Durante as obras de um prédio em Tallinn, um barco medieval de 24 metros foi encontrado a apenas um metro e meio sob o asfalto e um sinal bem intrigante indica que os marinheiros nem tiveram tempo de juntar suas coisas

Um naufrágio medieval com mais de 650 anos foi encontrado a menos de dois metros abaixo do asfalto de uma cidade moderna na Estônia

Em 2022, operários que preparavam a fundação de um novo edifício em Tallinn, na Estônia, encontraram algo que ninguém esperava: um navio medieval inteiro preservado a menos de dois metros abaixo do asfalto. O achado, batizado de cogue de Lootsi, guarda objetos cotidianos, um compasso funcionando e pistas perturbadoras sobre uma fuga desesperada de sua tripulação há mais de seis séculos.

Cientistas chineses ativam imã supercondutor capaz de gerar um campo magnético de 35,6 tesla.
Cientistas chineses ativam imã supercondutor capaz de gerar um campo magnético de 35,6 tesla.Imagem gerada por inteligência artificial

O que foi encontrado nas obras da rua Lootsi em Tallinn?

As máquinas de construção atingiram madeira antiga em um terreno que, séculos atrás, ficava próximo ao porto da cidade. O cogue de Lootsi tem cerca de 24 metros de comprimento, quase 9 metros de largura e aproximadamente 4 metros de altura, tornando-se um dos achados medievais mais expressivos da Europa nos últimos anos.

A embarcação foi transportada ao Museu Marítimo da Estônia em quatro partes, onde arqueólogos e conservadores finlandeses trabalham controlando a umidade e removendo os artefatos com extremo cuidado técnico, sem permitir que a madeira seque rapidamente e se deteriore.


  • Dimensões impressionantes: Cerca de 24 metros de comprimento, quase 9 de largura e 4 de altura, tornando-o um dos maiores achados medievais da Europa recente.
  • 🧭
    Compasso a seco: Acredita-se ser o mais antigo compasso a seco da Europa ainda em funcionamento, com a agulha magnética operante após mais de 600 anos.
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    Objetos cotidianos: Ferramentas, armas, sapatos de couro e restos de dois ratos de navio revelam o ambiente de trabalho real dos marinheiros medievais.
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    Dendrocronologia: Pesquisa com anéis de crescimento das árvores indica que os carvalhos usados na estrutura foram cortados entre 1370 e 1374.
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    Fuga repentina: O estado disperso dos pertences sugere que a tripulação abandonou o navio às pressas, sem tempo de recolher seus objetos pessoais.

Por que o compasso encontrado no navio é tão extraordinário?

Um compasso a seco funciona com uma agulha magnetizada que gira sobre uma rosa dos ventos, sem líquido no interior. Para os marinheiros medievais do Báltico, um instrumento assim representava a diferença entre navegar com alguma precisão e simplesmente adivinhar a rota em mares gelados e imprevisíveis.

O equipamento instalado em Huairou Science City foi projetado para o uso compartilhado de pesquisadores do mundo inteiro.
O equipamento instalado em Huairou Science City foi projetado para o uso compartilhado de pesquisadores do mundo inteiro.Imagem gerada por inteligência artificial

Além do compasso, os itens encontrados no interior do casco transformam o navio de um simples objeto de madeira em um ambiente de trabalho vivo e documentado. Sapatos, ferramentas espalhadas e até os restos de dois ratos de porão compõem uma cena do cotidiano marítimo do século XIV com riqueza de detalhes raramente preservada.

O que os vestígios indicam sobre a saída da tripulação?

O pesquisador Priit Lätti, do Museu Marítimo da Estônia, avaliou que o navio não foi simplesmente abandonado com calma. A distribuição caótica dos pertences dentro do casco aponta para algo muito mais urgente e perturbador do que um desembarque planejado.

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Uma fuga registrada pelo tempo

“As pessoas tiveram que sair do navio às pressas”

Essa frase do pesquisador Lätti muda completamente o tom do achado. Em vez de um navio esvaziado com cuidado e descartado, os arqueólogos podem estar diante das consequências de um acidente próximo ao porto de Tallinn, onde ninguém teve tempo de salvar seus pertences.

Uma tripulação medieval enfrentando um naufrágio iminente não pararia para recolher sapatos soltos, colheres, ferramentas ou pequenas cargas. A sobrevivência vinha antes de qualquer coisa, e os objetos esquecidos são hoje a prova mais eloquente disso.

Esse cenário de emergência é reforçado pelo estado geral dos artefatos, que não foram organizados nem removidos antes do afundamento. A cena lembra qualquer pessoa que já saiu correndo e deixou algo para trás, com a diferença de que, nesse caso, as apostas eram a própria vida dos navegantes.

  • Os objetos pessoais espalhados indicam saída repentina e sem planejamento
  • Ferramentas e sapatos esquecidos apontam que não houve tempo de recolha
  • A ausência de desembarque organizado sugere um acidente próximo ao porto

O que a dendrocronologia revelou sobre a origem da madeira do navio?

A dendrocronologia, ciência que estuda os anéis de crescimento das árvores para datar e rastrear a origem da madeira, funciona como um código de barras natural. Cada tábua carrega a história da floresta onde a árvore cresceu, permitindo identificar regiões de procedência com precisão considerável.

Os trabalhadores descobriram o acidente pela primeira vez na Lootsi Street em 2022, apenas cerca de 1,5 metro abaixo da superfície.Os trabalhadores descobriram o acidente pela primeira vez na Lootsi Street em 2022, apenas cerca de 1,5 metro abaixo da superfície.
Os trabalhadores descobriram o acidente pela primeira vez na Lootsi Street em 2022, apenas cerca de 1,5 metro abaixo da superfície.Os trabalhadores descobriram o acidente pela primeira vez na Lootsi Street em 2022, apenas cerca de 1,5 metro abaixo da superfície. - Créditos: (Foto/Museu Marítimo da Estônia)

A pesquisa liderada por Aoife Daly e colaboradores identificou que a estrutura principal usou carvalhos cortados entre os invernos de 1370 e 1372, enquanto partes superiores e algumas peças soltas usaram árvores derrubadas no inverno de 1373 a 1374. Isso sugere que o navio era relativamente novo quando afundou, construído ao longo de vários invernos de corte, transporte e montagem.

  • A estrutura principal utilizou carvalhos cortados entre 1370 e 1372
  • Peças da parte superior datam do inverno de 1373 a 1374
  • A madeira veio de mais de uma procedência, com conexões a redes bálticas ligadas à Lituânia e regiões próximas
  • O navio era provavelmente novo quando naufragou, construído ao longo de poucos anos

Por que outro naufrágio ainda permanece sob o solo de Tallinn?

Lätti confirmou que uma embarcação ainda mais antiga permanece enterrada próximo à rua Lootsi, e os arqueólogos optaram conscientemente por não escavá-la de imediato. A razão é técnica: o solo úmido pode proteger madeira antiga por séculos, enquanto a exposição ao ar pode deteriorá-la rapidamente sem um plano de conservação adequado.

O cogue de Lootsi oferece uma janela rara para a navegação, o comércio e a vida cotidiana no século XIV báltico. Após a conclusão da conservação, o Museu Marítimo da Estônia planeja exibir o navio permanentemente ao público, transformando o que começou como uma fundação de escritório em uma das janelas mais vívidas para o mundo medieval do norte europeu.

Referências: Timber for a medieval Cog – Wood studies of the Lootsi 8 wreck, Tallinn – ScienceDirect