Coxilha Rica, o refúgio ainda desconhecido da Serra Catarinense

Região guarda tradições campeiras e paisagens únicas que se tornaram referência cultural e turística

A Serra Catarinense possui uma vasta extensão de terras que permanece fora do roteiro tradicional de quem busca as cidades mais famosas da região, como Urupema, Urubici, Bom Jardim da Serra e São Joaquim. A Coxilha Rica é um desses cantinhos que merece ser desbravado.

Localizada no município de Lages e estendendo-se até Capão Alto, essa região rica em história ocupa uma área de 1,1 mil km² marcada por campos nativos a mais de mil metros de altitude. O cenário é composto por uma vegetação de gramíneas e remanescentes de araucárias, configurando um patrimônio histórico e cultural que preserva o relevo do planalto serrano como poucas áreas no Sul do Brasil.

Coxilha Rica é um dos cantinhos da Serra Catarinense que merece ser desbravados
Coxilha Rica é um dos cantinhos da Serra Catarinense que merece ser desbravados - Márcio Diniz/Catraca Livre

A Coxilha Rica é cortada pelo Caminho das Tropas –rota histórica que ligava Viamão, no Rio Grande do Sul, a Sorocaba, no interior de São Paulo, durante o período colonial. O principal vestígio dessa época são os corredores de taipas –muros de pedras empilhadas manualmente por escravizados e indígenas.

Moradores da Coxilha Rica em trajes típicos
Moradores da Coxilha Rica em trajes típicos - Márcio Diniz/Catraca Livre

Essas estruturas, que somam mais de 100 quilômetros, serviam para delimitar propriedades e evitar que o gado dos fazendeiros se misturasse aos dos tropeiros. Atualmente, essas taipas delimitam o horizonte visual de quem percorre as estradas de terra da Coxilha Rica.

A herança desse período é visível em trechos preservados do Caminho das Tropas. Além do valor histórico, a geografia da região, cortada pelos rios Pelotas e Pelotinhas, oferece condições para atividades de contemplação e aventura. O terreno é propício para rotas de 4×4 off road, que permitem desbravar estradas de difícil acesso, e para cavalgadas por trilhas que remontam à Guerra dos Farrapos.

Dona Helena, proprietária do O Bodegão, na Coxilha Rica
Dona Helena, proprietária do O Bodegão, na Coxilha Rica - Márcio Diniz/Catraca Livre

A economia local ainda é movimentada pela forte tradição pecuária, que mantém vivos costumes típicos da Serra Catarinense, mas aos poucos o turismo rural volta a ganhar destaque entre os viajantes que buscam experiências e paisagens únicas.

As taipas, muros de pedras construídos por escravos e indígenas no século 19
As taipas, muros de pedras construídos por escravos e indígenas no século 19 - Márcio Diniz/Catraca Livre

Muitas fazendas centenárias da região mantêm a arquitetura original e abrem suas portas para visitantes que buscam vivenciar a rotina rural, o contato com animais e o silêncio característico do campo. Na gastronomia local, o pinhão é a estrela de iguarias como entrevero e a paçoca, assim como o queijo serrano, que conquistou o certificado de Identificação Geográfica em 2020.

O pôr do sol na Serra Catarinense é uma atração à parte
O pôr do sol na Serra Catarinense é uma atração à parte - Márcio Diniz/Catraca Livre

O novo luxo rural na Coxilha Rica

O turismo na Coxilha Rica ganhou um novo capítulo com a inauguração do Cerro Azul Hotel Fazenda em 2021. O empreendimento, no munícipio de Capão Alto, está instalado em uma propriedade com mais de dois séculos de história, adquirida inicialmente em 2009 para a expansão da pecuária.

Vista do Cerro Azul Hotel Fazenda
Vista do Cerro Azul Hotel Fazenda - Márcio Diniz/Catraca Livre

Com apenas 48 acomodações, dividas em três categorias (Celeste, Cobalto e Royal, o hotel combina a arquitetura rústica moderna com a preservação de estruturas originais, como galpões, mangueiras e as próprias taipas.

O projeto é liderado pela empresária blumenauense Soraia Taufenbach Presa, que pensou em cada detalhe –da decoração a enxoval dos quartos, por exemplo. O hotel é focando em um público que busca conforto e integração com a vida campesina sem abrir mão de mimos da vida moderna.

O Cerro Azul Hotel Fazenda conta ainda com um belíssimo lago
O Cerro Azul Hotel Fazenda conta ainda com um belíssimo lago - Márcio Diniz/Catraca Livre

O hotel opera em uma fazenda ativa de 700 hectares, onde há criação de gado Nelore, cavalos Quarto de Milha e ovelhas. A infraestrutura do Cerro Azul oferece aos hóspedes experiências que vão desde a imersão na rotina produtiva até o uso de espaços de lazer como piscina aquecida, spa, sauna e hidromassagem com vista para os campos.

A estrutura conta ainda com restaurante, academia, espaço kids e um observatório projetado para a visualização do céu estrelado, favorecida pela baixa poluição luminosa da serra.

Já para quem busca uma hospedagem mais intimista, a Fazenda Lua Cheia é a opção certa. A propriedade tem poucas acomodações, o que torna a experiência bem familiar. A sensação é de estra na casa da avó.

