Chan Chan, a maior cidade de adobe do mundo, está se desintegrando como um cubo de açúcar diante do Pacífico
Chan Chan foi a capital do poderoso Império Chimú
Chan Chan, erguida há mais de mil anos no litoral norte do Peru, foi a maior cidade de adobe já construída no mundo. Seus muros de barro moldado resistiram a impérios, conquistas e séculos de vento, mas hoje enfrentam um inimigo que nenhuma fortaleza consegue deter: o clima. A combinação das chuvas do El Niño, a umidade do Oceano Pacífico e o abandono progressivo transforma essa cidade histórica em pó, como um cubo de açúcar esquecido na chuva.

O que faz de Chan Chan uma das cidades mais impressionantes da história?
Chan Chan foi a capital do poderoso Império Chimú, civilização que dominou a costa peruana entre os séculos 9 e 15. Em seu auge, a cidade abrigou mais de 100 mil habitantes e se estendia por cerca de 22 km², dividida em dez cidadelas interligadas, cada uma com palácios, praças, cemitérios, reservatórios de água e depósitos de alimentos. Tudo isso construído inteiramente em adobe, uma mistura de barro, areia e palha seca ao sol, sem nenhuma ferramenta de ferro.
Os muros da cidade chegam a 12 metros de altura e são decorados com relevos de peixes, ondas, aves e figuras geométricas que revelam a profunda ligação dos Chimú com o mar. A civilização também se destacou em metalurgia, tecelagem e sistemas de irrigação sofisticados. Quando os incas conquistaram Chan Chan por volta de 1470, encontraram uma metrópole planejada e complexa, muito além do que qualquer outra cidade da América pré-colombiana havia alcançado.
Por que a cidade de adobe mais antiga do mundo está em perigo?
Desde 1986, a UNESCO reconheceu Chan Chan como Patrimônio da Humanidade e, ao mesmo tempo, a incluiu na lista de sítios em perigo, uma combinação que diz tudo sobre a situação da cidade. A proximidade com o Oceano Pacífico expõe as estruturas diariamente à umidade, às correntes de vento e às chuvas intensas trazidas pelo fenômeno do El Niño. O adobe, por mais resistente que seja ao calor e ao tempo seco, é extremamente vulnerável à água.
Além das ameaças climáticas, Chan Chan sofre com problemas humanos sérios. A cidade histórica perdeu quase um terço de sua área original para a agricultura e rodovias, e parte das estruturas nunca recebeu proteção ou restauração adequada. Atualmente, o sítio arqueológico conta com 46 pontos de dano crítico catalogados, embora os especialistas reconheçam que a deterioração real vai muito além desses registros.
Confira o vídeo do canal da National Geographic mostrando a cidade perdida de Chan Chan:
Quais são as principais ameaças à preservação dessa cidade histórica?
A degradação de Chan Chan não vem de uma única causa, mas de uma combinação de fatores que se intensificam a cada ano. Para entender o tamanho do desafio, veja os principais riscos que essa cidade enfrenta:
- El Niño: as chuvas torrenciais trazidas pelo fenômeno dissolvem as estruturas de adobe com rapidez impressionante.
- Vento e umidade do Pacífico: a erosão constante corrói os muros decorados e apaga detalhes esculpidos há séculos.
- Expansão urbana: rodovias e construções modernas avançam sobre a área arqueológica, reduzindo sua extensão original.
- Saques históricos: os conquistadores espanhóis esvaziaram tumbas e palácios, e o vandalismo ainda ocorre em áreas sem vigilância.
- Falta de recursos: os projetos de restauração são insuficientes diante da dimensão da cidade e da velocidade da degradação.

Como está sendo feita a tentativa de salvar Chan Chan?
Arqueólogos e engenheiros trabalham há décadas para preservar o que resta de Chan Chan. As estratégias incluem a instalação de coberturas de proteção sobre os edifícios mais vulneráveis, a construção de sistemas de drenagem para escoar a água das chuvas e o uso de técnicas que combinam engenharia moderna com métodos tradicionais de construção em adobe. Desde os anos 2000, um plano de gestão emergencial documenta cada estrutura e estabelece protocolos de resposta a desastres.
A área aberta ao público, centrada no Palácio Nik An, também conhecido como Palácio Tschudi, é o principal espaço de visitação da cidade, onde é possível caminhar por corredores esculpidos e sentir a grandiosidade da civilização Chimú. O Museu do Sítio Chan Chan, localizado próximo às ruínas, complementa a visita com artefatos e painéis históricos. O turismo consciente e as parcerias internacionais, como as do Instituto Getty de Conservação, são hoje parte fundamental da estratégia de sobrevivência dessa cidade milenar.
Vale a pena visitar Chan Chan antes que seja tarde?
Visitar Chan Chan é uma experiência que poucos destinos do mundo conseguem oferecer. A cidade fica a apenas 25 minutos de Trujillo, no norte do Peru, e pode ser combinada com outras atrações da região, como as Huacas do Sol e da Lua e a vila de Huanchaco, famosa pelo surf e pelos totora, botes de palha usados há milênios pelos pescadores locais. O melhor período para a visita é fora da temporada do El Niño, de preferência entre maio e novembro, quando o clima é mais estável.
Quem chega até Chan Chan entende por que essa cidade merece mais atenção do que recebe. Caminhar pelos corredores de adobe esculpido, sob o mesmo sol que os Chimú chamavam de “sol sol”, é tocar em algo raro: uma civilização inteira gravada em barro, lutando para não virar pó. Como Patrimônio da Humanidade, a responsabilidade de preservar essa cidade não é só do Peru, mas de todos que acreditam que a memória urbana da humanidade vale ser mantida viva.