Este americano que injetou veneno de cobra em si mesmo tornou-se muito útil para a ciência

O homem que desafiou a morte e transformou a ciência moderna

Um entusiasta de serpentes que passou quase duas décadas se expondo a venenos acabou participando de um avanço científico promissor no combate às picadas de cobras, ajudando a criar um possível antiveneno universal. A história gira em torno de Tim Friede, conhecido por se submeter voluntariamente a mordidas e injeções de veneno de diferentes espécies, e de um grupo de pesquisadores que viu nesse comportamento extremo uma oportunidade rara para desenvolver um antiveneno de alcance ampliado e potencialmente útil em várias regiões do mundo.

Entre o fim dos anos 1990 e 2018, Friede acumulou centenas de exposições a toxinas de cobras como cobras corais, cascavéis e mambas.
Entre o fim dos anos 1990 e 2018, Friede acumulou centenas de exposições a toxinas de cobras como cobras corais, cascavéis e mambas.Imagem gerada por inteligência artificial

O que é um antiveneno universal e por que ele é diferente?

A palavra chave central desse tema é antiveneno universal, isto é, um tratamento capaz de neutralizar o veneno de um grande conjunto de espécies sem a necessidade de uma fórmula específica para cada cobra. Hoje, a maior parte dos soros antiofídicos é produzida a partir do veneno de espécies locais, gerando produtos regionais e com eficácia limitada fora do conjunto de animais para os quais foram desenvolvidos.

No estudo publicado em 2025 na revista Cell, a equipe do imunologista Jacob Glanville, diretor executivo da empresa Centivax, combinou anticorpos extraídos do sangue de Tim Friede com uma molécula conhecida como varespladib, um inibidor de fosfolipase A2. Esse composto tem a capacidade de inibir uma enzima envolvida em cerca de 95 por cento das picadas de serpentes, o que o torna um candidato interessante para compor um antiveneno de amplo espectro.

Como funciona o antiveneno universal desenvolvido pelos pesquisadores?

Entre o fim dos anos 1990 e 2018, Friede acumulou centenas de exposições a toxinas de cobras como cobras corais, cascavéis e mambas. Com o tempo, seu organismo desenvolveu uma forma de tolerância a diversas neurotoxinas, gerando anticorpos raros que passaram a ser estudados como base para um novo tipo de tratamento.

A ideia dos cientistas foi criar um coquetel que atuasse ao mesmo tempo sobre componentes específicos do veneno e sobre mecanismos comuns a muitas espécies. O varespladib age bloqueando a fosfolipase A2, enquanto os anticorpos derivados de Friede se ligam a toxinas críticas, ampliando a proteção e aumentando a chance de eficácia em diferentes partes do mundo.

Quais foram os resultados dos testes do antiveneno universal em laboratório?

Para verificar o potencial desse novo antiveneno universal, os cientistas realizaram testes em laboratório com modelos animais, principalmente camundongos. O procedimento consistiu em injetar veneno de diferentes espécies e em seguida administrar combinações de anticorpos associados ao varespladib, permitindo mapear quais componentes eram realmente essenciais para bloquear os efeitos tóxicos em cada caso.

Os resultados mostraram padrões importantes que ajudam a entender o alcance desse antiveneno em desenvolvimento:

  • Proteção total observada em 13 espécies venenosas, incluindo mamba negra e cobra rei.
  • Proteção parcial contra outras 6 espécies avaliadas, variando entre 20 e 40 por cento.
  • Uso combinado de anticorpos e da molécula varespladib, um inibidor de fosfolipase A2.
  • Ensaios conduzidos inicialmente apenas em animais de laboratório, sem uso clínico em humanos até agora.

Por que um antiveneno universal é importante para a saúde pública?

Estima se que as picadas de serpentes causem em torno de 130 mil mortes por ano no mundo, além de dezenas de milhares de amputações e sequelas permanentes. Muitas vítimas vivem em áreas rurais, distantes de hospitais com estoque adequado de soro e com dificuldade para chegar a tempo de receber o tratamento correto.

Nesse cenário, um antiveneno de amplo espectro poderia simplificar o atendimento, reduzindo o tempo entre a picada e o tratamento efetivo e ajudando países tropicais com grande diversidade de serpentes. Entre os principais benefícios possíveis estão os aspectos logísticos e clínicos que os pesquisadores já começam a destacar em relatórios recentes:

  • Redução da necessidade de identificar com precisão a espécie envolvida, acelerando o cuidado.
  • Facilidade de estoque em regiões remotas com um único produto de ampla cobertura.
  • Possível diminuição de mortes e de sequelas graves em sobreviventes de acidentes ofídicos.
Antivenenos de amplo espectro agilizam o socorro e salvam vidas.
Antivenenos de amplo espectro agilizam o socorro e salvam vidas.Imagem gerada por inteligência artificial

Quais são os próximos passos para o antiveneno universal chegar aos pacientes?

Apesar dos resultados animadores em camundongos, ainda há um caminho longo até a aplicação clínica em seres humanos. Entre as etapas necessárias estão estudos adicionais de segurança, testes em modelos animais mais próximos da fisiologia humana e posteriormente ensaios clínicos em fases progressivas, que devem comprovar eficácia e risco aceitável de reações adversas.

Outro ponto relevante é a capacidade de produção em larga escala, com custos acessíveis e distribuição viável para regiões onde as picadas de serpentes representam maior ameaça. Pesquisadores também avaliam aprimorar o coquetel de anticorpos, incorporando novos componentes para aumentar a taxa de proteção nas espécies em que, até agora, a eficácia foi apenas parcial, mantendo a expectativa de avanços adicionais nos próximos anos.