Cientistas da China ativam um ímã 700 mil vezes mais forte que o campo magnético da Terra e a dúvida é qual pesquisa precisa de tanta força extrema

Um imã supercondutor chinês redefine os limites da física experimental e abre novas possibilidades para a ciência mundial

Cientistas chineses ativaram, em janeiro de 2026, um imã supercondutores capaz de atingir 35,6 tesla, um campo magnético mais de 700 mil vezes superior ao do nosso planeta, abrindo uma nova fronteira para a pesquisa científica avançada e colocando a China no centro do debate global sobre tecnologia magnética de alta performance.

O cogue de Lootsi foi descoberto preservado sob o asfalto de Tallinn e revela detalhes inéditos sobre a navegação medieval do século XIV.
O cogue de Lootsi foi descoberto preservado sob o asfalto de Tallinn e revela detalhes inéditos sobre a navegação medieval do século XIV.Imagem gerada por inteligência artificial

O que torna o campo de 35,6 tesla tão impressionante para a ciência?

Para entender a grandiosidade desse feito, basta comparar: o campo magnético da superfície terrestre equivale a cerca de meio gauss, enquanto um simples ímã de geladeira gera por volta de 100 gauss. O novo equipamento opera em uma faixa que simplesmente não existe fora de laboratórios especializados ao redor do mundo.

Scanners de ressonância magnética comuns em hospitais operam entre 1,5 e 3 tesla, e aparelhos de pesquisa chegam a valores um pouco maiores sob rígidos controles. Por isso, um salto para a faixa dos 35 tesla é tratado como uma categoria completamente diferente de instrumento, com capacidades analíticas muito superiores às disponíveis atualmente.

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    Campo de 35,6 tesla: Mais de 700 mil vezes superior ao campo magnético natural da Terra
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    Comparação com MRI: Entre 12 e 24 vezes mais potente do que um scanner hospitalar convencional

  • Supercondutividade: Corrente elétrica sem perda de energia, possibilitando campos mais altos com menor desperdício térmico
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    Abertura utilizável: 35 milímetros de diâmetro no centro do imã, viabilizando experimentos práticos de laboratório

Como esse imã foi projetado para ser um recurso compartilhado?

O equipamento foi instalado no Synergetic Extreme Condition User Facility, localizado em Huairou Science City, a cerca de 60 quilômetros de Pequim, uma plataforma dedicada a experimentos que exigem condições extremas, como campos magnéticos muito intensos, inacessíveis na maioria das instituições de pesquisa comuns.

Objetos espalhados no interior do casco indicam que a tripulação abandonou a embarcação às pressas após um provável acidente.
Objetos espalhados no interior do casco indicam que a tripulação abandonou a embarcação às pressas após um provável acidente.Imagem gerada por inteligência artificial

A proposta do equipamento vai além de simplesmente bater um recorde: ele foi concebido como um recurso coletivo, no qual equipes nacionais e internacionais podem submeter propostas competitivas para reservar tempo de uso, sem custo, em janelas agendadas ao longo do ano. Desde o início das operações de teste, em 2022, pesquisadores de 11 países já realizaram experimentos no local.

O que é supercondutividade e por que ela muda tudo nesse contexto?

Um material supercondutor conduz eletricidade sem resistência quando resfriado abaixo de uma temperatura crítica, o que elimina a perda de energia na forma de calor. Isso significa que correntes muito mais altas podem circular sem aquecer o sistema, e correntes maiores são exatamente o que gera campos magnéticos mais intensos e estáveis.

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Como o imã chinês foi construído

Uma arquitetura de dois imãs encaixados

O sistema utiliza um imã interno feito de REBCO, um material supercondutor em formato de fita que mantém suas propriedades mesmo em campos muito elevados, inserido dentro de um imã supercondutor externo mais convencional. A combinação das duas camadas é o que permite atingir 35,6 tesla de forma contínua.

O Instituto de Engenharia Elétrica liderou o design e a integração do equipamento, enquanto uma equipe de física ficou responsável pelo monitoramento de precisão. A colaboração entre as duas equipes foi fundamental para garantir a estabilidade e a segurança do sistema durante os testes de validação.

Além da intensidade do campo, a estabilidade prolongada é um dos diferenciais mais relevantes desse imã. Segundo Luo Jianlin, do Instituto de Física, o equipamento consegue manter seu campo máximo por mais de 200 horas contínuas, o que equivale a mais de oito dias ininterruptos de operação.

  • Uso de ressonância magnética nuclear para leitura detalhada de estruturas moleculares
  • Repetição de experimentos para verificar e confirmar resultados surpreendentes
  • Execução de varreduras mais longas sem a necessidade de interromper a coleta de dados
  • Análise de materiais em condições magnéticas extremas, impossíveis em laboratórios convencionais

Quais são as metas futuras para esse imã supercondutor?

Wang Qiuliang, um dos responsáveis pelo projeto, reconheceu que a tecnologia ainda enfrenta gargalos de engenharia significativos, e apontou como próximo objetivo a marca de 40 tesla, além de esforços para ampliar a abertura interna do imã e reduzir os custos operacionais do sistema.

Em 28 de janeiro de 2026, cientistas em Pequim anunciaram um novo recorde para um ímã de pesquisa totalmente supercondutor, projetado para uso compartilhado.
Em 28 de janeiro de 2026, cientistas em Pequim anunciaram um novo recorde para um ímã de pesquisa totalmente supercondutor, projetado para uso compartilhado. - Créditos: ASIPP / Academia Chinesa de Ciências

Esses avanços podem parecer incrementais à primeira vista, mas são eles que determinam se mais pesquisadores ao redor do mundo poderão utilizar esse tipo de equipamento de alta precisão no futuro. A cada melhoria, o acesso se amplia e o impacto científico potencial do imã se multiplica.

  • Meta de atingir 40 tesla em versões futuras do equipamento
  • Ampliação da abertura interna para receber uma variedade maior de experimentos
  • Redução dos custos de operação para tornar o uso mais viável em escala global
  • Aumento das janelas de aplicação anuais para atender mais equipes de pesquisa

Como esse recorde se encaixa na corrida global por imãs mais poderosos?

É importante contextualizar que o recorde estabelecido se refere especificamente a imãs supercondutores totalmente supercondutores destinados ao uso compartilhado. Em 2024, um imã híbrido em Hefei, na China, atingiu 45,22 tesla ao combinar um núcleo resistivo com um invólucro supercondutor, mas esse tipo de configuração exige um consumo energético muito maior.

No Laboratório Nacional de Alto Campo Magnético dos Estados Unidos, um imã híbrido de 45 tesla consome cerca de 33 megawatts de potência e requer aproximadamente 15 mil litros de água de resfriamento por minuto. O objetivo dos imãs totalmente supercondutores é justamente reduzir essa pegada energética enquanto mantém a estabilidade, o que representa o verdadeiro desafio tecnológico da próxima geração.

Referências: China Achieves Major Breakthrough in All-superconducting Magnet—-Chinese Academy of Science Large Research Infrastructures User Service Platform