Saiba como funcionam os vistos para nômades digitais

Movimento vem transformando o mercado de trabalho e as políticas migratórias ao redor do mundo

23/01/2026 14:42

O avanço do trabalho remoto impulsionou o crescimento do nomadismo digital, modelo em que profissionais podem trabalhar de qualquer lugar do mundo. Em 2025, cerca de 40 milhões de pessoas já viviam como nômades digitais em diferentes países, segundo o Global Digital Nomad Report. Antes restrito a perfis específicos, o formato se tornou uma alternativa concreta para trabalhadores qualificados que buscam mobilidade geográfica sem interromper a carreira.

Levantamentos de plataformas especializadas ajudam a dimensionar o fenômeno. De acordo com a Pumble, cidadãos dos Estados Unidos representam cerca de 44% dos nômades digitais cadastrados, o que equivale a aproximadamente 44 milhões de pessoas em estimativas globais. Em seguida vêm Reino Unido (7%), Canadá, Rússia, Alemanha, França, Brasil, Austrália, Holanda e Espanha, que juntos somam cerca de 26% do total registrado pela Nomad List.

Movimento vem transformando o mercado de trabalho e as políticas migratórias ao redor do mundo
Movimento vem transformando o mercado de trabalho e as políticas migratórias ao redor do mundo - Sasithorn Phuapankasemsuk/iStock

No Brasil, o interesse pelo estilo de vida nômade também tem crescido. Entre janeiro e junho de 2025, buscas pelo termo aumentaram 41%, segundo o Google Trends. Para atender à demanda, mais de 40 países criaram programas específicos de vistos para trabalhadores remotos.

Embora a Europa concentre grande parte do fluxo, o Brasil começa a se destacar como destino para profissionais estrangeiros. Brasília foi apontada pela InsureMyTrip como uma das cidades mais atrativas do mundo para nômades digitais, considerando infraestrutura, conectividade e qualidade de vida. Em outubro de 2025, a Embratur lançou a campanha “Brasil, seu escritório dos sonhos”, voltada à atração de trabalhadores remotos internacionais.

Espanha e Portugal lideram a preferência dos brasileiros

Na Europa, Espanha e Portugal se consolidaram como os destinos mais vantajosos para brasileiros que desejam adotar o nomadismo digital. Um levantamento da consultoria internacional Hayman-Woodward comparou requisitos de renda, tempo de aprovação e benefícios fiscais em mais de dez países europeus e apontou os dois países como os mais equilibrados para esse público.

“O nomadismo digital já se consolida como um componente relevante do trabalho em escala global. Nesse contexto, Espanha e Portugal se destacam para brasileiros por combinarem proximidade cultural e linguística, boa qualidade de vida, custos ainda competitivos em relação a outros destinos europeus e marcos regulatórios que oferecem caminhos claros para residência de longo prazo e eventual cidadania”, afirma Leonardo Freitas, CEO da Hayman-Woodward , multinacional especializada em mobilidade global com presença em oito países.

Na Espanha, o visto de nômade digital —conhecido como Teletrabajo Internacional— exige renda mínima de € 2.368 por mês (aproximadamente R$ 15.073). O processo costuma levar cerca de 30 dias, e o visto permite residência por até cinco anos. Um diferencial relevante para brasileiros é a possibilidade de solicitar a cidadania espanhola após dois anos de residência legal contínua.

Portugal exige renda mensal mínima de € 3.480 para o visto D8, que concede residência temporária com possibilidade de permanência definitiva após cinco anos. Até março de 2023, o país já havia emitido cerca de 550 vistos para nômades digitais, com cidadãos dos Estados Unidos, Reino Unido e Brasil liderando as solicitações.

Outros destinos europeus em destaque para nômades digitais

Além de Espanha e Portugal, países como Malta, Croácia, Estônia e Grécia também se destacam por oferecer programas estruturados para trabalhadores remotos.

