Cientistas sugerem construir uma muralha com mais de 80 quilômetros de extensão para deter o Glaciar do Juízo Final uma ideia que parece irreal pois a alternativa pode ser pior

Uma barreira subaquática de 80 km pode ser a última chance de desacelerar o "Glaciar do Apocalipse" na Antártida

Cientistas e engenheiros estão estudando uma proposta ousada para salvar o glaciar Thwaites, na Antártida Ocidental, conhecido como o “Glaciar do Apocalipse”: instalar uma enorme cortina subaquática de mais de 80 quilômetros de extensão para bloquear a entrada de água quente que acelera o seu derretimento, uma ideia que pode mudar o futuro do nível dos oceanos.

Engenheiros propõem a instalação de uma cortina subaquática de 80 quilômetros para bloquear a água quente que derrete o glaciar Thwaites.
Engenheiros propõem a instalação de uma cortina subaquática de 80 quilômetros para bloquear a água quente que derrete o glaciar Thwaites.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que o glaciar Thwaites preocupa as comunidades costeiras ao redor do mundo?

O glaciar Thwaites tem dimensões comparáveis às do estado da Flórida ou da Grã-Bretanha e funciona como uma barreira natural que sustenta massas de gelo ainda maiores no interior da Antártida. De acordo com a NASA, o seu colapso total poderia elevar o nível do mar em cerca de 65 centímetros, e as geleiras vizinhas que ele sustenta poderiam adicionar mais 2,4 metros adicionais caso fossem perdidas.

Mesmo poucos centímetros de elevação já causam impactos visíveis em cidades costeiras, onde as marés altas invadem ruas e sistemas de drenagem. O British Antarctic Survey registrou que a contribuição do Thwaites para o aumento do nível dos mares triplicou desde meados dos anos 1990, e os pesquisadores ainda debatem se as mudanças mais drásticas ocorrerão em décadas ou em séculos.

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    Elevação do mar: O colapso total do Thwaites pode elevar os oceanos em até 65 centímetros globalmente.
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    Aceleração do derretimento: A contribuição do glaciar ao aumento do nível do mar triplicou desde os anos 1990.
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    Risco costeiro: Cidades litorâneas já sofrem com marés altas invadindo ruas e sistemas de drenagem.
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    Geleiras vizinhas: O Thwaites sustenta outras geleiras que poderiam adicionar mais 2,4 metros ao nível do mar.

Qual é o verdadeiro papel da água quente no derretimento acelerado do glaciar?

Na Antártida Ocidental, o principal fator de risco não é o calor do ar na superfície, mas sim a água oceânica relativamente quente e salgada que circula por baixo das plataformas de gelo flutuantes, promovendo o chamado “derretimento basal”. Esse processo corrói o gelo a partir de sua base, tornando-o muito mais vulnerável ao colapso.

O projeto de geoengenharia glacial busca evitar a elevação do nível do mar através do redirecionamento de correntes oceânicas profundas.
O projeto de geoengenharia glacial busca evitar a elevação do nível do mar através do redirecionamento de correntes oceânicas profundas.Imagem gerada por inteligência artificial

Para compreender melhor esse fenômeno, uma equipe do British Antarctic Survey e do Instituto de Pesquisa Polar da Coreia perfurou, em fevereiro de 2026, um furo de acesso a cerca de mil metros de profundidade no Thwaites usando água aquecida a 80°C.

Como funcionaria a chamada “cortina de fundo do mar” na prática?

A proposta não consiste em um muro de concreto, mas em um conjunto de painéis flexíveis e flutuantes ancorados ao fundo do oceano, capazes de bloquear ou redirecionar parcialmente a entrada de água quente profunda que chega à base do glaciar.

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O que os estudos indicam sobre a viabilidade da cortina

Um ponto de estrangulamento como ponto de partida

Uma análise publicada propõe uma “escada de dificuldades”, começando pelo bloqueio de um ponto estreito de cerca de 5 quilômetros de largura.

O projeto ainda está em fase inicial de pesquisa, com foco em materiais, engenharia e testes de protótipos, incluindo um local experimental em um fiorde na Noruega, antes de qualquer possível implantação real na Antártida.

A versão mais discutida prevê uma cortina de aproximadamente 80 quilômetros de comprimento e 152 metros de altura, ancorada em águas de cerca de 600 metros de profundidade. Uma análise de viabilidade de 2023 estimou um custo de construção entre 40 e 80 bilhões de dólares, com manutenção anual entre 1 e 2 bilhões de dólares.

  • Os painéis seriam flexíveis e flutuantes, ancorados ao fundo marinho para redirecionar correntes de água quente.
  • As rotas de instalação seriam determinadas pela topografia do fundo oceânico e pela profundidade da água quente.
  • Testes preliminares estão sendo realizados em um fiorde na Noruega antes de qualquer etapa na Antártida.

Quais são os principais desafios técnicos, ambientais e políticos desse projeto?

Os próprios autores do estudo de 2023 reconhecem a necessidade de modelos computacionais de alta resolução para entender o fluxo da água pela barreira, além de um rigoroso estudo de impacto ambiental exigido pelo Sistema do Tratado Antártico.

Pesquisadores realizam testes de protótipos em fiordes noruegueses antes de avaliar a viabilidade técnica e ambiental da barreira na Antártida.
Pesquisadores realizam testes de protótipos em fiordes noruegueses antes de avaliar a viabilidade técnica e ambiental da barreira na Antártida.Imagem gerada por inteligência artificial

Alguns pesquisadores alertam que esses projetos podem desviar atenção das ações essenciais de redução da poluição climática. Entre os principais pontos de debate, destacam-se:

  • O impacto da cortina sobre a vida marinha local e os ecossistemas do Oceano Antártico.
  • A governança internacional necessária para autorizar uma obra dessa escala sob o Tratado Antártico.
  • O risco de que a proposta enfraqueça a pressão política por reduções reais de emissões.
  • A logística extremamente complexa de operar em uma das regiões mais isoladas e hostis do planeta.

O que os próximos passos da ciência podem revelar sobre o futuro do glaciar Thwaites?

No curto prazo, os avanços mais concretos virão de uma análise aprofundada dos dados coletados durante a perfuração de 2026, que serão integrados aos modelos oceânicos e glaciológicos em andamento. Esses resultados ajudarão os planejadores a estimar com mais precisão o risco de inundações costeiras futuras causadas pelo derretimento do Thwaites.

A questão central permanece em aberto: o mundo vai realmente instalar uma enorme cortina no Oceano Antártico? Talvez sim, talvez não. Mas o simples fato de que pesquisadores sérios estão avaliando essa possibilidade com rigor científico revela a urgência do problema climático e o alto custo das alternativas ignoradas.