Viagem solo: epifanias de autoconhecimento e lições de vida

As viagens mais transformadoras foram aquelas onde eu escolhi ir sozinha

Por: Raquel Oliveira
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Desde criança, eu sempre fui maravilhada com as histórias de coragem dos maiores desbravadores de todos os tempos — de Marco Polo, em busca das especiarias no oriente, aos portugueses e espanhóis que se lançaram ao oceano em caravelas em busca do descobrimento. Explorar o mundo sempre me fascinou, não apenas pela possibilidade de conhecer novos lugares, mas também pela vontade de me conectar com pessoas de outras culturas com diferentes visões de mundo.

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Crédito: Arquivo pessoalMinha primeira viagem ao Oriente Médio

Essa curiosidade de desbravar o mundo me levou a muitos países e me proporcionou encontros muito inusitados. No entanto, as viagens mais transformadoras foram aquelas onde eu escolhi ir sozinha. Não é à toa que vários viajantes experientes advogam que viajar sozinho é um catalisador para momentos de epifania que surgem quando você adota uma nova perspectiva de mundo ao estar mais aberto em uma viagem solo. Pra mim, isso faz muito sentido. Viajar sozinha passou a ser uma forma de meditação e a melhor forma de enfrentar meus próprios medos e aprender a superá-los — e a gostar de fazer isso repetidas vezes. Com ou sem medo, você nunca volta do mesmo jeito que saiu. Seja pelas novas experiências, lugares e pessoas que conheceu, seja pela possibilidade de passar um tempo sozinho, de reflexão e autoconhecimento.

Viajar sozinha se tornou uma nova parte da minha realidade, eu absolutamente amo fazer isso e aprendi muitas lições ao longo do caminho, algumas delas compartilho aqui.

O poder da introspecção e das pequenas (grandes) coisas da vida

Passar um tempo sozinho com seus pensamentos é uma das coisas mais importante que você pode fazer para levar uma vida com mais propósito. A melhor maneira de explorar o que é verdadeiro para você e examinar como você está vivendo de acordo com essas verdades requer longos períodos de tempo consigo mesmo. Você precisa sair de sua rotina e ambiente normais para ir a algum lugar que estimule sua mente, mas também lhe dê espaço para ficar sozinho com seus pensamentos. É um processo muito meditativo e quase todas as grandes epifanias que tive em minha vida vieram de uma jornada sozinha. A mais marcante foi uma viagem para a Amazônia.

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Crédito: Arquivo pessoalComunidade ribeirinha na Amazonia

A conexão com a natureza exuberante da maior floresta tropical do mundo e com a forma de vida das comunidades ribeirinhas são motivos de sobra pra te levar a um estado de reflexão profundo sobre os seus próprios valores e como você está levando a sua vida. Sob a perspectiva de quem vive na cidade grande, vem a pergunta: por que aquelas pessoas que têm menos recursos e menos oportunidades (e, às vezes, até menos direitos) do que eu são tão mais felizes? Ver a vida passar mais devagar, saber que você é apenas uma pequena parte que compõe aquele ecossistema tão fantástico e observar a solidariedade genuína das pessoas que fazem parte daquela comunidade. Tudo isso foi a melhor forma que encontrei para examinar as minhas próprias verdades e fazer mudanças significativas na minha vida.


#DicaCatraca: sempre lembre de usar a máscara de proteção, andar com álcool em gel, respeitar o distanciamento social e sair de casa somente se necessário! Caso pertença ao grupo de risco ou conviva com alguém que precise de maiores cuidados, evite passeios presenciais. A situação é séria! Vamos nos cuidar para sair desta pandemia o mais rápido possível. Combinado?


O desabrochar da sua intuição

O que é a intuição senão a habilidade de escutar aquela voz interior que te guia para o caminho certo? Nos últimos anos, passei a confiar mais na minha intuição para tomar decisões importantes e, também, no dia a dia nas minhas viagens. Inúmeras foram as situações que me ajudaram a desenvolver a minha intuição durante as minhas aventuras solo. Uma delas foi uma viagem para a Índia. Passei 5 dias em Nova Délhi, umas das cidades mais populosas do mundo, explorando os diversos cantos da cidade sem GPS e internet.

