
- A deposição dos fragmentos em sedimentos lacustres indica que o fogo ocorreu em terra firme ao redor do lago, não dentro dele
O que os incêndios pré-históricos ensinam sobre as queimadas atuais?
Saber que incêndios ocorriam há 237 milhões de anos não significa que os incêndios modernos são naturais ou inevitáveis. O registro de tempo profundo apenas confirma que a Terra produz fogo sempre que os ingredientes se alinham, como combustível suficiente, oxigênio e condições climáticas favoráveis à ignição.

Hoje, esses ingredientes estão sendo intensificados pela ação humana. Dados da NASA apontam que a atividade global de incêndios mais do que dobrou nas últimas décadas, enquanto o IPCC conclui que as mudanças climáticas causadas pelo ser humano ampliaram as condições quentes e secas que favorecem grandes queimadas em regiões como a América do Norte.
- Entre março de 2024 e fevereiro de 2025, mais de 8 bilhões de toneladas métricas de CO₂ foram lançadas na atmosfera durante uma única temporada de incêndios, segundo a Agência Espacial Europeia
- Quando uma floresta passa de armazenadora de carbono a emissora, os cálculos climáticos se tornam ainda mais desfavoráveis para a humanidade
- A gestão florestal e a redução dos combustíveis fósseis são apontadas como caminhos essenciais para conter a intensificação dos incêndios no presente
Quais são os próximos passos da pesquisa sobre paleoincêndios em Madygen?
A equipe de pesquisa, liderada pelo Dr. Philippe Moisan, da Universidade de Atacama, no Chile, planeja retornar ao campo em agosto de 2026, após um longo intervalo relacionado a conflitos armados na região. A nova expedição contará com colaboradores internacionais e estudantes, ampliando o alcance científico da investigação.
O estudo foi publicado na revista Review of Palaeobotany and Palynology e reforça que a ciência de campo continua sendo insubstituível, mesmo em uma era de satélites e supercomputadores. A mensagem principal é clara: o fogo faz parte da história da Terra há centenas de milhões de anos, mas sua intensidade no presente depende diretamente das escolhas humanas sobre clima e manejo ambiental.