Estônia é referência em vistos para nômades digitais
Estônia é referência em vistos para nômades digitais - KavalenkavaVolha/iStock

A Estônia, referência global em digitalização, exige renda mínima de €4.500 mensais, com prazo de processamento entre 15 e 30 dias. A Croácia permite aplicação totalmente online, com exigência de cerca de €2.360 por mês. Já Malta aceita solicitações digitais, requer renda mínima de €3.500 mensais e oferece isenção de impostos sobre rendimentos obtidos fora do país.

11 dicas fundamentais para solicitar o visto de nômade digital

1 – Entenda os requisitos básicos de cada localidade

Embora variem de país para país, os principais critérios incluem a comprovação de trabalho remoto (contrato ou clientes estrangeiros); renda mínima mensal comprovada; seguro de saúde internacional e certidão de antecedentes criminais e prova de acomodação ou intenção de residência.

2 – Comprove renda estável

Esta é a exigência mais importante porque os governos precisam garantir que você conseguirá se sustentar no país sem depender de assistência social ou do mercado de trabalho local. A comprovação é feita por meio de extratos bancários, contratos de prestação de serviço ou declaração de empregadores. A exigência varia entre € 700 (Portugal – visto D7) e € 4.500 (Estônia) mensais. Na Espanha, o valor é de € 2.368 a € 2.760 por mês, dependendo da base utilizada pelo consulado.

3 – Tenha vínculo profissional internacional

É necessário comprovar trabalho remoto para empresas ou clientes fora do país de destino. Na Espanha, o trabalhador por conta própria poderá trabalhar para empresas do país contanto que o trabalho não ultrapasse 20% do total de sua atividade laboral.

4 Qualificação profissional

É importante possuir um diploma de graduação ou pós-graduação de uma universidade credenciada, ou ter pelo menos três anos de experiência de trabalho na área.

5 – Seguro de saúde internacional

Todos os países exigem cobertura médica válida durante toda a permanência. Este é um dos requisitos mais rigorosos e sem exceções.

6 – Antecedentes criminais limpos

Apresentar certidão negativa dos últimos 5 anos, traduzida e juramentada.

7 – Planeje os custos

Na Espanha, o valor da taxa é de € 89,96 para o primeiro pedido e €95,27 para a renovação. Considere também custos com tradução juramentada (€25 a €60 por página), apostilamento de documentos (R$ 70 a R$ 120 por item) e possível assessoria jurídica (a partir de €500).

8 – Documentação completa

Reúna contratos de trabalho ou prestação de serviço, extratos bancários recentes (geralmente dos últimos 3 meses), declarações de imposto de renda e comprovante de acomodação no país.

9 – Entenda as vantagens fiscais

Nna Espanha, o regime fiscal de impatriados pode resultar em tributação de 24% sobre renda de origem espanhola, com isenção sobre ganhos no exterior. Na Croácia, há isenção de imposto de renda sobre a renda de trabalho remoto.

10 – Considere a livre circulação na Europa

Amaioria dos vistos permite circular livremente pelo Espaço Schengen durante o período de validade, possibilitando explorar diferentes países europeus.

11 – Planeje a renovação e cidadania

Na Itália, após cinco anos de residência com o visto de nômade digital, é possível solicitar a residência permanente e, depois de mais cinco anos, dar entrada no processo de cidadania italiana.

Movimento que redefine o futuro do trabalho

O nomadismo digital deixou de ser uma tendência emergente para se consolidar como parte estrutural do mercado de trabalho global. Com países disputando talentos por meio de políticas migratórias mais flexíveis e o Brasil também se posicionando como destino competitivo, 2026 tende a marcar um ponto de inflexão nesse movimento.

“O que se observa é uma ampliação significativa do acesso à mobilidade internacional. Esse cenário já não se restringe a executivos ou investidores e passa a incluir profissionais qualificados de diferentes áreas, que hoje conseguem decidir onde viver sem comprometer sua trajetória profissional. No caso dos brasileiros, esse contexto abre uma oportunidade concreta”, finaliza Leonardo Freitas.