‘Bolsonaro é uma droga pesadíssima’, afirma Lobão

Em entrevista à Catraca Livre músico falou sobre governo, influência de Olavo de Carvalho e democracia, entre outros temas

Por: Redação
O músico Lobão e o jornalista Gilberto Dimenstein, da Catraca Livre, durante entrevista
Crédito: Alessandra Petraglia/Catraca LivreO músico Lobão e o jornalista Gilberto Dimenstein, da Catraca Livre, durante entrevista

Um dos poucos nomes do meio artístico a apoiar a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), o músico Lobão revelou recentemente estar desapontado com o governo, que ele definiu como um “desastre”. Em entrevista ao jornalista Gilberto Dimenstein, da Catraca Livre, ele disse que, desde as primeiras semanas de governo, foi alertado por suas fontes dentro do partido de que o atual presidente só confia nos filhos e no Olavo de Carvalho.

Segundo Lobão, ele sabia dos “riscos e danos” que o apoio a Bolsonaro poderia lhe causar, assim como quando foi a favor da eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao qual o escritor não economiza críticas. “Uma coisa é muito importante de as pessoas entenderem em uma democracia. Eu acredito que o mandatário é um funcionário público, ele tem que cumprir as promessas de governo: ou ele acerta ou erra. Isso aconteceu com o Lula. E eu demorei muito para apoiar o Bolsonaro”, afirma, ressaltando que analisou todos os outros presidenciáveis antes de tomar uma decisão.

Questionado por Dimenstein sobre a escolha de se aliar ao atual presidente durante a campanha eleitoral, Lobão indagou: “Eu experimentei drogas pesadas na minha vida, por que não vou experimentar outros tipos de aventuras? Então fui tentar falar com essas pessoas”. “Bolsonaro é pior que cocaína?”, perguntou o jornalista, em seguida. “Sim, o Bolsonaro é uma droga pesadíssima. Eu usei por muito tempo essas drogas todas. [Bolsonaro] é o último estágio das drogas”, completou o artista.

Lobão também comentou sobre sua relação com Olavo de Carvalho, analisou os primeiros meses de governo e falou sobre a falta de união dessa direita que ele definiu como “caricata”.

Confira a entrevista na íntegra:

Catraca Livre – O que você sentiu como um roqueiro, um especialista em música, quando Olavo de Carvalho [“guru” do governo Bolsonaro] disse que os Beatles são semianalfabetos e não compuseram as músicas deles?

Lobão: Eu conheço muito o Olavo, ele é muito reativo. Eu cheguei a desconfiar que ele estava reagindo a mim mesmo. Da maneira que ele pensa sobre a cultura.

Na minha visão, o rock, desde os anos 60, se tornou alta cultura, passou de música de entretenimento para ser uma música experimental.

Vocês têm que admitir que o rock se tornou contracultura. Havia um certo silêncio baseado num mal-estar por parte do Olavo. Eu sempre me esquivei de chamar o Olavo de astrólogo, maluco, aquelas coisas todas, apesar de todas as excentricidades que ele mostrava. Eu achava um absurdo esse tipo de linchamento que estava ocorrendo no início deste ano. A partir daí, ele começou a agir de uma maneira muito violenta, passou a me chamar de ‘Lobostão’.

Ele tem uma inteligência emocional de um lactante, ele é muito reativo, esse pessoal é todo mundo reativo. Eu sempre falo para os meus amigos: “É muito fácil manipular uma pessoa reativa como acupuntura, ‘você vai lá e cucuta o cara e é previsibilíssimo’. Eu fiz uma música pro Olavo, é muito interessante, educada e não tem nada de deboche. É uma coisa profunda Eu demorei pra chegar no tom que gostaria de chegar, pra manter minha elegância. E outra coisa. Como o próprio Bob Dylan ensinaria: a música, não quero datá-la, nem localizá-la. Ela pode servir agora para o Olavo, mas vai sobreviver a tudo isso.

Ele passou a dizer que nunca tinha ouvido um disco meu. E eu mandei o disco pra ele ouvir. Inclusive o ‘rigor e a misericórdia’ é um título retirado de uma coluna do Olavo. E assim como ele disse que os Beatles não são autores das suas músicas, passou a dizer que eu também não escrevo meus livros. Eu comecei a chamá-lo de ‘Olavinho noves fora, o anãozinho da subtração’.

