Superlotação no Jalapão gera filas de duas horas em fervedouros

Alta temporada no Tocantins expõe gargalos do turismo de massa e impulsiona busca por roteiros alternativos fora do circuito tradicional

30/04/2026 14:19

Planejando conhecer o Jalapão nos próximos meses? Então é bom ficar atento. A chegada da alta temporada coloca o destino novamente no centro das atenções de viajantes que buscam as paisagens do Cerrado, o bioma mais antigo do planeta.

Esse aumento da procura tem gerado preocupação quanto à superlotação dos atrativos naturais e aos impactos do turismo de massa no Jalapão. Nos fervedouros mais conhecidos da região, a espera para acessar as águas cristalinas chega a atingir duas horas, cenário que contrasta com a proposta de isolamento do destino.

Inverter rotas e horários garante mergulhos sem filas nos fervedouros do Jalapão
Inverter rotas e horários garante mergulhos sem filas nos fervedouros do Jalapão - PlanetaEXO/Divulgação

É nesse cenário que operadores de turismo sustentável, como a PlanetaEXO, tentam modificar a lógica dos itinerários padronizados. A estratégia foca em experiências que valorizam a cultura regional e buscam uma distribuição equilibrada do fluxo de turistas.

De acordo com Ludimylla Melo Carvalho, sócia da Cerrado Rupestre e parceira local da plataforma, a região conta com mais de 100 fervedouros mapeados, o que levanta questionamentos sobre a viabilidade de enfrentar longas filas em apenas alguns pontos do circuito tradicional.

Jalapão no contrafluxo

Uma das alternativas para fugir da lógica da superlotação é o chamado contrafluxo turístico, estratégia que propõe inverter rotas, horários e até a forma de organizar a viagem. “Os fluxos são criados para facilitar o comércio e a logística das agências. Todo mundo faz o mesmo roteiro, no mesmo horário, do mesmo jeito. O contrafluxo é justamente fazer o contrário disso”, explica Ludimylla.

Jalapão no contrafluxo alternativas sustentáveis para fugir da superlotação na alta temporada
Jalapão no contrafluxo alternativas sustentáveis para fugir da superlotação na alta temporada - PlanetaEXO/Divulgação

Um exemplo clássico são as dunas do Jalapão, tradicionalmente visitadas ao pôr do sol. “Elas são maravilhosas nesse horário, mas também são um espetáculo no nascer do sol e com muito menos gente”, afirma Ludimylla.

Para Lucas Ribeiro, fundador do PlanetaEXO, a busca por alternativas que fujam ao padrão do turismo de massa responde a uma mudança no perfil do viajante. “Existe uma demanda crescente por experiências mais autênticas e responsáveis. As pessoas querem sair do roteiro padronizado e entender o impacto da sua presença no destino.”

Turismo de natureza não é “fast food”

Especialistas e operadores locais alertam que o modelo atual de visitação a destinos naturais, muitas vezes, replica um esquema industrial.

“Roteiros de natureza são vendidos como fast food com todo mundo fazendo tudo igual. Quando você viaja, você consome cultura. Para entender o lugar, você precisa viver o lugar. O jeito como as pessoas vivem em um ambiente tão isolado é único. O viajante precisa respeitar esse tempo e esse ritmo”, diz Ludimylla.

Comunidades locais mantêm vivas as tradições e a cultura da colheita do capim dourado
Comunidades locais mantêm vivas as tradições e a cultura da colheita do capim dourado - PlanetaEXO/Divulgação

O fundador do PlanetaEXO reforça que o tipo de experiência oferecido pela Cerrado Rupestre está no centro da curadoria da plataforma. “A ideia é justamente dar visibilidade a iniciativas locais, que trabalham com grupos menores e evitam a lógica do turismo de massa.”

Em vez de concentrar visitantes nos mesmos pontos, o conceito da plataforma é oferecer alternativas que fujam do comum e gerem renda para as comunidades, sejam elas do Tocantins, da Amazônia, do Pantanal ou dos Lençóis Maranhenses, destinos que estão entre os mais procurados pelo público do PlanetaEXO.

No Tocantins, um dos roteiros disponíveis é uma volta de quatro dias pelo Parque Estadual do Jalapão, que inclui não apenas mergulho nas águas azuis dos fervedouros e contemplação do dourado das dunas, mas também interação com as comunidades das vilas que formam a Rota Quilombola.

Já a expedição de seis dias combina caminhada com raftings e conduz o viajante para bem longe das áreas saturadas do parque. As refeições são servidas em casas de moradores e uma trilha de 9,5 km, com duração de quatro horas, leva à Comunidade Boa Esperança, no município de Mateiros, local fora do comum no Brasil e que mantém viva tradições ancestrais do Jalapão.

“Quando você escolhe operadores comprometidos com o território, o dinheiro da viagem circula mais na economia local”, completa Lucas Ribeiro. “Isso é fundamental para que o turismo seja, de fato, uma ferramenta de desenvolvimento sustentável, diz Lucas”.

Quando ir para evitar multidões no Jalapão

Embora maio e junho apareçam com frequência como os “melhores meses” para visitar o Jalapão, o destino pode ser explorado o ano todo.

Longe do turismo de massa, o mergulho nos fervedouros ganha um novo ritmo
Longe do turismo de massa, o mergulho nos fervedouros ganha um novo ritmo - PlanetaEXO/Divulgação

“As chuvas são esparsas e não costumam atrapalhar a viagem”, afirma Ludimylla. Para quem busca menos movimento, meses como abril, setembro e até dezembro podem ser boas alternativas.

No fim, a discussão vai além de evitar filas. Trata-se de repensar o próprio jeito de viajar. “Quanto mais você massifica, mais você tira o valor da experiência. Por que todo mundo precisa viver a mesma coisa?”, provoca Ludimylla. “O Jalapão é gigantesco. Há espaço para viver algo único. Basta sair do óbvio.”