No Congo, a existência científica de peixes capazes de escalar cachoeiras de 15 metros foi confirmada
Ganchos microscópicos e o segredo da aderência perfeita na rocha
Entre quedas d’água e paredões de rocha quase lisos, um pequeno peixe africano tem chamado a atenção da comunidade científica internacional. Trata se de uma espécie capaz de escalar cachoeiras praticamente na vertical, comportamento que durante décadas foi conhecido apenas pelos moradores locais e que, recentemente, passou a ser descrito em detalhes por pesquisadores. O fenômeno transformou um animal discreto em objeto de estudo para compreender melhor a adaptação de peixes a ambientes extremos, tornando a expressão peixe escalador de cachoeiras um tema central em estudos de evolução, biomecânica e conservação.

O que torna a Parakneria thysi um peixe escalador de cachoeiras?
A espécie Parakneria thysi, conhecida em algumas regiões da África Central como “kalumba”, vive em cursos d’água turbulentos, marcados por corredeiras e quedas íngremes. Nessas áreas, a disputa por abrigo e alimento é intensa, o que ajuda a explicar por que a habilidade de subir paredes rochosas oferece uma vantagem ecológica importante.
A escalada é possível graças a estruturas microscópicas presentes na região ventral das nadadeiras peitorais e pélvicas. Esses pequenos apêndices, chamados localmente de “ukhulu” ou “unkuli”, funcionam como ganchos aderentes, permitindo que o peixe escalador de cachoeiras se ancore nos menores desníveis das rochas molhadas e escorregadias, conquistando nichos acima dos desníveis, onde a concorrência tende a ser menor.
Como funciona o ritmo de escalada desse peixe africano?
Ao combinar esses “ganchos” com um cinturão ósseo robusto e raios de nadadeira bem desenvolvidos, o peixe realiza movimentos laterais com a parte traseira do corpo, semelhantes aos gestos de natação, só que aplicados à superfície vertical. O deslocamento ocorre em etapas curtas, com o animal fixando parte do corpo, impulsionando se alguns centímetros e voltando a se prender.
Estudos de campo realizados entre 2018 e 2020 em cachoeiras do sul da República Democrática do Congo mostraram que a escalada de um trecho de cerca de 15 metros pode levar em torno de dez horas, embora o período efetivo de movimento contínuo seja curto. Para avançar apenas um metro, o peixe pode gastar de 30 a 60 segundos de movimento real, alternando tração e repouso em saliências quase imperceptíveis, o que revela uma estratégia de economia de energia em ambiente extremo.
Quais espécies acompanham o peixe escalador de cachoeiras em outros rios?
Observações de campo indicam que o comportamento de escalada ocorre de forma mais intensa entre o fim da estação chuvosa e o início da estação seca, quando as paredes rochosas permanecem constantemente umedecidas pelo fluxo de água e respingos. Escorregões são frequentes, e indivíduos já foram vistos pendurados de cabeça para baixo em fendas da rocha, demonstrando grande capacidade de aderência em posições instáveis.
A Parakneria thysi não é o único representante do chamado peixe escalador de cachoeiras. Pesquisas indicam que, até 2026, já foram identificados peixes escaladores em pelo menos cinco ordens e oito famílias diferentes, distribuídos pela América do Sul, Ásia e Austrália. Em muitos casos, esses animais utilizam ventosas modificadas, bocas em forma de disco ou adaptações semelhantes ao “unkuli” para enfrentar a força da correnteza.

Por que entender o peixe escalador de cachoeiras é importante para a ciência?
Em rios tropicais da América do Sul há espécies de cascudos que usam a parte ventral do corpo como estrutura de sucção, aderindo a pedras e subindo trechos íngremes de corredeiras. No Brasil, um exemplo notável é o bagre abelha (Rhyacoglanis paranensis), observado escalando uma cachoeira de cerca de quatro metros no rio Aquidauana, em Mato Grosso do Sul, formando verdadeiros “tapetes vivos” sobre a rocha.
O estudo de espécies como a Parakneria thysi oferece pistas valiosas sobre adaptação morfológica, comportamento e conservação de ecossistemas de água doce. A capacidade de transpor barreiras naturais funciona como modelo para avaliar o impacto de barragens e diques, que podem interromper rotas de migração. À medida que novas expedições são realizadas em regiões pouco estudadas, aumenta a chance de encontrar outro peixe escalador de cachoeiras, reforçando a ideia de que mesmo animais de poucos centímetros podem desenvolver soluções biológicas complexas para sobreviver em ambientes considerados extremos.