As viagens do escritor José Saramago por Portugal

Livro encomendado no final dos anos 1970 colocou o escritor na estrada, mudando para sempre seu destino e os dos turistas no país

Por: Redação | Comunicar erro

Em 1979, o escritor José Saramago (1922-2010) aceitou um convite do Círculo de Leitores de Lisboa para escrever um livro a partir de uma viagem por várias regiões de Portugal. A ideia era que ele passasse um ano viajando de carro pelo seu país e, então, tivesse outro ano inteiro para produzir uma obra com suas impressões sobre a vida cotidiana portuguesa tanto no interior quanto nas cidades grandes.

Saramago saiu de sua casa, na capital portuguesa, em outubro de 1979, e só voltou em julho de 1980, com um enorme diário de anotações e o livro “Portugal”, do escritor Miguel Torga, que lhe serviu como roteiro. Aos amigos próximos, revelava mais um tom crítico e uma ironia ácida com o que havia visto do que propriamente um encantamento, mas não deu pistas sobre o que pretendia escrever. Em um artigo publicado à época, afirmou apenas que “o fim de uma viagem é apenas o começo de outra” — se referindo ao trabalho de escrita.

Crédito: Leonid Andronov/iStockVista da ponte Dom Luis, na cidade do Porto, em Portugal

Em 1981, enfim, saiu “Viagem a Portugal”, relatos de uma viagem de Saramago que começou em Trás-os-Montes, no nordeste português, até o Algarve, na outra ponta do território do país — roteiro que hoje é vendido por operadores turísticos e por empresas de aluguel de carros em Portugal. “O leitor é levado a conhecer o autêntico rosto duma terra inesgotável, por caminhos humanos e naturais cuja beleza e força nos surpreendem”, escreveu Claudio Magris, escritor italiano, no prefácio do livro reeditado em 2011.

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Subjetividades e objetividades

Segundo Mariana Gonçalves, que fez um estudo sobre o livro na Universidade de Lisboa, “a intenção de Saramago não foi de escrever um guia (desejo primeiro da editora que lhe encomendou a obra), nem pretendi ‘dar conselhos, embora superabunde em opiniões’. O seu propósito foi dar conta de uma história, história de ‘um encontro nem sempre pacífico de subjetividades e objetividades'”.

Crédito: curtoicurto/iStockVilarejo na região de Trás-os-Montes, onde o escritor José Saramago inciou sua viagem por Portugal em 1979

Em sua dissertação, Mariana acredita que Saramago precisou se dividir em dois sujeitos para escrever o livro: o viajante que observa o país e o viajante que se observa. “O primeiro assume o protagonismo da obra, e o outro é um implícito que lhe segue as pisadas na sombra, nunca o perdendo de vista e relatando tudo o que lhe vai acontecendo. Neste caso, narrador e personagem transformam-se numa entidade ao mesmo tempo una e dupla”, escreveu ela. Há ainda um terceiro viajante: quem lê o livro.

“A viagem física entrecruza-se com a viagem pela cultura e costumes de um povo, a qual, ao mesmo tempo, se vê atravessada pela viagem a referências literárias, em busca de uma possível comparação de olhares”, diz outro trecho de seu estudo.

Visão humanista

Mariana ainda afirma que o relato de viagem de Saramago é profundamente impregnado pela visão humanista que ele tinha. Uma das cidades visitadas por ele foi Bragança, onde fez apontamentos críticos e ternos sobre a Sé Velha, construída no século 16, e as muralhas do Castelo de Bragança, em Santa Maria, que cercam quase toda a cidade, além de elogiar o local onde se abrigou, o Museu do Abade de Baçal.

Crédito: LuisPortugal/iStockVista do Castelo de Bragança,  na freguesia de Santa Maria

“Castro Verde merece o nome que tem. Está num alto e não lhe faltam verduras para aliviar os olhos das sequidões da charneca. Se só de monumentos cuidasse hoje o viajante, mal lhe valeria a pena de vir de tão longe para o pouco que verá, valendo embora tanto atravessar mais de quarenta quilômetros de searas ceifadas. Está aberta a Igreja das Chagas do Salvador, que tem para mostrar ingênuos quadros com cenas guerreiras e um bom silhar de azulejos, mas a matriz, a que chamam aqui basílica real, não. O viajante desespera-se”, diz ele sobre Castro Verde (170 km de Lisboa).

Crédito: AlbertoNovo/iStockA Igreja das Chagas do Salvador, no vilarejo de Castro Verde, na região do Alentejo

Em Miranda do Douro, Saramago demonstra encantamento pela Rua da Costanilha, que remonta ao século 15. Em Bragança, ele faz apontamentos críticos e ternos sobre a Sé Velha, construída no século 16, e as muralhas do Castelo de Bragança, em Santa Maria, que cercam quase toda a cidade, mas acaba tendo que se abrigar no Museu do Abade de Baçal, onde conhece a história do soldado José Jorge.

Ele ainda passou por municípios que hoje batizam cidades brasileiras, como Amarante (há uma no Piauí), Guimarães (existe uma no Maranhão) e Miranda, pequena vila onde o escritor se encantou pela Rua da Costanilha, que remonta ao século 15, e cuja irmã brasileira fica no Mato Grosso do Sul –206 km de Campo Grande.

Crédito: Freeartist/iStockVista do vilarejo medieval de Amarante, em Portugal, um dos lugares visitados por José Saramago

A viagem acabou, mas Mariana afirma que, internamente, Saramago continuou com ela dentro de si –como se pode ver nos seus romances seguintes, principalmente “A Jangada de Pedra”, de 1986.

Em 1998, ele ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, único entregue a um escritor de língua portuguesa na história. “A viagem estabelece-se em várias dimensões nas obras de Saramago. A caminhada do ser humano desenrola-se tanto externamente como internamente, havendo mesmo uma confluência de movimentos dentro do sujeito. Exteriormente, o indivíduo experimenta as situações que o farão construir-se num plano interior”, finaliza.

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