Duilia de Mello, a mulher das estrelas e galáxias

É difícil olhar para as estrelas e não sentir fascínio – ou assombro – pela vastidão intrigante e ainda pouco explorada que é o Universo. O céu começou a despertar a curiosidade de Duilia de Mello quando ela tinha uns 11 anos de idade. Apaixonada pelo programa “Cosmos”, de Carl Sagan, a menina nascida em Jundiaí e criada no Rio de Janeiro começou a fazer muitas perguntas sobre o espaço, mas nem sempre encontrava as respostas para elas. Por isso, aos 14 anos, fez uma grande decisão: estudaria Astronomia para finalmente “poder saber tudo sobre o Universo”.

Crédito: T. WiklindO interesse de Duilia pela Astronomia despertou cedo

Ela ainda não conseguiu responder todas as questões que gostaria; até porque sempre aparecem novas perguntas. Hoje, aos 53 anos, Duilia é pesquisadora associada do Goddard Space Flight Center, da NASA, e é vice-reitora da Universidade Católica de Washington, Estados Unidos, onde ensina Física e Astronomia. A astrônoma tem mais de 100 artigos publicados e ainda preside a Associação Mulher das Estrelas, que procura ajudar crianças e jovens a descobrirem seus talentos a partir do conhecimento científico. Afinal, essa área costuma ser vista como exclusiva para raros Einsteins – o que não é verdade.

Rumo às estrelas

A própria mãe de Duilia ficou preocupada quando a filha disse que estudaria uma matéria tão pouco conhecida. “Ela sempre dizia para mim e para a minha irmã, em particular, que tínhamos que ser ‘independentes dos homens’”, explica a pesquisadora. Por isso sua mãe quis levá-la até Universidade Federal do Rio de Janeiro para conhecer melhor o curso. E foi lá que a adolescente curiosa teve mais certeza do que nunca de que estava no caminho certo.

A Astronomia é uma área muito acadêmica. Duilia foi bolsista a vida inteira e chegou a estudar nos Estados Unidos e no Chile. Quando voltou ao Brasil, há 20 anos, tentou uma nova bolsa; mas não conseguiu por causa de cortes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Então, tomou coragem para deixar a sua terra natal. “Eu tinha falado para a minha mãe que eu ia viver de Astronomia”, conta, “e o Brasil não me deu essa chance na época”.

Foi uma boa decisão. Duilia encontrou uma oportunidade de pós-doutorado no Hubble, o telescópio espacial mais famoso do mundo. A contratação da NASA e a mudança de país foram tão rápidas que a astrônoma nem teve tempo de digerir que uma nova fase da sua vida estava começando: “Quando cheguei lá, a ficha caiu um pouco. Deu um pouquinho de medo na hora, mas decidi que iria vencê-lo com muita dedicação e esforço”. Foram muitos dias de 18 horas de trabalho. No entanto, hoje ela considera o instituto como sua segunda casa.

Ciência também é lugar de mulher

Apesar de ter sido muito bem recebida na agência espacial americana, Duilia percebeu o machismo mais descaradamente quando saiu do Brasil. Isso porque no exterior encontrou bem menos pesquisadoras. “É maior aquele preconceito de que mulher não é tão inteligente quanto o homem. Isso não fica na cara todos os dias, mas sim em detalhes, em situações que vemos e pensamos: ‘Hum, se eu fosse homem, ele não estaria me falando isso’. Tenho várias amigas que já passaram por assédio e bullying'”, observa.

Para ela, atualmente há mais mulheres em todas as áreas profissionais. Ainda assim, ela aponta que há um longo caminho até a igualdade: “A mulher não chega à liderança. Ela fica ali no meio do caminho”. Inclusive, este foi um dos motivos pelos quais a pesquisadora e professora aceitou se tornar vice-reitora da PUC. “Estou meio cansada dessa história da mulher nunca chegar lá no topo. Então falei: ‘Quer saber de uma coisa? Tá na hora'”, ela diz, rindo. “Vou quebrar esse teto de vidro aí.”

