Diga adeus ao dia de 24 horas: a partir desta data, os dias na Terra durarão 25 horas

A principal responsável pela desaceleração da rotação da Terra é a interação gravitacional com a Lua.

13/04/2026 10:18

A ideia de ganhar uma hora extra no dia parece tentadora, mas a ciência logo desfaz o entusiasmo: os dias na Terra estão ficando mais longos de verdade, porém em um ritmo tão imperceptível que nenhuma geração humana chegará a sentir a diferença. A rotação da Terra vem desacelerando gradualmente há bilhões de anos por causa da influência gravitacional da Lua, e estudos apontam que, em um futuro muito distante, o planeta poderá completar uma volta sobre o próprio eixo em 25 horas. O problema é que “futuro distante” aqui significa algo em torno de 200 milhões de anos.

A desaceleração da rotação da Terra ocorre em uma escala de tempo que ultrapassa completamente qualquer referência humana.
A desaceleração da rotação da Terra ocorre em uma escala de tempo que ultrapassa completamente qualquer referência humana.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a rotação da Terra está ficando mais lenta ao longo do tempo?

A principal responsável pela desaceleração da rotação da Terra é a interação gravitacional com a Lua. A força gravitacional do satélite puxa constantemente os oceanos terrestres, criando as marés. O atrito gerado entre a água do mar e o fundo oceânico durante esse processo funciona como um freio natural, transferindo energia cinética da rotação do planeta para a órbita lunar. O resultado é duplo: a Terra gira cada vez mais devagar, e a Lua se afasta gradualmente do planeta a uma taxa de aproximadamente 3,8 centímetros por ano.

Segundo o pesquisador Fernando Roig, do Observatório Nacional, vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, esse processo é estudado desde o século XVIII. A rotação da Terra apresenta desaceleração sistemática desde a formação do planeta, há cerca de 4,5 bilhões de anos. Há 600 milhões de anos, por exemplo, um dia durava apenas 21 horas. Hoje, um dia solar tem 23 horas, 56 minutos e 4 segundos, valor que não é fixo e pode variar ligeiramente de acordo com a estação do ano e outros fatores geofísicos.

Qual é o ritmo real dessa mudança e quando chegaremos a 25 horas?

A desaceleração da rotação da Terra ocorre em uma escala de tempo que ultrapassa completamente qualquer referência humana. De acordo com estudos, os dias aumentam em média 1,7 milissegundo a cada século, o equivalente a 0,0017 segundo por 100 anos. Para se ter uma dimensão do que isso representa, seriam necessários mais de 39 mil anos apenas para acumular seis milissegundos de diferença. O dia de 25 horas está estimado para daqui a aproximadamente 200 milhões de anos, mantendo o ritmo atual de freamento.

O Observatório Nacional reforça o caráter sensacionalista das manchetes sobre o tema: não existe nenhuma data precisa estabelecida pela ciência para essa mudança, e a diferença na duração do dia ocorre em frações tão minúsculas de segundo que nenhum relógio vai atrasar nem nenhum calendário precisará ser reescrito em nenhum futuro próximo. O que os cientistas monitoram com relógios atômicos de alta precisão são variações da ordem de milissegundos, imperceptíveis na vida cotidiana, mas relevantes para sistemas de navegação global e comunicações de precisão.

O que mais pode influenciar a velocidade de rotação da Terra além da Lua?

A desaceleração causada pela força de maré lunar é o processo dominante no longo prazo, mas outros fatores também influenciam a velocidade de rotação da Terra de forma temporária. Entre julho e agosto de 2025, por exemplo, o planeta registrou uma aceleração inesperada, um fenômeno monitorado pelos cientistas e ainda em investigação. Antes disso, a partir de 2020, foram registrados dias ligeiramente mais curtos do que o padrão, uma tendência que intrigou pesquisadores por ser o oposto do que a teoria gravitacional prevê para o longo prazo.

