Descoberta incomum no mar: em apenas 13 dias, especialistas encontraram 22 navios no fundo do oceano, alguns com 2.000 anos de idade

Fournoi é um conjunto de treze ilhas e ilhotas situadas entre Samos e Icária, no Egeu oriental, sem cidades importantes ou grandes portos na Antiguidade.

09/05/2026 23:58

Em setembro de 2015, uma expedição greco-americana mergulhou nas águas do arquipélago de Fournoi, no Mar Egeu oriental, esperando encontrar alguns poucos vestígios submersos. O que a equipe descobriu foi muito além de qualquer projeção: 22 naufrágios antigos mapeados em apenas 13 dias de mergulho, alguns com mais de 2.000 anos de existência e cargas nunca antes registradas na arqueologia mediterrânea. A descoberta reescreveu o mapa do patrimônio subaquático grego de um só golpe.

A metodologia usada pela expedição fugiu do padrão tecnológico custoso de muitos projetos de arqueologia submarina.
A metodologia usada pela expedição fugiu do padrão tecnológico custoso de muitos projetos de arqueologia submarina.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que Fournoi se tornou o epicentro de tantos naufrágios?

Fournoi é um conjunto de treze ilhas e ilhotas situadas entre Samos e Icária, no Egeu oriental, sem cidades importantes ou grandes portos na Antiguidade. O que tornava o arquipélago estratégico era sua posição geográfica: ele cortava ao mesmo tempo a rota leste-oeste do Mediterrâneo e a rota norte-sul que ligava o Mar Egeu ao Levante e ao Mar Negro. Navios carregados de mercadorias cruzavam essas águas por séculos, e muitos não chegaram ao destino.

Recifes submersos e tempestades repentinas fazem parte da explicação para a concentração de embarcações afundadas na área. O arqueólogo George Koutsouflakis, codiretor do projeto, resumiu a surpresa da equipe com precisão: em uma temporada típica, espera-se encontrar quatro ou cinco naufrágios. Em Fournoi, as embarcações apareciam literalmente em todos os lugares.

Como a equipe localizou os naufrágios em tão pouco tempo?

A metodologia usada pela expedição fugiu do padrão tecnológico custoso de muitos projetos de arqueologia submarina. Em vez de sonares de alta precisão e varreduras remotas, o grande diferencial foi a parceria com a comunidade local. Pescadores e mergulhadores de esponja que conheciam o fundo do mar há décadas forneceram mapas desenhados à mão com marcações de dezenas de pontos suspeitos. Esse conhecimento acumulado guiou os arqueólogos direto aos sítios.

A expedição foi uma iniciativa conjunta entre o Eforado Grego de Antiguidades Subaquáticas e a RPM Nautical Foundation, dos Estados Unidos, codirigida por George Koutsouflakis e Peter Campbell, da Universidade de Southampton. Cada naufrágio foi documentado por fotogrametria, técnica que gera planos tridimensionais detalhados do sítio sem necessidade de remoção imediata dos artefatos.

Confira a seguir o vídeo do canal Bridge to Terabithia apresentando essa descoberta surpreendente:

O que os naufrágios revelam sobre o comércio antigo no Mediterrâneo?

Os 22 naufrágios do arquipélago de Fournoi abrangem um período impressionante, do Período Arcaico (700-480 a.C.) até o século XVI d.C. Mais da metade das embarcações afundou durante o Período Romano Tardio, entre 300 e 600 d.C., o que indica um pico intenso de tráfego marítimo nessa rota durante os séculos finais do Império Romano. As cargas recuperadas apontam conexões com Chipre, Egito, Espanha, norte da África e o litoral do Mar Negro.

Os principais artefatos identificados foram as ânforas, recipientes de cerâmica usados para transportar azeite, vinho, molho de peixe e outros produtos a granel. Pelo menos três naufrágios continham cargas absolutamente inéditas na arqueologia mediterrânea, incluindo grandes ânforas do Mar Negro datadas do século II d.C. e os chamados “cenouras de Sinope”, vasilhas de formato incomum produzidas na cidade costeira turca de Sinope.

A metodologia usada pela expedição fugiu do padrão tecnológico custoso de muitos projetos de arqueologia submarina.
A metodologia usada pela expedição fugiu do padrão tecnológico custoso de muitos projetos de arqueologia submarina.Imagem gerada por inteligência artificial

Quais são os achados mais raros entre os 22 sítios?

Três naufrágios se destacam pelo caráter único de suas cargas. O primeiro continha cerâmica do Período Arcaico proveniente da ilha de Samos, provavelmente destinada ao Chipre antes do naufrágio. O segundo guardava ânforas de origem norte-africana, raridade considerável para um sítio tão a leste no Mar Egeu. O terceiro apresentava as já mencionadas ânforas de Sinope, nunca antes encontradas em naufrágio, com formato que os pesquisadores compararam a cenouras alongadas.

  • Naufrágio com cerâmica arcaica de Samos, possivelmente destinada ao Chipre
  • Embarcação com carga norte-africana, rara no Egeu oriental
  • Naufrágio com ânforas de Sinope em formato inédito na arqueologia submarina
  • Âncora de pedra do Período Arcaico pesando cerca de 400 kg, erguida de 45 metros de profundidade
  • Doze dos 22 naufrágios datados do Período Romano Tardio, entre 300 e 600 d.C.

O que ainda está por ser descoberto em Fournoi?

A expedição de 2015 explorou menos de 5% da linha costeira do arquipélago e já acrescentou 12% ao total de naufrágios antigos conhecidos em toda a Grécia. As temporadas seguintes confirmaram o potencial do sítio: até 2026, pesquisas sistemáticas já catalogaram mais de 60 naufrágios na área de Fournoi, tornando o local um dos campos de arqueologia marítima mais ricos do Mediterrâneo. O Ministério da Cultura grego chegou a criar rotas de mergulho regulamentadas para dar acesso controlado ao patrimônio submerso.

O projeto de George Koutsouflakis e sua equipe mostra que o fundo do Mar Egeu ainda guarda séculos de história comercial intactos sob camadas de sedimento e areia. Cada nova temporada de mergulho em Fournoi amplia o conhecimento sobre as redes de troca que conectaram o mundo antigo, de carga em carga, de porto em porto, por mais de mil anos de navegação ininterrupta.