Off-road pela Coxilha Rica

Se você gosta de aventura e poeira, a Coxilha Rica é um parque de diversões para os amantes de off-road.  As expedições organizadas pela Tropas Off Road, sob o comando do empresário Caio Lucena, reforçam a vocação da região para o segmento de aventura.

O Tropas Off Road organiza expedições pela Coxilha Rica
O Tropas Off Road organiza expedições pela Coxilha Rica - Márcio Diniz/Catraca Livre

O foco dessas incursões é conduzir veículos 4×4 por trajetos que transpõem os desafios geográficos do planalto, acessando pontos onde o relevo acidentado e o solo de pedras impedem a passagem de carros convencionais. A iniciativa busca conectar o entusiasmo pelo off-road com o conhecimento histórico, utilizando os antigos caminhos dos tropeiros como rota principal para os comboios.

Caio Lucena atua na região promovendo roteiros que priorizam a imersão na cultura local e a preservação do cenário natural. As expedições passam estradas de terras e por fazendas que guardam as taipas mais preservadas da serra. Durante os percursos, os participantes têm contato direto com a gastronomia típica ao final dos passeios com uma bela vista das montanhas.

O famoso entrevero, prato típico da Serra Catarinense
O famoso entrevero, prato típico da Serra Catarinense - Márcio Diniz/Catraca Livre

A operação logística dessas viagens demanda preparo técnico e conhecimento das condições climáticas, que na Coxilha Rica podem alterar a trafegabilidade das estradas em curto espaço de tempo. O trabalho desenvolvido por Lucena ajuda a consolidar a região como um destino viável para o turismo de aventura, oferecendo segurança para viajantes que, de outra forma, teriam dificuldade em navegar pela vasta extensão de 1,1 mil km² sem sinal de comunicação ou infraestrutura de apoio imediato.

Bodegão, ícone da Coxilha Rica

Rústico e acolhedor, o Bodegão consolidou-se como um dos principais pontos de encontro da Coxilha Rica. À frente do estabelecimento está Helena do Amaral Eberle, carinhosamente chamada de tia Lena, figura tão conhecida quanto o próprio espaço. Fundado em 1986 com a proposta inicial de oferecer produtos variados à comunidade local, o Bodegão transformou-se ao longo dos anos em restaurante e hospedaria.

Tia Lena comanda o Bodegão, que atrai amentes de off-road e cavalgadas aos finais de semana
Tia Lena comanda o Bodegão, que atrai amentes de off-road e cavalgadas aos finais de semana - Márcio Diniz/Catraca Livre

A mudança de perfil ocorreu de forma espontânea. Professora, dona Helena começou a abrir as portas de sua casa para viajantes que passavam pela região, oferecendo pouso e refeições em uma época em que as opções de hospedagem eram escassas. A prática, iniciada há cerca de duas décadas, ganhou notoriedade e atraiu cada vez mais visitantes. Hoje, o local recebe turistas de diferentes perfis, especialmente cavaleiros, motoqueiros, jipeiros e exploradores da Coxilha Rica. A hospedagem é simples e organizada, com quatro quartos coletivos que comportam até 30 pessoas.

Além da estadia, o Bodegão também se destaca pela gastronomia típica serrana. Os visitantes podem agendar almoços ou cafés da tarde preparados no tradicional fogão à lenha. Entrevero, paçoca de pinhão e carnes com acompanhamentos compõem o cardápio principal, enquanto bolos, roscas de coalhada, salame, pão caseiro e pastéis enriquecem as opções do café. Cada prato traduz o sabor campeiro, marcado pelo cuidado e pela hospitalidade de tia Lena, que transformou a gentileza em tradição.

Dica importante: almoço e cafés da manhã somente com agendamento prévio diretamente pelo WhatsApp (49) 98829-4859.

Visitar a Coxilha Rica exige planejamento

Visitar a Coxilha Rica requer preparo e atenção às condições de acesso. Localizada a cerca de 70 quilômetros de Lages, porta de entrada da Serra Catarinense, a região se destaca pelas características geográficas do planalto. O trajeto até lá é feito, em sua maior parte, pela BR-116. Nos 25 km finais, porém, o visitante enfrenta a SC-390, estrada de chão ainda sem asfaltamento, que reforça o caráter rústico e isolado do destino.

O sinal de telefonia celular é inexistente na maior parte das rotas, e o wi-fi disponível nos hotéis costuma apresentar baixa velocidade.

Mapa da Coxilha Rica
Mapa da Coxilha Rica - Márcio Diniz/Catraca Livre

Recomenda-se o uso de mapas off-line no GPS antes de deixar a área urbana de Lages. Como não existem postos de combustível no interior da Coxilha Rica, o abastecimento completo do veículo é necessário antes de iniciar o percurso pelas estradas de terra.

Atrações da Coxilha Rica ficam longes, por isso planejamento é essencial
Atrações da Coxilha Rica ficam longes, por isso planejamento é essencial - Márcio Diniz/Catraca Livre

As oscilações de temperaturas são rápidas na altitude serrana, exigindo vestuário adequado mesmo durante as estações mais quentes, quando as noites costumam ser frescas. Botas impermeáveis ou tênis de trilha são indicados para as caminhadas, enquanto calças compridas e equipamentos de segurança, como capacetes, são obrigatórios para as atividades de montaria.

*Jornalista viajou a convite do Conserra (Conselho de Turismo da Serra Catarinense)