O dia em que desfilei no Carnaval de Curaçao

Participar da festa na ilha mudou meu jeito de viver uma viagem

22/03/2026 19:28

Quando foi a última vez que você fez algo realmente diferente em uma viagem? A pergunta surge antes mesmo do embarque, mas ganha sentido ao longo dos dias em Curaçao, onde o Carnaval não é apenas um evento no calendário, e sim um processo que envolve quem decide participar.

Na ilha, a festa se estende por cerca de dois meses, entre janeiro e março. Sim, é mais longa que o Carnaval na Bahia. Não há pressa. O calendário inclui ensaios, eventos musicais e desfiles que ocupam diferentes regiões, criando uma rotina própria. Aos poucos, visitantes deixam de ser espectadores e passam a integrar o fluxo.

O Carnaval de Curaçao é diferente todos que já participei
O Carnaval de Curaçao é diferente todos que já participei - stevebphotography/iStock

A música organiza o ambiente. O ritmo da tumba aparece em concursos e apresentações, funcionando como base para os desfiles. É ali que se define o repertório que vai acompanhar os grupos nas ruas.

Ao contrário do Carnaval no Brasil, a festa é mais distribuída e acessível. Famílias ocupam calçadas, crianças acompanham blocos e a circulação acontece sem concentração excessiva em um único ponto. O evento é aberto, mas segue um ritmo constante.

A origem da celebração está no encontro entre os bailes de máscara europeus e a tradição do tambu africano, conhecido como o “blues de Curaçao”. Essa fusão cultural moldou uma prática que hoje se estende por semanas e culmina na queima do Rei Momo, encerrando oficialmente o período festivo antes da Quaresma.

A convite do Curaçao Tourist Board, órgão oficial de turismo da ilha, fui conhecer o país e vivenciar essa experiência participando do desfile.

A experiência começou no domingo de Carnaval. Fui acompanhar a Grande Marcha no Domo de Curaçao, um dos poucos espaços com arquibancadas e camarotes. A estrutura permite observar de perto os grupos que desfilam com fantasias elaboradas e coreografias ensaiadas. Estar ali é perceber como o público se envolve, reagindo à passagem dos carros alegóricos e blocos.

O grande dia do Carnaval

A terça-feira de Carnaval marca o desfile de despedida. Dois dias antes, fui fazer os ajustes na fantasia. Nada tão suntuoso, mas com referências visuais próximas às das escolas de samba brasileiras. O grupo escolhido foi o Estreno Carnival, um dos mais concorridos da programação oficial.

A concentração do grupo Estreno
A concentração do grupo Estreno - Márcio Diniz/Catraca Livre

Pouco antes do almoço, uma maquiadora profissional foi até o hotel onde eu estava hospedado. Luis, nosso guia durante a estadia em Curaçao, passou orientações de logística antes da entrada no percurso.

Com trajeto de cerca de 7 a 8 quilômetros, o desfile atravessa a cidade por horas até Otrobanda. Não há pressa para chegar ao fim. A duração pode chegar a oito horas, com tempo determinado pelo ritmo da música e pelas paradas ao longo do caminho.

Desfilar exige preparo físico. O calor e a extensão do percurso tornam a experiência mais exigente do que parece para quem observa da calçada. Por sorte, nosso grupo era o 18º, o último a entrar, já no fim da tarde.

O Estreno foi o último grupo do desfile de encerramento do Carnaval de Curaçao
O Estreno foi o último grupo do desfile de encerramento do Carnaval de Curaçao - Márcio Diniz/Catraca Livre

Ao longo do trajeto, o público acompanha de perto. Não há barreiras físicas. O contato é direto, com interação contínua. A estrutura do percurso começa a ser montada semanas antes, com espaços que variam de áreas simples a camarotes organizados por empresas ou grupos familiares. Cada um leva sua própria comida e bebida, sem cobrança de ingresso.

Uma festa que mistura referências

O Carnaval de Curaçao reflete a formação cultural da ilha. Influências africanas, europeias e caribenhas aparecem nos ritmos, nas fantasias e na organização dos grupos.

Os carros alegóricos, que lembram em parte os trios elétricos brasileiros, se intercalam entre as alas. Cada um apresenta uma proposta musical diferente. No nosso caso, havia um DJ; em outros, bandas ao vivo conduziam o ritmo.

Desfilar no Carnaval de Curaçao, especialmente em grupos como o Estreno, envolve a compra de pacotes que incluem fantasia personalizada e serviços ao longo do percurso. Os valores variam, em média, entre US$ 200 e mais de US$ 500 por pessoa, dependendo do nível de estrutura oferecida.

A queima do Rei Momo encerra o ciclo. O ato simboliza o fim do período festivo antes da Quaresma e funciona como um marco no calendário local.

Mesmo com a duração prolongada, a festa mantém um padrão. Cada evento ao longo dos dois meses se conecta ao outro, formando uma sequência contínua ao longo das semanas.

Ao final, a experiência não se resume ao evento. Fico com a sensação de ter feito parte de uma das principais manifestações culturais da ilha. E a pergunta inicial retorna: quando foi a última vez que você decidiu atravessar essa linha durante uma viagem?

*O jornalista viajou a convite do Curaçao Tourist Board