Como as tartarugas marinhas retardam a propagação de uma alga invasora nos recifes do Havaí

A Chondria tumulosa é uma alga invasora identificada pela primeira vez em 2016 no atolão Manawai, no noroeste do Havaí.

26/04/2026 05:14

Um estudo recente da Universidade do Havaí revelou algo que surpreendeu cientistas do mundo todo: as tartarugas marinhas verdes estão desempenhando um papel fundamental na contenção de uma das ameaças mais graves aos recifes de coral do arquipélago havaiano. Elas se alimentam ativamente da Chondria tumulosa, uma alga invasora que, em menos de uma década, já cobriu mais de 101 quilômetros quadrados de ecossistema coralino. A descoberta animou pesquisadores, mas também levantou um alerta preocupante sobre o papel duplo que esses animais podem ter na propagação do problema.

A Chondria tumulosa é uma alga invasora identificada pela primeira vez em 2016 no atolão Manawai, no noroeste do Havaí.
A Chondria tumulosa é uma alga invasora identificada pela primeira vez em 2016 no atolão Manawai, no noroeste do Havaí.Imagem gerada por inteligência artificial

O que é a Chondria tumulosa e por que ela é tão perigosa?

A Chondria tumulosa é uma alga invasora identificada pela primeira vez em 2016 no atolão Manawai, no noroeste do Havaí. Desde então, sua expansão foi alarmante: em 2021 ela chegou ao atolão de Kuaihelani e, em 2022, ao atolão de Hōlanikū, formando mantos densos de até seis centímetros de espessura sobre os recifes de coral. Essa camada sufoca os corais vivos e expulsa espécies marinhas nativas, destruindo a biodiversidade que levou milhares de anos para se desenvolver.

A velocidade de expansão da alga invasora é um dos fatores que mais preocupa a comunidade científica. Sem controle, especialistas alertam que a Chondria tumulosa pode alcançar as ilhas principais do Havaí, colocando em risco ecossistemas inteiros e as espécies que dependem deles, incluindo peixes, invertebrados e outros organismos que vivem nos recifes de coral.

Como as tartarugas marinhas verdes ajudam a conter o avanço da alga?

A descoberta do papel das tartarugas marinhas verdes como controladoras naturais da Chondria tumulosa veio de câmeras submersas instaladas no atolão de Kuaihelani em junho e julho de 2025. As imagens mostraram três exemplares se alimentando da alga invasora por cerca de 50 minutos. Uma das fêmeas realizou 18 mordidas em apenas 95 segundos, removendo fragmentos de até 15 centímetros de diâmetro. Nenhum peixe ou ouriço local demonstrou eficiência semelhante na remoção da biomassa invasora.

Uma necropsia realizada em uma tartaruga encontrada na área confirmou que 25% do conteúdo digestivo do animal era composto por fragmentos de Chondria tumulosa. Isso mostra que as tartarugas marinhas verdes não estão ingerindo a alga por acidente, mas de forma intensa e consistente. Os principais benefícios observados dessa alimentação para os recifes de coral incluem:

  • Remoção direta de grandes volumes de biomassa da alga invasora
  • Controle natural sem intervenção humana, o que reduz custos e impactos nos ecossistemas
  • Atuação em áreas de difícil acesso para equipes de conservação
  • Potencial de supressão da Chondria tumulosa antes que ela sufoque os corais

Qual é o risco que as tartarugas marinhas representam para a expansão da alga?

O cenário não é simples. As mesmas tartarugas marinhas verdes que consomem a Chondria tumulosa também podem ser responsáveis por transportá-la para novas áreas. Como 96% das tartarugas verdes do Havaí aninhadas em Lalo migram para outros atolões do arquipélago, fragmentos viáveis da alga invasora podem ser excretados durante essas rotas migratórias, introduzindo o problema em locais ainda não contaminados.

A bióloga Tammy Summers, do Serviço de Pesca e Vida Silvestre dos Estados Unidos, resumiu bem esse dilema ao comentar o estudo: a tartaruga verde é um megaerbbívoro nativo com potencial real para suprimir a biomassa da alga, mas também levanta questões importantes sobre se os fragmentos excretados durante as migrações podem acelerar a propagação. Essa dualidade exige que qualquer estratégia de conservação considere os dois lados da equação ao mesmo tempo.

A Chondria tumulosa é uma alga invasora identificada pela primeira vez em 2016 no atolão Manawai, no noroeste do Havaí.
A Chondria tumulosa é uma alga invasora identificada pela primeira vez em 2016 no atolão Manawai, no noroeste do Havaí.Imagem gerada por inteligência artificial

O que os cientistas recomendam para proteger os recifes de coral do Havaí?

Diante desse cenário complexo, especialistas da Universidade do Havaí propuseram uma abordagem integrada. A professora Celia Smith, autora principal do estudo publicado na revista científica Coral Reefs, defendeu que é necessário aumentar o número de tartarugas marinhas verdes nativas, que ainda são consideradas uma espécie ameaçada de extinção, e ao mesmo tempo intensificar o monitoramento de todas as rotas que podem permitir a expansão da Chondria tumulosa. As principais medidas recomendadas pelo estudo são:

  • Ampliar os programas de proteção e recuperação das populações de tartarugas marinhas verdes
  • Implementar monitoramento com técnicas de DNA ambiental (eDNA) nas zonas críticas de aninhamento
  • Mapear as rotas migratórias das tartarugas para identificar pontos de risco de dispersão da alga invasora
  • Fortalecer a cooperação entre múltiplos parceiros científicos e governamentais para respostas rápidas
  • Priorizar a proteção dos recifes de coral ainda não afetados pela Chondria tumulosa

Por que esse caso importa para a conservação marinha ao redor do mundo?

O que está acontecendo nos recifes de coral do Havaí é um exemplo raro e valioso de como a natureza pode oferecer respostas para seus próprios desequilíbrios, mas também de como essas respostas raramente são simples. A descoberta do papel das tartarugas marinhas verdes no controle da Chondria tumulosa reforça a importância de preservar os grandes herbívoros marinhos, animais que exercem funções ecológicas fundamentais e que, sem proteção adequada, desaparecem antes que sequer possamos compreender o que perdemos.

A batalha contra a alga invasora no arquipélago havaiano é também um reflexo dos desafios globais que os recifes de coral enfrentam, sob pressão das mudanças climáticas, da poluição e das espécies invasoras. Proteger as tartarugas marinhas verdes e monitorar de perto cada rota de expansão da Chondria tumulosa são passos essenciais para garantir que esses ecossistemas únicos continuem existindo para as próximas gerações.