Crédito: T. WiklindPara Duilia, é importante termos mais mulheres chegando à liderança

Descobertas interestelares

Dentre os maiores feitos de Duilia está a descoberta das Bolhas Azuis, que são estrelas que nascem fora das galáxias. Mas o grande “momento eureka” da vida dela aconteceu cerca de uma década antes, em 1997, durante uma viagem que fez ao Chile.

Ela havia ido a um observatório para observar galáxias, seu objeto de estudo. Como já era experiente, podia operar o telescópio sozinha. No meio de uma noite, conferindo os mapas das galáxias, reparou que uma das regiões que estava observando no céu parecia ter uma estrela a mais. “Fiquei com a pulga atrás da orelha”. Aquela menina supercuriosa, que havia decidido estudar Astronomia porque fazia muitas perguntas, despertou novamente.

Enquanto o espectro não saía, Duilia comeu um misto-quente com o marido, que era seu namorado na época. Alguns minutos depois, o resultado se comprovou: ela havia encontrado uma supernova, a 1997D. “Nunca pensei que fosse descobrir nada”, confessa. “Essa era uma época da vida de pós-doc… Você ainda está tentando achar o rumo. Apesar de ter vários artigos publicados, você ainda está tentando se estabelecer. Então isso foi bem legal, porque me ajudou a ver um lado da Astronomia que eu estava esquecendo, que é o da descoberta, da conquista. Foi uma injeção de ânimo.”

Imagem da SN 1997D, a supernova descoberta por Duilia em 1997

O próximo desafio da astrônoma será usar o James Webb, o novo telescópio espacial que a NASA pretende lançar em 2018. Isso é algo que a deixa ansiosa. “Estou botando a cachola para pensar muito sobre o que fazer com ele… Tenho várias ideias. Mas quero fazer um negócio diferente, algo bem interessante.”

De volta à Terra

A rotina de Duilia costuma ser bem cheia. Especialmente porque além de ser pesquisadora, ela também é professora. Entre aulas, projetos de pesquisa, gráficos, estatísticas e artigos científicos, ela encontra tempo para fazer palestras e entrar de cabeça em outros projetos. Ah, e percorre o mundo todo. Até brinca: “Gosta de viajar? Ser cientista é bom. A gente viaja geralmente com tudo pago e conhece o mundo inteiro. A Astronomia é muito internacional”.

Já no seu tempo livre, Duilia troca as lentes dos telescópios pela objetiva da câmera fotográfica: tirar fotos aéreas da Terra é um de seus hobbies. Além disso, ela também é uma caçadora de fósseis. “Sou astrônoma e paleontóloga amadora”, se diverte. É que nos Estados Unidos, onde ela mora, a regulamentação permite que as pessoas colecionem objetos que não sejam raros. “Tenho vários fósseis. Vários, não; milhares. Dente de tubarão, baleia, mastodonte, mamute, golfinho, tartarugas… Muitas tartarugas.”

Como fã de ficção científica, a astrônoma também está sempre de olho nos lançamentos do cinema que têm a ver com o espaço. Dos novos filmes, “Perdido em Marte” é o seu favorito: “absolutamente fantástico”. “Interestelar” também foi aprovado: “Eles conseguiram fazer a gente visualizar certas coisas que tinha só em teoria”. Já de “Gravidade” ela não gosta. “Tem muito erro. Fico irritada com certas coisas, não dá.”

Filmes como esses e a divulgação que a NASA faz nas redes sociais de suas descobertas acabam inspirando mais pessoas a olharem para o espaço e fazerem perguntas – assim como a própria Duilia faz desde sua infância. Uma questão recorrente é: será que algum dia sairemos da Terra?

“Acho que é uma fase pela qual estamos passando. Você fica com esse desejo de mudar o lugar onde você mora, a sua Terra não está mais suficiente para a gente”, reflete. Mas logo adiciona: “Não dá, não! Minha gente, temos que cuidar da Terra, não tem jeito”. E dá risada.

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