Peru, determinado a quebrar as regras do jogo: planta 1.000.000 de árvores para restaurar os ecossistemas de Machu Picchu
A escolha das espécies não foi aleatória
Em uma das iniciativas ambientais mais ambiciosas da América Latina, o Peru lançou uma campanha nacional de reflorestamento que pretende plantar 1 milhão de árvores dentro da área protegida do Santuário Histórico de Machu Picchu. O projeto, liderado pelo Ministério do Ambiente do país, responde a décadas de degradação ambiental causadas por incêndios florestais, erosão do solo e perda de biodiversidade, e coloca o Peru na vanguarda da conservação de patrimônios naturais e culturais no mundo.

O que é a campanha “Um Milhão de Árvores” e quais são seus objetivos?
A iniciativa se chama oficialmente “Um Milhão de Árvores” e foi criada pelo Ministério do Ambiente do Peru com o objetivo de recuperar a cobertura vegetal nativa do Santuário Histórico de Machu Picchu. O programa prioriza as áreas mais afetadas por incêndios florestais e pela erosão das encostas, que nos últimos anos comprometeram gravemente a estrutura do solo e a qualidade dos recursos hídricos na região de Cusco.
Além de cobrir o terreno com vegetação nativa, a campanha busca restaurar os ecossistemas que sustentam a fauna local e garantem o equilíbrio ambiental ao redor da cidadela inca. A ministra do Ambiente, Nelly Paredes del Castillo, destacou que a proteção das florestas é uma tarefa coletiva que exige a participação do Estado, do setor privado e de toda a sociedade, ressaltando que conservação e desenvolvimento sustentável precisam caminhar juntos para que o resultado seja duradouro.
Quais espécies de árvores estão sendo plantadas e por quê?
A escolha das espécies não foi aleatória. O plano de reflorestamento priorizou plantas nativas dos Andes que desempenham funções essenciais na recuperação dos ecossistemas locais. Três espécies se destacam pela sua importância ecológica e pela sua adaptação às condições climáticas e geográficas do santuário:
- Queuña: árvore nativa dos altos Andes, resistente ao frio e capaz de crescer em altitudes elevadas. É fundamental para a estabilização do solo em encostas íngremes e para a manutenção da umidade.
- Aliso: espécie pioneira na recuperação de solos degradados, com raízes profundas que fixam nitrogênio e evitam a erosão. É amplamente usada em projetos de restauração de ecossistemas andinos.
- Chachacomo: arbusto nativo que contribui para a captação de água e serve de abrigo e alimento para diversas espécies da fauna local, sendo peça-chave na reconstrução da biodiversidade.
Além dessas três, espécies como a tara e o sauco também integram o projeto, especialmente nas áreas onde os deslizamentos de terra representam maior risco para as estruturas históricas da cidadela. Juntas, essas plantas formam uma barreira natural que protege tanto o patrimônio arqueológico quanto a qualidade do ar e do ciclo da água na região.
Quem está envolvido na execução do projeto de reflorestamento?
A campanha conta com uma ampla rede de apoio técnico e institucional. O Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas pelo Estado (Sernanp) e a organização Profonanpe oferecem suporte técnico para garantir que o plantio seja feito corretamente e que os exemplares tenham acompanhamento a longo prazo. Vladimir Ramírez, chefe do santuário, ressaltou que o sucesso da restauração ecológica depende do monitoramento contínuo das mudas após o plantio.
O envolvimento comunitário é outro pilar central do projeto. Comunidades locais como Choquellusca participam ativamente das jornadas de plantio, o que garante não apenas mão de obra comprometida com o território, mas também um senso de pertencimento e responsabilidade sobre a preservação do ecossistema. A iniciativa chegou a reunir grupos de voluntários dos mais variados perfis, incluindo organizações da sociedade civil e até clubes de fãs da cultura coreana, demonstrando o alcance popular que a campanha conquistou.

Por que a restauração dos ecossistemas de Machu Picchu é urgente?
O Santuário Histórico de Machu Picchu está assentado sobre solos montanhosos frágeis, expostos a riscos naturais como deslizamentos, inundações e erosão. Décadas de degradação ambiental, agravadas pelas mudanças climáticas e pelo turismo intenso, reduziram significativamente a cobertura vegetal nativa da região, comprometendo tanto a estrutura dos solos quanto a biodiversidade que habitava o entorno da cidadela inca.
Sem essa vegetação de proteção, as encostas ficam vulneráveis à ação da chuva e do vento, o que acelera a erosão e aumenta o risco de deslizamentos que podem ameaçar as estruturas históricas do sítio. A perda de biodiversidade também afeta o equilíbrio hídrico da região, reduzindo a capacidade de captação e retenção de água, algo crítico para as comunidades que dependem desses recursos. O plantio de 1 milhão de árvores responde diretamente a esses riscos, funcionando como um escudo natural para o patrimônio histórico e ambiental do Peru.
Qual é o impacto esperado para a biodiversidade e o clima da região?
As projeções do projeto apontam para transformações concretas no ecossistema ao longo dos próximos anos. Com a recuperação da cobertura vegetal nativa, espera-se que a fauna local, que inclui aves, mamíferos e répteis endêmicos dos Andes, retorne gradualmente às áreas que haviam sido abandonadas pela degradação. O retorno desses animais é um indicador fundamental de que o ecossistema está se reconstituindo de forma saudável.
Do ponto de vista climático, os benefícios também são expressivos. As árvores nativas plantadas no santuário vão contribuir para:
- Regularização do ciclo hídrico, com maior captação e retenção de água nas encostas, beneficiando as comunidades da região de Cusco.
- Redução das emissões de carbono, já que florestas nativas absorvem e armazenam grandes quantidades de CO₂, contribuindo diretamente para o combate às mudanças climáticas.
- Estabilização dos solos nas áreas de maior risco, diminuindo a frequência e a intensidade dos deslizamentos que ameaçam as estruturas históricas de Machu Picchu.
- Melhora da qualidade do ar na região, com impacto positivo tanto para os moradores locais quanto para os milhares de turistas que visitam o santuário a cada ano.
O Peru demonstra, com essa iniciativa, que é possível unir conservação ambiental, proteção do patrimônio cultural e desenvolvimento sustentável em um único projeto. A campanha “Um Milhão de Árvores” não é apenas um esforço de reflorestamento, mas um compromisso com as gerações futuras de que um dos lugares mais extraordinários do planeta continuará existindo, vivo e protegido, por muitos séculos ainda.