Gilberto Dimenstein entrevista Lobão na Catraca Livre
Crédito: Alessandra Petraglia/Catraca LivreLobão fala sobre política com Gilberto Dimenstein na Catraca Livre

Quanto do Olavo te influenciou a se distanciar do Bolsonaro? Qual foi a importância? Você teve um papel importante na campanha, foi uma das poucas pessoas do mundo cultural a apoiá-lo.

Eu sabia dos riscos e danos que isso poderia me causar, assim como sabia quando apoiei o Lula. Eu mantinha uma coisa que é muito importante as pessoas entenderem em uma democracia. Eu acredito que o mandatário é um funcionário público, ele tem que cumprir as promessas de governo: ou ele acerta ou erra. Isso aconteceu com o Lula. E eu demorei muito para apoiar o Bolsonaro.

No ano passado, eu já estava estarrecido com o núcleo bolsonarista. Eu sempre lutei contra esses caras de intervenção militar. Eu fui vítima da censura, fui detido na época. As pessoas têm que entender que passei 6 ou 7 anos sendo preso por um arcabouço jurídico. Eu fiquei numa delegacia onde torturavam meus amigos, arrancavam unha, quebravam canela. Eu fui preso, tive que fugir e fiquei de 1986 a 1992 sendo preso.

Ao me considerarem um mal social, era essa direita caricata, horrorosa, que eu tanto lutei naqueles hangouts com Olavo e com várias outras dezenas de novos pensadores de alertar um fato: “Olha, essa coisa de saudade da ditadura é um absurdo, você defender o regime militar é um absurdo”. A direita diz que a esquerda não aprende com seus erros, mas com o que a direita aprendeu? Aquela paranoia conspiratória de achar que todo mundo é comunista…
Eu experimentei drogas pesadas na minha vida, por que não vou experimentar outros tipos de aventuras? Então fui tentar falar com essas pessoas.

O Bolsonaro é pior que cocaína?

Sim, o Bolsonaro é uma droga pesadíssima. Eu usei por muito tempo essas drogas todas. [Bolsonaro] é o último estágio das drogas.

Eu decidi apoiar o Bolsonaro, mas fui primeiro ao comitê do Partido NOVO, fiquei vendo televisão para entender se o Meirelles, o Alvaro Dias e o Alckmin tinham alguma chance de eleição. Eles não foram bem. Quando chegou na hora, eu pensei: ‘Eu briguei tanto para derrubar o PT e chega agora e não votar em ninguém? E o PT ia eleger mais um presidente’.

O que você sentiu quando viu aquele tuíte do Carlos Bolsonaro sobre democracia?

Alarmante. Eles são adestrados, eles não pensam, são reativos. Eu não vejo como filhos do Bolsonaro, são três patetas, mal sabem articular o próprio nome. Cada um tem um pequeno diferencial. O Flavio é um come-quieto. O Dudu surfistinha quer ser o estadista da família. E o Carlos é o histérico, mimado, que tem crises de depressão e manipula o pai.

Você sempre teve um olhar profundo sobre o ser humano. Tem um caráter psicológico profundo nessas relações com os filhos? O que faz o Bolsonaro ter essa relação com os filhos?

Isso é uma promiscuidade, uma indecência. Eu tenho fontes lá em Brasília, pessoas dentro do próprio partido, que começaram a me alertar nas primeiras semanas: o Bolsonaro só confia nos filhos. E ele só confia no Olavo porque ele criou uma relação umbilical principalmente com o Eduardo, que ele está criando para ser uma dinastia.

Uma amiga nossa quer fazer um documentário sobre seitas do mundo todo e está me convidando para dirigir. Sobre a seita atual do Olavo, tem um cara que chama Allan dos Santos, do Terça Livre, absolutamente suspeito, que é um dos tenentes do Olavo. São todos esses olavetes que usam calça de tergal, tem aquela carapaça da direita caricata, mas tem um traço modernoso, usam um brinquinho, uma gravata borboleta, um suspensório. Querem mostrar que a direita é moderna, e não é.

