Moacyr Luz e Chico Alves denunciam retrocesso em ‘Sonho Estranho’

Por: Redação

Durante o período de ditadura militar, quaisquer expressões contrárias ao regime corriam o risco de censura. Na música, o samba sempre foi um alvo. Mesmo assim, muitos compositores e intérpretes não se calaram e, por meio de poesia, cantaram pela liberdade e contra a repressão do governo.

Nos dias atuais, figuras do meio artístico não deixaram de se posicionar, e protestar por meio de músicas continua sendo um recurso utilizado pelos sambistas com o intuito de promover a reflexão crítica.

É neste sentido que dois importantes nomes do samba contemporâneo, Moacyr Luz e Chico Alves, somam forças para produzir um importante alerta em “Sonho Estanho“. Gravado pela Biscoito Fino em agosto deste ano, com melodia de Moacyr e letra de Chico, o samba faz analogia à promoção da violência e à represália bastante sentida atualmente: “Sonhei que despertei/ E me dei conta que acordei/ Noutro país/ Onde as pessoas tinham balas de fuzis/ E o povo andava sem razão de ser feliz/ Era um país fora da lei/ Sem diretriz/ Embarcação sem direção/ Tentando em vão/ Colher a paz plantando a guerra”.

Permeada pela afinidade musical e política entre os compositores, a gravação de “Sonho Estranho” contou ainda com a participação da roda Samba do Trabalhador, importante expoente da nova geração do samba carioca liderada e fundada por Moacyr .

Confira o clipe oficial de “Sonho Estranho”:

Em entrevista exclusiva concedida ao Samba em Rede, o compositor Chico Alves chama atenção sobre os perigos que sondam a classe artística. “Essa polarização política está assustando alguns artistas porque a realidade está assustadora, com pessoas agredindo quem se posiciona politicamente. Muitos andam com medo também de perder público e até sofrer retaliações aos seus trabalhos”, alerta.

Moacyr Luz, referência do gênero que já teve sambas censurados na década de 1970, conta que também percebe os efeitos negativos da polarização e reforça o papel do sambista neste sentido: “Falar de política, de uma forma geral, é papel da música e da cultura; intervir principalmente na censura de um país”.

Na entrevista, Moacyr ainda fala sobre a relação entre a política e o Carnaval, a importância da preservação da cultura de boteco, e conta que é um dos compositores do samba-enredo da escola de samba Paraíso da Tuitui para o Carnaval de 2020.

Chico também conta mais detalhes sobre seu início da carreira, suas referências e revela em primeira mão que está em processo de gravação de seu próximo disco, “Paranauê”.

Confira a íntegra da entrevista a seguir:

Em um tempo em que se fala na volta da censura, você e compositor Chico Alves resolveram lançar um samba de protesto. Como surgiu essa ideia e como se deu o processo de composição?

Moacyr Luz: Acredite, já tive musica censurada em 1978 e, confesso, não vi motivo pra tanto. Acho que, por isso mesmo, senti uma urgência em compor esse samba, antes que seja tarde demais. Conversei com o Chico Alves da necessidade de ser contundente, mas sem a ira do templo dos (…) Precisamos manter a harmonia entre as pessoas.

Sabemos que sua insatisfação e posicionamento político não vêm de hoje. Qual o papel da cultura e do samba no cenário atual?

Moacyr Luz: O samba é naturalmente uma denúncia, quase sempre social, mas explicito no grito do preconceito: os negros, as comunidades, o emprego e a violência familiar. Falar de política, de uma forma geral, é papel da música e da cultura; intervir principalmente na censura de um país.

Como tem sido a resposta do público desde o lançamento do single? Há planos de ampliar o escopo da parceria com o Chico Alves e pensar em um novo CD?

Moacyr Luz: Foi surpresa pra mim. O país esta dividido, polarizado. Tenho feito outros sambas com o Chico, mas ainda é cedo pra pensar em disco. Tenho feito muita música com diferentes parceiros, vez por outra uma se destaca, foi o que aconteceu com “Sonho Estranho”.

Você é considerado um dos grandes defensores da cultura de boteco; os “butiquins” costumam ser uma espécie de refúgio para quem precisa espairecer e um lugar seguro para a livre troca de ideias. Você sente que espaços como o Bip Bip, do saudoso Alfredinho, o Bar do Omar, entre outros, estão sendo alvos de uma onda conservadora?

Moacyr Luz: Eu tenho o cuidado de tratar o “butiquim” como um espaço democrático, livre pra assuntos banais como a mulher do vizinho, o pênalti não marcado, muito samba e descobertas milagrosas para curar o fígado. O Bip Bip é único. Enquanto a miragem do Alfredo permanecer rouca na primeira mesa do bar, a história continua.

Em 2017, você compôs um samba-enredo para a escola de samba Paraíso do Tuiuti, no qual fez duras críticas ao governo de Michel Temer. Qual é a importância de envolver política no Carnaval? Você pretende escrever algum samba para 2020?

Moacyr Luz: O Joãozinho Trinta já discutia política nos seus enredos. Também existia a visão ufanista de alguns carnavalescos. O samba que fiz com parceiros para a Tuitui em 2017, foi uma consequência de um enredo bem contado, com referências nítidas ao governo da época. Foi um momento inesquecível pra mim, uma escola se impor na avenida com a força de uma grande agremiação; e quanto escrever um samba pra 2020: já esta pronto e gravado!

Ser artista e sambista em 2019 é mais fácil do que há 40 anos? Com isso em mente, de que modo você e sua música se transformaram ao longo desses anos?

