Dois adolescentes argentinos foram selecionados pela NASA para projetar uma missão tripulada a Marte

Felipe Pujol tem 18 anos e estuda no Bachillerato de Bellas Artes da Universidade Nacional de La Plata.

17/03/2026 09:36

Uma jovem de 17 anos de Posadas, no interior da Argentina, e um estudante de 18 anos de La Plata acabam de conquistar algo que a maioria das pessoas nem sabe que é possível para adolescentes: foram selecionados para participar do programa United Space School 2026, uma iniciativa educacional internacional vinculada à NASA que reúne estudantes do ensino médio de diversos países para projetar, em equipe, uma missão tripulada a Marte. Ana Paula Vega Junhanns e Felipe Pujol viajarão a Houston, no Texas, onde passarão duas semanas estudando com cientistas e engenheiros do setor aeroespacial e trabalhando no design de uma expedição ao planeta vermelho como se fosse uma missão real.

O United Space School é um programa educacional internacional realizado anualmente em Houston
O United Space School é um programa educacional internacional realizado anualmente em HoustonImagem gerada por inteligência artificial

Quem são os dois adolescentes selecionados?

Felipe Pujol tem 18 anos e estuda no Bachillerato de Bellas Artes da Universidade Nacional de La Plata. Ele conheceu o programa quando soube que um estudante do mesmo colégio havia participado de uma edição anterior. A partir desse momento, decidiu que faria de tudo para ser selecionado. Ao ser informado da aprovação durante uma videochamada com os organizadores, Felipe conta que ficou paralisado por alguns segundos até processar que aquilo era real e que ele realmente iria a Houston.

Ana Paula Vega Junhanns tem 17 anos e cursa o quinto ano do ensino médio técnico no Instituto Janssen, em Posadas, capital da província de Misiones. Sua história de persistência é especialmente inspiradora: ela se candidatou ao programa três vezes antes de ser aceita. A primeira tentativa foi em 2022, quando ainda tinha 14 anos. Após duas recusas, Ana Paula não desistiu e tentou novamente em 2025, quando finalmente recebeu a confirmação de que seria uma das representantes argentinas na edição 2026. Quando a câmera da videochamada se apagou, ela ligou para toda a família para contar a notícia.

O que é o programa United Space School e como funciona?

O United Space School é um programa educacional internacional realizado anualmente em Houston, Texas, que seleciona estudantes do ensino médio de dezenas de países para uma experiência imersiva de duas semanas no universo da exploração espacial. O programa é vinculado ao Johnson Space Center da NASA e oferece aos participantes acesso direto a instalações, profissionais e tecnologias que normalmente só estão disponíveis para engenheiros e cientistas da agência.

Durante os 15 dias de programa, os estudantes participam de aulas, palestras e workshops ministrados por cientistas, engenheiros e astronautas, além de visitarem centros de pesquisa e instalações históricas da NASA. A atividade central é o projeto em equipe: os participantes são divididos em cinco grupos, cada um responsável por um aspecto específico de uma missão tripulada a Marte, como exploração da superfície, logística de transporte, sistemas de comunicação, suporte de vida e planejamento de contingências. O resultado final é uma proposta completa de arquitetura de missão apresentada como se fosse um projeto real submetido à agência espacial.

Confira o vídeo do Felipe Pujol comentando sobre:

Como foi o processo de seleção dos estudantes argentinos?

O caminho até a aprovação não foi simples para nenhum dos dois. O processo de seleção envolve múltiplas etapas que avaliam não apenas o conhecimento acadêmico dos candidatos, mas também sua capacidade de trabalho em equipe, liderança, criatividade na resolução de problemas e motivação genuína pela exploração espacial. Entrevistas, apresentação de projetos de pesquisa e avaliações de perfil fazem parte das fases eliminatórias.

A trajetória de Ana Paula é um exemplo poderoso de como a persistência pode ser mais determinante do que o talento isolado. Ao se candidatar pela primeira vez aos 14 anos e ser recusada, muitos adolescentes teriam desistido. Ela tentou novamente no ano seguinte, foi recusada mais uma vez e, em vez de interpretar as negativas como um sinal para parar, usou cada recusa como combustível para se preparar melhor. Na terceira tentativa, a preparação acumulada e a maturidade adquirida fizeram a diferença. Felipe, por sua vez, transformou a inspiração de saber que um colega de escola havia participado em ação concreta, dedicando-se ao processo com a determinação de quem enxerga uma oportunidade e decide agarrá-la.

O que os estudantes farão durante as duas semanas em Houston?

A experiência vai muito além de assistir palestras em uma sala de aula. Os estudantes terão contato direto com as instalações onde as missões espaciais americanas são planejadas e controladas, incluindo o lendário Johnson Space Center, centro de operações de voos tripulados da NASA desde a era Apollo. Ana Paula destacou em entrevista que a expectativa de visitar esses locais é uma das partes mais emocionantes do programa.

O trabalho em equipe na construção do projeto de missão a Marte é estruturado para simular a dinâmica real de uma equipe de engenharia aeroespacial. Cada grupo precisa considerar desafios reais como a duração da viagem, a proteção contra radiação cósmica, a produção de alimentos e oxigênio durante o trajeto, os sistemas de comunicação com atraso de sinal de até 20 minutos, e as condições de pouso e sobrevivência na superfície marciana. Felipe explicou que a proposta final deve cobrir todos os aspectos de uma missão completa, desde a decolagem até o retorno à Terra.

O United Space School é um programa educacional internacional realizado anualmente em Houston
O United Space School é um programa educacional internacional realizado anualmente em HoustonImagem gerada por inteligência artificial

O que essa conquista representa para jovens da América Latina?

A seleção de dois adolescentes argentinos para um programa vinculado à NASA demonstra que o talento e a determinação existem em todos os cantos do mundo, inclusive em cidades que estão longe dos grandes centros de tecnologia e pesquisa. Ana Paula vem de Posadas, uma cidade de pouco mais de 300 mil habitantes na fronteira com o Paraguai. Felipe estuda em uma escola de Belas Artes, não em um colégio técnico especializado em ciências exatas. Nenhum dos dois teve acesso a laboratórios de ponta ou recursos extraordinários. O que tiveram foi curiosidade, dedicação e a coragem de se candidatar a algo que parecia fora de alcance.

A história de Ana Paula e Felipe é um lembrete de que as grandes oportunidades raramente chegam na primeira tentativa. Ana Paula foi recusada duas vezes e voltou a tentar. Felipe viu uma possibilidade onde outros veriam apenas a história de outra pessoa e decidiu criar a sua própria. Para os milhões de jovens latino-americanos que sonham com ciência, tecnologia e exploração espacial mas acreditam que essas portas só se abrem para quem nasceu nos países certos, esses dois adolescentes argentinos são a prova viva de que a persistência silenciosa é o combustível mais poderoso que existe para transformar o improvável em realidade.