O segredo da ‘brasilidade’ que está conquistando o mundo

Fenômeno da "brasilidade" impulsiona turismo e audiovisual enquanto neurociência decifra a atração global pela estética híbrida do país.

04/04/2026 09:52

O movimento nos terminais internacionais do país e as indicações recentes de produções nacionais ao Oscar, como “O Agente Secreto”, confirmam uma mudança de patamar do Brasil no cenário externo. Em 2025, o país atingiu a marca de 9,3 milhões de visitantes estrangeiros, um recorde histórico para o setor. Esse fluxo reflete um interesse que vai além do turismo convencional, concentrando-se na estética e na identidade local.

Para a pesquisadora neurocomportamental Marina Travassos, fundadora da consultoria Okean e estrategista baseada em Paris, o fenômeno global tem raízes na forma como o cérebro humano processa a informação. “O país atua como um laboratório cultural que utiliza a antropofagia para absorver influências externas e devolvê-las de forma original”, explica. Esse processo de “devorar” o estrangeiro para criar o autêntico sustenta a relevância da produção nacional.

O segredo da ‘brasilidade’ que está conquistando o mundo
O segredo da ‘brasilidade’ que está conquistando o mundo - africa924/iStock

Com mais de 15 anos de experiência no estudo de comportamento para marcas como Coca-Cola e Adobe, Travassos aponta que o Brasil possui uma capacidade de acolhimento cultural que permite a absorção de referências sem a perda da identidade. Nessa fusão entre o local e o externo, surge uma estética que é, simultaneamente, brasileira e global. O equilíbrio atende a uma demanda internacional por novas linguagens visuais e sonoras.

O cenário de destaque se estende da moda ao comportamento, posicionando o país como um centro de influência onde a mistura é o principal ativo. Esse movimento é impulsionado por uma indústria do entretenimento que projeta a narrativa de uma cultura que não teme a integração de diferentes repertórios. O resultado é a consolidação de um “soft power” que converte interesse cultural em números econômicos expressivos.

A lógica da neurociência na brasilidade

Sob a ótica da neurociência cognitiva, o sucesso do Brasil no exterior é explicado pelo conceito de “novidade familiar”. O cérebro humano demonstra maior atividade em regiões ligadas ao processamento de recompensa quando exposto a estímulos que misturam padrões conhecidos com variações inesperadas. Culturas híbridas produzem combinações de referências que o público global já reconhece, mas com uma execução imprevista.

Segundo a especialista, quando um elemento conhecido aparece com uma roupagem nova, a detecção de novidade é ativada no sistema nervoso. O processo gera uma percepção de algo original, sem soar completamente estranho ou alienígena ao observador. Essa sensação de surpresa controlada facilita a aceitação de produtos culturais brasileiros, como a música e o design, em mercados diversos da Europa e Ásia.

O fenômeno é potencializado pelo modo como a cultura brasileira se manifesta no ambiente digital. A alta taxa de engajamento da população em redes sociais cria uma exposição contínua do estilo de vida do país para o restante do mundo. Essa presença constante funciona como uma preparação do terreno, tornando os códigos culturais brasileiros familiares para o estrangeiro antes mesmo do contato físico com o país.

A força desse engajamento digital atua como um amplificador da narrativa nacional, que não teme a mistura. Ao utilizar um olhar disruptivo sobre o sucesso de produtos brasileiros, a neurociência identifica que o cérebro é atraído por essa quebra de padrões familiares que mantêm uma base reconhecível. É a eficácia dessa “estética mestiça” que garante a retenção da atenção em um mercado de atenção saturado.

Soft power e a nova geopolítica cultural

A ascensão da “brasilidade” ocorre em paralelo a mudanças na geografia cultural do planeta, com o surgimento de polos multipolares de influência. O Brasil se posiciona como uma alternativa poderosa aos centros tradicionais de produção simbólica, localizados historicamente nos Estados Unidos e na Europa. O país utiliza sua diversidade histórica e sua capacidade de adaptação como ferramentas de diplomacia cultural.

A indústria do entretenimento funciona como um instrumento de soft power, termo que descreve a capacidade de uma nação de influenciar através da cultura e de valores. A narrativa de uma nação que celebra a mistura e a generosidade cultural ressoa com debates contemporâneos globais sobre identidade e hibridismo. Esse posicionamento atrai a atenção de curadores, marcas globais e investidores internacionais.

Essa projeção impacta diretamente a economia do turismo e o consumo de bens nacionais. O visitante que chega ao Brasil em 2026 busca vivenciar o laboratório cultural descrito por especialistas em comportamento e consumo. O interesse recai sobre a gastronomia e as festas populares, que são consumidos como experiências de imersão profunda em uma identidade que se percebe como inovadora.

O mercado global de consumo passou a valorizar a fluidez e a capacidade de “antropofagia” cultural, características intrínsecas à formação brasileira. Ao transformar a mistura em um ativo estratégico de mercado, o país consolida sua posição como tendência internacional. O desafio das indústrias criativas agora consiste em manter a autenticidade enquanto escalam a produção para atender a uma demanda externa crescente.