Segundo a psicologia, o motivo pelo qual seu pai idoso não joga nada fora não é teimosia

A memória autobiográfica é a capacidade que temos de lembrar e narrar a história da nossa própria vida

19/02/2026 16:26

Se você já tentou convencer seu pai idoso a jogar fora aquelas ferramentas enferrujadas, as revistas empilhadas no canto ou o casaco que ele nunca mais vai usar, provavelmente ouviu alguma variação de “pode ser que eu precise um dia”. É fácil interpretar isso como teimosia, como uma recusa irracional em deixar o passado ir. Mas o que a psicologia revela sobre esse comportamento é muito mais profundo, e vai mudar completamente a forma como você olha para cada objeto espalhado pela casa do seu pai.

Uma das funções da memória autobiográfica é social
Uma das funções da memória autobiográfica é socialImagem gerada por inteligência artificial

Por que objetos antigos são tão importantes para pessoas idosas?

A memória autobiográfica é a capacidade que temos de lembrar e narrar a história da nossa própria vida. Uma das suas funções centrais é o que os pesquisadores chamam de continuidade do self, que é o processo pelo qual uma pessoa mantém a sensação de ser a mesma ao longo do tempo, mesmo diante de tantas mudanças no corpo, nos papéis e nas relações. Para muitos idosos, os objetos físicos funcionam como âncoras dessa continuidade. Eles não são apenas coisas, mas estímulos que ativam memórias e reforçam uma identidade.

Pesquisadores da Universidade de New South Wales identificaram cinco dimensões distintas do apego emocional a objetos. Duas delas explicam diretamente o comportamento do seu pai. A primeira é o uso de objetos para preservar memórias autobiográficas. A segunda é o uso de objetos como extensões da própria identidade. Juntas, essas duas dimensões mostram que guardar um objeto é, em grande parte, uma forma de guardar a si mesmo.

Cada objeto guardado é um capítulo da vida que ninguém pergunta mais?

Pense no que existe naquele quarto, na garagem ou no galpão. As ferramentas não representam apenas ferramentas. Elas remetem a uma época em que ele era forte, capaz e necessário, quando consertava o que estava quebrado e era a pessoa que a família chamava quando algo dava errado. A vara de pescar não é sobre pesca, mas sobre as manhãs de sábado que passou com os filhos ou os amigos, sentindo-se vivo e presente. A caixa com papéis do antigo emprego é a prova concreta de que ele passou décadas fazendo algo que exigia competência e dedicação diária.

Uma revisão publicada no Current Psychology Reports mostrou que o apego a objetos aumenta com a idade, porque esses itens funcionam como gatilhos para memórias agradáveis e significativas. Quanto mais uma pessoa usa um objeto para recordar experiências importantes, mais forte se torna o vínculo emocional com ele. Descartar um objeto, nesse sentido, significa apagar uma prova de que aquela experiência foi real.

O que acontece quando ninguém mais pergunta sobre a vida dele?

Uma das funções da memória autobiográfica é social: compartilhamos nossas lembranças para construir intimidade, manter vínculos e apresentar quem somos aos outros. A memória não é apenas pessoal, ela precisa ser contada. Mas o que acontece quando ninguém mais pergunta? Quando os filhos param de dizer “me conta sobre quando você…”, quando os amigos foram embora ou se distanciaram, quando a rotina que confirmava o lugar dele no mundo simplesmente acabou?

As histórias não desaparecem, elas apenas perdem o público. E quando não há mais ninguém para ouvi-las, os objetos se tornam a última evidência de que essa história foi real. Pesquisas sobre memória autobiográfica e envelhecimento mostram que a capacidade de rememorar experiências pessoais é essencial para o bem-estar emocional. Quando idosos perdem acesso às narrativas que sustentam sua identidade, as consequências são profundas, incluindo desorientação, depressão e uma sensação de desconexão com o próprio passado.

Uma das funções da memória autobiográfica é social
Uma das funções da memória autobiográfica é socialImagem gerada por inteligência artificial

Guardar objetos é uma forma de resistência psicológica?

Esse comportamento se intensifica especialmente depois da aposentadoria. Enquanto trabalhava, criava os filhos e participava ativamente do mundo, a identidade do seu pai era reforçada continuamente por fontes externas. A rotina confirmava o lugar dele no mundo, e ele não precisava de objetos para lembrar quem era, porque o próprio ambiente já fazia isso. Quando o trabalho acaba, os filhos saem de casa, o círculo social diminui e o corpo desacelera, essas fontes externas de confirmação começam a desaparecer uma a uma.

Veja alguns dos objetos mais comuns que idosos guardam e o que eles representam emocionalmente:

  • Ferramentas e equipamentos de trabalho: representam competência, força física e o papel de provedor que ele exerceu por décadas.
  • Documentos e certificados antigos: funcionam como provas concretas de uma trajetória profissional que muitas vezes não é mais reconhecida por ninguém.
  • Objetos ligados a hobbies abandonados: como varas de pescar ou material esportivo, que guardam memórias de momentos de prazer com pessoas queridas.
  • Roupas e acessórios de datas especiais: que carregam o registro emocional de momentos únicos, como o nascimento de um filho ou um aniversário marcante.

Como você pode realmente ajudar o seu pai nesse momento?

O que ele mais precisa não é de alguém que organize a garagem ou tome decisões por ele sobre o que fica e o que vai fora. O que ele precisa é de alguém que entre naquele espaço, pegue um objeto nas mãos e pergunte com genuína curiosidade: “O que você fazia com isso?”. E depois, simplesmente, escute. Fazer essa pergunta não é perguntar sobre o objeto, é abrir um capítulo da vida dele e pedir que ele te conte uma página.

Existem formas simples e afetivas de criar esses momentos de escuta com seu pai:

  • Reserve um tempo sem pressa para visitar o espaço onde ele guarda seus pertences, sem nenhum objetivo de organizar ou descartar nada.
  • Faça perguntas abertas e específicas sobre os objetos que você encontrar, como “De onde veio isso?” ou “Você se lembra quando usou isso pela última vez?”.
  • Registre as histórias que ele conta, seja por escrito, em áudio ou em vídeo, transformando esses momentos em algo que a família pode preservar.
  • Evite frases que pressionem o descarte, como “você não precisa mais disso”, pois elas comunicam, mesmo sem intenção, que aquela fase da vida não importa mais.

Quando alguém finalmente se senta para ouvir as histórias por trás de cada objeto guardado, algo muda. Não porque os objetos perderam importância, mas porque a pessoa percebe que ela mesma tem importância maior do que qualquer coisa que possa ser jogada fora. O que parecia teimosia é, na verdade, um pedido silencioso de que alguém ainda se importe com quem ele foi e com tudo que ele viveu.