 Moacyr Luz: Minha música mudou absurdamente, mas continuo me enxergando em cada acorde. Acho que o Brasil mais suburbano vem prevalecendo nas harmonias. Mais simples, e ainda esperançoso.

Como é a sua relação com o Moacyr Luz, seu parceiro na canção de protesto “Sonho Estranho”? Como vocês se conheceram e como você reconhece a influência dele em sua música?

Chico Alves: O Moa é um caso daqueles em que o ídolo se torna amigo e depois, a partir da confiança e conhecimento, se torna parceiro. Me aproximei do Moa a partir do Toninho Geraes, que é um parceiro em comum, e eu passei a frequentar mais o Samba do Trabalhador e, descobrimos que somos vizinhos e a partir daí, um Aperol no Belmont, que é um “butiquim” equidistante entre a minha casa e a dele e amizade cresceu e a parceria veio naturalmente. Hoje temos algumas musicas já compostas e que serão gravadas no meu próximo CD.

Compôr ao lado de um parceiro contestador te faz enxergar o samba como ferramenta de denúncia social? Acha que os sambistas estão engajados neste sentido?

Chico Alves: Sim, conversamos muito sobre esse momento e ambos corroboramos de visões parecidas e, ao meu ver, essa polarização política está assustando alguns artistas porque a realidade está assustadora, com pessoas agredindo quem se posiciona politicamente e muitos andam com medo também de perder publico e até sofrer retaliações aos seus trabalhos.

Há trechos do samba “Sonho Estranho” que estabelecem um diálogo com a religiosidade, contemplando a riqueza do sincretismo brasileiro. Algum fato em particular gerou esse alerta contra a intolerância religiosa sentida no Brasil? Queria aproveitar para perguntar sobre o processo de composição da música: como foi?

Chico Alves: Eu estava jantando com a minha namorada num domingo e recebi uma ligação do Moa, dizendo que havia mandado uma melodia pro Aldir mas que ele acabou, por motivos particulares, declinando e devolvendo pra ele e ele perguntou se eu gostaria de ouvir e aí a responsa já aumentou; se o cara mandou pro Aldir eu teria que corresponder a expectativa e ao ouvir eu me emocionei muito porque eu percebi que aquela melodia poderia abrigar a letra que eu gostaria de fazer, falando desses tempos de intolerâncias que estamos vivendo, tanto religiosa quanto politica, de raça, sexual, enfim… O recrudescimento das relações e eu falei com Moa e ele disse que era isso que ele havia pensado pra música.

Naquele momento o jantar já havia dançado e os arrepios já corriam pelo corpo e a inquietude da inspiração já tomando conta da mente; fui pra casa e naquela madrugada eu terminei a letra e no outro dia mostrei ao Moa e nos encontramos só pra lapidar e o pessoal da Biscoito Fino se apaixonou e em uma semana nós dois com a turma do Samba do Trabalhador já estávamos no estúdio gravando.

Você é nascido no Espírito Santo mas atualmente mora em Niterói, no Rio de Janeiro. Como o samba entrou em sua história? Consegue recordar algum momento na guinada para a carreira de compositor que te marcou de maneira especial?

Chico Alves: Eu sou Capixaba de uma cidadezinha chamada Fundão e o samba entrou na minha vida a partir das rádios AM que minha mãe ouvia pelas manhãs, numa época em que as rádios tocavam tudo quanto era música brasileira e a gente decidia o que gostava. Ouvia, Clara, João Nogueira, Benito, Alceu, Zé Ramalho, etc. Mas uma madrinha uma vez veio ao Rio e levou um disco do Roberto Ribeiro e ai não teve jeito, aquela música me tomou por inteiro e eu vi que ali meu coração batia mais forte.

Eu gostava de cantar e nunca imaginei fazer música até que em 1998 me mudei pra Niterói e comecei a me enturmar com uma turma que compunha, uns garotos, Délcio Carvalho, Ivor Lancelloti, Márcio Proença , Marco Pinheiro, Daniel Scisinio e ali eu percebi que dava pra fazer e eu me animei e comecei a fazer e as parcerias foram surgindo.

Morei por 15 anos em Niterói e vinha pouco para o Rio mas há uns seis anos vim morar no Rio e comecei a participar mais da cena e as parcerias foram surgindo e o trabalho ganhando uma visibilidade maior e além de mim outras pessoas gravando.

Suas músicas já foram gravadas por artistas como Leila Pinheiro, Guinga, Aurea Martins, Toninho Geraes, Quarteto em Cy, Moacyr Luz e o Samba do Trabalhador. Há alguma que você considera mais importante?

Chico Alves: Cada registro na voz de um interprete é uma alegria diferente e eu me emociono e agradeço ao universo por esse dom e as oportunidades que aparecem.

Seu último álbum, “Para a Yayá Rodar a Saia”, foi lançado em 2017. Já está preparando um novo projeto? Há planos de ampliar o escopo da parceria com o Moacyr Luz e pensar em um novo CD?

Chico Alves: O “Yayá” foi um disco importante porque foi o meu primeiro solo e eu mostrei também a faceta cantor, agora estou em estúdio com um CD que vai se chamar, “Paranauê” com parcerias diversas, com o Geraes, Toninho Nascimento, Everson Pessoa, Moa, Wilson das Neves e Pedro Messina e participação de Teresa Cristina, Zé Renato, Moyseis Marques, Toninho Geraes, Pedro Messina, Alice Passos e Marcelle Motta, amigos que eu admiro muito.

Também estou com um projeto em parceria com o Geraes para a produção de CD de Afro Sambas e já temos muita coisa composta. Com Moa eu gravo três parcerias nossas no novo CD e vamos compondo sempre que a luz da inspiração se acender pra gente.

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