Ela tem uma produtora de vídeos no Rio de Janeiro, e ela também começou a ser olavete, começou a frequentar os cursos de filosofia do Olavo, e ela falou o seguinte: que esse Allan dos Santos foi na produtora, observou tudo, e usou um pretexto, falou que faria um hangout com Jair Bolsonaro, isso em 2013. Eu acredito que a partir desse link houve essa aproximação de muito tempo. Não é absurdo questionar o fato de o próprio Olavo ter confeccionado essa candidatura. Quem começou a chamar de mito e tudo mais foram esses bolsolavistas, olavetes, em torno do Olavo.

O Allan dos Santos engendrou uma espécie de ameaça na internet que eu achei muito suspeita. Há dois, três meses atrás ele disse que estava sendo ameaçado em sua cidade micro, no interior do Rio Grande do Sul. Uma semana depois essa minha fonte de Brasília disse que ele está morando numa mansão no Lago Sul, afirmando que o Eduardo está bancando. Eles querem colocar o Allan dos Santos como presidente da EBC, é o que acho.

O que aconteceu de nefasto foi que, desde a primeira semana de governo, eu comecei a perceber que o que iria preponderar não seria aquele perfil que a gente achava que seria, o dos liberais.

Mas você tinha essa ilusão mesmo?

Tinha que acreditar porque não podia deixar o PT ganhar.

Eu também questionei disso se tornar uma autocracia. Eu percebi que eles [Bolsonaro e seu governo] são reativos, eles recuperaram a imagem de um vilão, dos anos 50, um vilão explícito, mal e grotesco.

O rompimento começa na primeira semana?

Eu tive o cuidado que quando eu fui apoiar [a eleição de Bolsonaro], fui com 500 pés atrás. Eu fiz um registro histórico para mostrar minha cautela. Eu falo durante o vídeo: “Eu sei que tem bolsonaristas que eu sequer daria bom dia ao atravessar a rua”.

Na greve dos caminhoneiros, do ano passado, que foi uma cagada, foi a minha primeira experiência de linchamento. Eu disse que a greve era um absurdo, que era uma ejaculação precoce. A 100 dias da eleição com o Bolsonaro, com todos os cacoetes de que ele iria ganhar, e vocês vão querer dar um golpe, fechar o Congresso e pedir intervenção militar. Eu perdi uns 10 mil seguidores, foi meu primeiro sabor do linchamento de direita.

Um outro episódio, logo em seguida, foi quando lincharam o Caetano Veloso ao chamá-lo de pedófilo. Eu, que sempre fui adversário do Caetano, disse que era um absurdo, ele estava saindo em turnê com os filhos. É uma coisa absolutamente grotesca, fora o fato de ele estar casado. Falar que o Caetano é pedófilo é anacrônico. Naquela época isso não existia. O contexto era outro.

O que você aprendeu apanhando das milícias digitais do Bolsonaro? O que eles fizeram com você?

Foi violentíssimo. Me chamaram de traíra, vira-casaca… Eu perdi 70 mil seguidores. Eu estou pouco ligando. Chegaram a me ameaçar de morte. Como recebi do outro lado, do Lula.

Você acha que, se o Bolsonaro pudesse, ele daria um golpe de Estado?

Claro. Ele já tentou isso em abril ou maio. Quando os filhos dele fizeram passeatas para fechar o Congresso. Dois ou três dias depois falaram que isso era quebra de decoro. Depois eles deram uma retroagida e falaram que [o protesto] era em defesa do Sergio Moro [ministro da Justiça e Segurança Pública].

Eles não têm competência. Eu sempre faço uma metáfora de que essa direita caricata parece uma bacia cheia de piranha, faminta, porque eles vão se comendo. Eles brigam entre si, não conseguem se aliar. Começou essa coisa, primeiro o Olavo, na ânsia de açambarcar o poder psicológico, emocional… O plano é colocar os livros dele no Ministério da Educação para tirar a doutrina da esquerda. Então, ele tem interesses. Ele começou a defenestrar o [vice, Hamilton] Mourão, depois foi com o [general Albertos dos] Santos Cruz [ ex-ministro da Secretaria de Governo], o [general] Villas Bôas [ex-comandante do Exército brasileiro]. Eu falei “chega!” nesse momento. Ali, eles causaram uma cisão nas Forças Armadas. O que é um alívio pra gente porque eles não terão quórum nas Forças Armadas.

