Como ensinar crianças a esperar?

Falas das crianças durante debates em grupo demonstraram sua capacidade de compreensão das consequências de agir sem pensar

Por: Redação Comunicar erro

O livro “No, David!” (Não, David!, em tradução livre), de David Shannon, ainda não publicado no Brasil, conta a história de um menino que age de forma impulsiva. Sua mãe implora, sem sucesso, que ele pare de destruir vasos de planta, sujar a casa e pular na cama.

Na vivência da educação infantil, muitos educadores diariamente encontram estudantes como David: crianças que, sem pensar antes de agir, tomam brinquedos das mãos dos seus colegas, interrompem a fala do outro ou não conseguem aguardar a vez de brincar. Pais e mães, em suas casas, enfrentam igualmente os desafios de ensinar aos seus filhos a importância do autocontrole e como desenvolvê-lo.

Crédito: ReproduçãoCapa do livro “No, David!” (Não, David!), de David Shannon

Mas como podemos explicar a crianças tão pequenas sobre uma ideia abstrata como impulsividade e como lidar com ela?

Este foi o desafio assumido em nossas salas do grupo 3 na Escola Concept, em sua unidade de Salvador. Para nos auxiliar utilizamos a abordagem Hábitos da Mente, um conjunto de habilidades de comportamento voltados para resolução de problemas identificados por “Art Costa and Bena Kallick”.

Primeiramente, iniciamos a exploração do conceito de impulsividade através de vídeos e pequenas dramatizações com fantoches. Com isso, buscamos cultivar a curiosidade nos pequenos, tornando a impulsividade um elemento mais próximo da realidade deles.

Apesar da aparente complexidade, as falas das crianças durante debates em grupo demonstraram sua capacidade de compreensão das consequências de agir sem pensar. Ao perguntarmos o que acontece quando puxam o brinquedo da mão de um colega, disseram: “Ele chora”, “Tem que pedir por favor”. Além disso, os estudantes foram instigados, com sucesso, a apresentar soluções alternativas para a resolução dos conflitos cotidianos.

A partir daí, com o sentido de impulsividade “desempacotado”, ou seja, esclarecido, iniciamos explorações de possíveis ferramentas para gerenciar ações impulsivas. Para isso, o jogo chamado “Waiting Game” (ou Jogo da Espera) possibilitou explorar o gerenciamento da impulsividade de maneira lúdica e significativa: os estudantes foram convocados a escolher um misterioso objeto, embrulhado tal qual um presente. Porém, o desafio para os pequenos foi aguardar por cerca de 1 ou 2 minutos e, apenas ao soar de um alarme, eles podiam enfim desembrulhar o item desconhecido.

Para crianças pequenas o ato de esperar é um grande desafio que, por sua vez, possibilita o estudante a refletir e construir seu próprio repertório para lidar com situações que requerem autocontrole, seja no ambiente escolar ou familiar. Assim, de modo a auxiliar os estudantes neste desafio, criamos com eles algumas estratégias, oferecendo comportamentos alternativos como respirar profundamente, contar até dez ou tamborilar os dedos na mesa.

Esta vivência foi compartilhada com a nossa comunidade escolar, envolvendo outros educadores e as famílias dos estudantes. Os pais compartilharam conosco algumas experiências desafiadoras ao lidar com a impulsividade dos pequenos, e passaram a aplicar algumas das estratégias com seus filhos fora do ambiente da escola, demonstrando ser possível ensinar aos pequenos o que é impulsividade e como gerenciá-la.

Para saber mais sobre hábitos da mente, clique aqui.

Por Milena Sobral e Naiara Nascimento, educadoras da Escola Concept de Salvador (BA)

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