Cidade de SC vira ‘capital’ da música erudita na América Latina
Festival reúne jovens de 21 países e terá, pela primeira vez, uma ópera brasileira como destaque central
Longe dos principais centros da música erudita, uma cidade de médio porte no norte de Santa Catarina consolidou-se como um dos principais polos de formação musical da América Latina. Jaraguá do Sul sedia o Festival Internacional de Música de Santa Catarina (Femusc), que chega à 21ª edição reunindo jovens músicos de 21 países, mais de 400 estudantes e cerca de 200 concertos gratuitos.
O festival também integra as comemorações dos 150 anos do município. Criado com foco na formação artística, o Femusc passou a projetar a cidade no circuito internacional da música clássica e a atuar como vetor da economia criativa local, ao mobilizar setores como hotelaria, alimentação, transporte, comércio e serviços, além de gerar empregos diretos e indiretos durante o período do evento.

Para a edição deste ano, que segue até sábado |(24), o investimento estimado é de cerca de R$ 3 milhões. Segundo projeções baseadas em estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV), o impacto econômico potencial pode chegar a R$ 18 milhões. A estimativa considera que cada real aplicado em cultura pode gerar retorno de até seis vezes para a economia local, sobretudo em eventos de longa duração e com vínculo entre formação e turismo cultural.
A trajetória do festival está diretamente ligada à SCAR – Sociedade Cultura Artística, que completa 70 anos em 2026. Fundada em 1956 a partir de um grupo musical e de uma pequena orquestra, a instituição estruturou, ao longo das décadas, um dos mais consistentes ecossistemas de formação artística do país. Atualmente, atende cerca de 4.200 alunos, dos quais 80% são bolsistas integrais. A música permanece como eixo central, com aproximadamente 700 estudantes em atividade contínua ao longo do ano.
A SCAR mantém ainda um centro cultural com teatro de reconhecida qualidade acústica, infraestrutura técnica completa e um dos principais acervos instrumentais do Brasil, incluindo 17 harpas —o maior número concentrado em uma única cidade. Esse conjunto de formação continuada, infraestrutura cultural e planejamento de longo prazo foi decisivo para a criação e consolidação do Femusc em Jaraguá do Sul, cidade marcada pelo protagonismo industrial e por investimentos históricos em desenvolvimento humano.

“O Femusc, ao completar 21 anos, não apenas se aprimora artisticamente, como amplia seu papel de conectar pessoas, culturas e territórios”, afirma Monika Hufenüssler Conrads, presidente do Instituto FEMUSC. Segundo ela, o festival cresceu em paralelo ao desenvolvimento da cidade e hoje atua como ponte cultural entre o Brasil e outros países. Desde a criação, o evento já formou mais de 9.000 alunos de 42 nacionalidades.
Alcance internacional
A edição de 2026 registra crescimento de 20% no número de inscrições e consolida o Femusc como o maior festival-escola de música erudita da América Latina, segundo a organização. A diversidade internacional é uma das marcas do evento, com participantes de países como Chile, Peru, Argentina e Colômbia, além de representantes do México, Uruguai, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Moçambique. Pela primeira vez, estudantes da Macedônia do Norte e da Rússia integrarão a programação.
“A diversidade cultural é a tônica do Femusc”, afirma Alex Klein, diretor artístico do festival. Para ele, a ampliação da presença latino-americana e o intercâmbio com outros continentes reforçam o caráter global do evento, sem romper o vínculo com o território onde ocorre.
No cenário nacional, jovens músicos de 18 estados participam da edição, com maior presença de São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia. A abrangência reflete, segundo a organização, a capilaridade do projeto e seu papel na formação de profissionais para a música e para a economia criativa.
A programação vai além de masterclasses tradicionais e inclui formação orquestral em níveis avançado e intermediário, regência, ópera, canto lírico, música de câmara, quartetos de cordas e iniciativas voltadas a crianças e adolescentes, como o Femusckinho e o Femusc Jovem.
O repertório ultrapassa 530 obras, chegando a cerca de 750 apresentações quando considerados os concertos sociais. Estão previstas composições de Bach, Brahms e Beethoven, além de obras de Villa-Lobos, Astor Piazzolla e Chiquinha Gonzaga, e peças de 39 compositores contemporâneos, entre eles 13 mulheres e 15 latino-americanos.
A democratização do acesso é um dos pilares do festival. Além do Centro Cultural SCAR, apresentações ocupam praças, parques e outros espaços públicos. A expectativa é de público superior a 30 mil pessoas ao longo das duas semanas. “O FEMUSC mostra que a cultura, quando pensada de forma estruturada, também é política de desenvolvimento”, afirma Mariana Werninghaus de Carvalho, vice-presidente do Instituto Femusc.
Ópera brasileira
Pela primeira vez, o Femusc terá uma ópera brasileira como eixo central da programação. A obra escolhida é Onheama, inspirada na mitologia amazônica, com apresentações previstas para os dias 23 e 24 de janeiro de 2026, no Teatro SCAR.
Com duração aproximada de 1h20 e elenco de mais de 80 artistas, a montagem tem direção do amazonense Matheus Sabbá, que retorna ao festival após atuar como assistente de direção na edição de 2023. Formado em teatro pela Universidade do Estado do Amazonas, Sabbá construiu carreira em óperas, musicais e no cinema, com passagens por instituições como o Theatro Municipal de São Paulo e o Festival Amazonas de Ópera.
O título Onheama significa “eclipse”, fenômeno que, na tradição indígena, simboliza ruptura e transformação. A narrativa acompanha a jornada da jovem guerreira Iporangaba em busca da salvação de sua comunidade, em diálogo com figuras míticas como o Boto e a Yara. “Dirigir Onheama é contar a história do meu povo e levar a mitologia da Amazônia a um público que raramente tem contato com essas narrativas”, afirma Sabbá.