Se pegasse os sintomas que o Bolsonaro mostra, sobretudo com Carlos, a partir de uma leitura psicológica, tem uma espécie de paranoia, por exemplo, ele dorme com arma no Palácio da Alvorada. Não tem uma patologia aí?

Não tenha dúvida. O que eu percebi sobre essa patologia tão escancarada: ele tem três mulheres, esses filhos não foram criados por ele, ele tem uma culpa por não ter criado eles, ele começou a ter acesso a eles quando os “comprou” com a candidatura. Ele colocou o filho pra vingar, detonar, a mãe. Eles são muito primários.

E dizem que o Carlos é homossexual. Não tem nada demais, mas tem toda pinta. Eu não estou afirmando nada, mas eu acho plausível, na medida em que ele tem depressão profunda, já tentou se matar várias vezes, e usa isso para manipular o pai. Eu estou deduzindo. Eu sei que ele manipula e chantageia o pai, tem depressão, tenta suicídio. Ele é evidentemente perturbado, tanto ele como Eduardo, o Flavio é apenas um cafajestinho discreto.

Como você interpreta isso do Eduardo Bolsonaro sair com o revólver na cintura?

É o falo sobressalente, é botar o pau na mesa. É uma ostentação por algum vazio que ele tem, de poder, de intelectual… O que deve estar pirando a cabeça do Eduardo é que ele é aquele carioca tosco, a pronúncia de inglês dele é de um surfista de terceira categoria.

Foi um erro estratégico do pai Jair Bolsonaro colocar Eduardo como embaixador em  Washington sabendo que parece que é uma mamata?

Ele [Jair Bolsonaro] está jogando muito pesado. Não acredito que o Bolsonaro seja um maluco. Ele tem um plano. Ele está jogando para o segmento mais bolsonarista, que aplaude ele, e, na cabeça dele, ele está jogando pesado, criando várias inimizades. Os ditadores africanos dos anos 70 faziam exatamente o mesmo, vedavam todo o panorama internacional diplomático e abriam para dois países. Bolsonaro está fazendo isso com os Estados Unidos, com o Trump.

A indicação foi a principio ruim, sim. Deve haver uma situação em que eles estão se fiando, de maneira muito arriscada, porque cabe o Trump ser reeleito pra embaixada dar certo. Em que ele se reelege, o que eu acho que vai acontecer é que eles estão tramando uma invasão na Venezuela. Pro Trump vai ser ótimo porque ali tem a Raposa Serra do Sol, que é o maior pico de jazida de nióbio do mundo.

Ele não tem apoio militar aqui, as Forças Amadas deram uma banana pra ele. Na cabeça dele, ele põe o Eduardo, faz a tabelinha com Trump e o Trump bota as Forças Armadas aqui, bota aquela base aérea em Altamira. É um quadro terrível, mas é plausível.

Você acha que vai acontecer o impeachment do Bolsonaro?

Eu torço e falei que vou lutar pra isso. O Marco Antonio Vila tem um arcabouço de teses que ele tem quebra de decoro. Ele já fez duas explícitas apologias a tortura, no caso do presidente da OAB e no caso do Pinochet. Ele vai pisar cada vez mais na bola. A cúpula do governo são os filhos e o Olavo, o resto é de uma coadjuvância pífia.

Você não se preocupa mais com o PT e o Lula?

Eu quero que o Lula se foda, eu acho ele ridículo, acho que ele fez um mal terrível para o Brasil. Eu acho o Lula Livre um delírio.

Toda a condução político-cultural do PT foi um desastre. Eu era um cara cabeça da cena independente e vi o malefício que isso causou. O fato de eles apoiarem o Maduro é aquela coisa… Toda ditadura não dá certo, é autoritária. Eu pensei que Bolsonaro, nesse sentido, fosse respirar o ar dos liberais que estavam em torno.

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