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Crédito: Arquivo pessoalCentro velho em Nova Délhi, Índia

Ficar perdida em uma megalópole de um país com altos índices de feminicídio não é nada divertido. O mapa offline não funcionava e, simplesmente, não havia mulheres na rua pra pedir informação. As poucas pessoas que falavam um inglês entendível eram homens e não me davam a informação certa. Fiquei um bom tempo andando igual barata tonta sob o olhar curioso dos milhares de indianos que cruzavam comigo, me chamando de nomes que eu não entendia, me impedindo de passar, ou encostando em mim de propósito. Respirei fundo, decidi seguir minha voz interior e achar o caminho sozinha — me custou muito mais tempo, mas me guiou sã e salva de volta pra casa.

O prazer de um encontro secreto consigo mesmo

Qual foi a última vez que você levou você mesmo para um passeio ou a um jantar? Pra muitos, pegar um avião pra jantar consigo mesmo em outro país é inconcebível e inimaginável. Temos tanto medo da “solidão” que fazemos de tudo para evitá-la. Navegar na Internet ou assistir a filmes sozinho é uma forma de distração que está te impedindo de um encontro consigo mesmo. Com o passar dos anos, descobri que a solidão nada mais é do que uma construção social. É preciso estar perto de pessoas para se sentir solitário. Há um avanço quando você se inclina a ficar sozinho. É quando a verdadeira magia acontece. Muitas experiências são mais significativas quando vividas por você mesmo.

Crédito: Arquivo pessoalHighlands na Escócia

Há um ano fiz uma viagem que muitos achariam difícil de se divertir sozinho. Peguei um avião e fui descobrir os highlands (terras altas) escoceses. As paisagens são tão espetacularmente únicas e fenomenais que nem a melhor descrição e fotografia é suficiente pra compartilhar o que meus olhos viram e o que aquilo significou pra mim. Quando você está viajando com outra pessoa, você compartilha cada descoberta, mas quando está sozinho, você tem que carregar cada experiência com você como um segredo, algo que você tem que escrever no coração, porque não há outra forma de preservá-lo.

O impacto das histórias das pessoas que cruzam o nosso caminho

Anos de viagem me trouxeram vários amigos que conheci na estrada. A cada vez que eles me enviam uma mensagem, seja de aniversário ou apenas um “oi, lembrei de você hj!”, me recordo dos lugares por onde passei e como as histórias de vida daquelas pessoas mudaram um pouco a minha própria perspectiva.

Crédito: Arquivo pessoalCaminho de Santiago com (parte) do meu grupo de peregrinos

Assim foi quando eu decidi caminhar sozinha os últimos 100km do Caminho de Santiago de Compostela. Bom, na verdade, apenas 10km foram sozinha. Os outros 90km foram em companhia de um grupo super diverso de amigos que fiz com as mais variadas motivações para estar ali. O senhor espanhol que percorre o caminho há 30 anos só para fazer novos amigos. Um outro que teve dois infartos e decidiu caminhar os 800km do caminho, desde a França, em forma de promessa para agradecer por estar vivo. Um argentino que estava ali para curar uma história de amor que chegou ao fim. Um grupo de amigos japoneses que atravessaram meio mundo pra concluir a parte espanhola da peregrinação japonesa. E eu, que apenas queria me conectar com as histórias das pessoas e suas motivações para estarem ali. As viagens que mais me marcaram foram aquelas onde eu conheci pessoas e suas histórias. O tempo passa, a gente até esquece dos lugares por onde passamos. Mas nunca do impacto que aqueles encontros tiveram na nossa própria história. No final, a gente nada mais é do que uma coleção de experiências que vivemos em toda nossa vida!

A busca do “eu inexplorado” é um resultado poderoso da viagem solo. Eu amo a independência e a aventura de viajar sozinha, mas não sabia que a maior aventura seria desenterrar os sentimentos escondidos debaixo da superfície do meu coração e do meu inconsciente.

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