Existem vários eventos capazes de alterar momentaneamente o momento de inércia do planeta e, com isso, sua velocidade de rotação. Confira os principais fatores que a ciência já identificou como influentes nesse comportamento:

  • Derretimento de calotas polares e geleiras: a redistribuição de massa de gelo para os oceanos altera a distribuição de peso do planeta, afetando diretamente sua velocidade de giro.
  • Grandes terremotos: eventos sísmicos de alta magnitude podem causar oscilações bruscas na rotação, alterando a duração do dia em frações de milissegundo.
  • Marés atmosféricas: o deslocamento periódico de grandes massas de ar ao redor do planeta impacta diretamente na rotação da Terra, especialmente nas variações sazonais.
  • Movimento do núcleo interno: o núcleo sólido da Terra tem dinâmica própria e sua interação com o manto externo influencia a velocidade de rotação de forma complexa.
  • Variações oceânicas: correntes e deslocamentos de massa de água nos oceanos também contribuem para pequenas flutuações na velocidade de giro do planeta.
A desaceleração da rotação da Terra ocorre em uma escala de tempo que ultrapassa completamente qualquer referência humana.
A desaceleração da rotação da Terra ocorre em uma escala de tempo que ultrapassa completamente qualquer referência humana.Imagem gerada por inteligência artificial

Como a história geológica da Terra confirma essa desaceleração?

A evidência mais concreta de que a rotação da Terra vem desacelerando há bilhões de anos vem dos registros fósseis e da geologia. Pesquisadores conseguem medir a duração dos dias em épocas remotas por meio de anéis de crescimento em corais antigos e camadas de sedimento, que funcionam como calendários naturais. Os dados mostram que, quando a vida multicelular surgiu nos oceanos, há cerca de 600 milhões de anos, um dia terrestre durava em torno de 21 horas. No início da história do planeta, há 4,5 bilhões de anos, a rotação da Terra era tão rápida que um dia durava entre 5 e 10 horas.

Esse histórico confirma que o dia de 25 horas não é uma teoria especulativa, mas a continuação natural de um processo que já transformou radicalmente a duração dos dias ao longo da história do planeta. O que torna o assunto curioso para o público em geral é a percepção de que o tempo, algo que parece absolutamente fixo na experiência humana, é na verdade uma variável moldada pela física do sistema solar. A força de maré entre a Terra e a Lua segue agindo silenciosamente, milissegundo por milissegundo, em uma das danças gravitacionais mais lentas e implacáveis do universo.

Quais são as consequências práticas dessa mudança para a ciência e a tecnologia hoje?

Embora o dia de 25 horas seja uma perspectiva para centenas de milhões de anos, as variações mínimas na rotação da Terra já têm impacto real nos sistemas de alta precisão que sustentam a tecnologia moderna. Sistemas de posicionamento global como o GPS dependem de sinais de tempo extremamente precisos, e qualquer variação na velocidade de rotação do planeta precisa ser compensada nos cálculos para que a localização continue sendo exata. Os chamados “segundos intercalares”, ajustes adicionados ou removidos dos relógios atômicos de tempos em tempos, existem justamente para sincronizar o tempo civil com a rotação real da Terra.

O monitoramento contínuo da rotação da Terra é, portanto, uma necessidade prática da infraestrutura digital global, não apenas uma curiosidade astronômica. Pesquisadores do Observatório Nacional e de instituições como a Universidade Técnica de Munique e a NASA acompanham essas variações com instrumentos de precisão crescente, incluindo lasers de anel giroscópico capazes de detectar mudanças na velocidade de giro do planeta em escala de milissegundos. A ciência que explica por que um dia futuro terá 25 horas é a mesma que garante o funcionamento dos satélites e das redes de comunicação que usamos hoje.

Referências: Why the day is 24 hours long: The history of Earth’s atmospheric thermal tide, composition, and mean temperature | Science Advances