Entenda por que familiares querem processar a Netflix por série da Boate Kiss

A série "Todo Dia a Mesma Noite" foi lançada em 25 de janeiro, na semana em que o incêndio completou 10 anos

Série da Netflix sobre a tragédia na Boate Kiss estreou em 25 de janeiro
Créditos: Guilherme Leporace/Netflix
Série da Netflix sobre a tragédia na Boate Kiss estreou em 25 de janeiro

Um grupo formado por cerca de 40 famílias de vítimas do incêndio na Boate Kiss planeja processar a Netflix após o lançamento de “Todo Dia a Mesma Noite”, série que mistura fatos reais e ficção para retratar o acontecimento.

A tragédia, que completou 10 anos na sexta-feira, 27, matou 242 pessoas e deixou outras 636 feridas em Santa Maria (RS), em janeiro de 2013.

Os familiares contrataram a advogada Juliane Muller Korbm para dar andamento ao caso. De acordo com a profissional, eles se queixam da exploração comercial da tragédia pela plataforma de streaming, “que sequer teve a sensibilidade de informá-los que uma série dramática seria produzida”.

A produção, que é baseada no livro escrito pela jornalista Daniela Arbex, estreou no dia 25 de janeiro na Netflix.

Por que as famílias querem processar a Netflix?

O coordenador do grupo, Eriton Luiz Tonetto Lopes, afirma que a plataforma não recebeu autorização dessas 40 famílias para dramatizar as histórias. O empresário perdeu a filha de 19 anos na tragédia na Boate Kiss.

“Nós fomos pegos de surpresa, ninguém nos avisou, ninguém nos pediu permissão. Nós queremos saber quem está lucrando com isso. Não admitimos que ninguém ganhe dinheiro em cima da nossa dor e das mortes dos nossos filhos”, declarou Eriton em entrevista ao jornal GaúchaZH.

Ainda segundo ele, alguns pais estão passando mal depois de assistir a série: “Queremos entender quem autorizou, quem foi avisado, porque muitos de nós não fomos. Há pais passando mal por causa da série. O mínimo que exigimos agora é que uma parte do lucro seja repassada para tratamento de sobreviventes e para a construção do memorial da Kiss. Nós não queremos nenhum dinheiro para nós”, acrescentou Lopes.

Série da Netflix mistura realidade e ficção para retratar o acontecimento
Créditos: Guilherme Leporace/Netflix
Série da Netflix mistura realidade e ficção para retratar o acontecimento

A advogada mencionou que os familiares das vítimas estão “acostumados” com reportagens e documentários jornalísticos sobre a tragédia, mas que a série da Netflix pegou todos de surpresa.

“A série é diferente. O impacto foi muito forte porque é uma simulação, uma reprodução, com rostos diferentes, com atores. Eles estão acostumados com o pós-tragédia. E a série mostra o antes, então, é como se ocorresse de novo. É uma linha muito tênue entre ficção e realidade”, pontuou ela.

Juliane ressaltou também que, antes da formalização de uma ação judicial, pretende dialogar com a Netflix para negociar a doação de parte dos lucros para as vítimas, os sobreviventes e à construção de um memorial: “O pedido para a Netflix é de algumas adequações de exposição, especialmente do trailer, e que a série não seja só explorada comercialmente. Precisamos tratar da responsabilidade social sobre a dor desses pais. A que custo uma plataforma de streaming pode lucrar em cima de uma tragédia como essa?”, explicou Juliane.

AVTSM disse que não tem nenhuma relação com o processo

Após a repercussão do caso, a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) informou que não tem relação com o grupo representado pela advogada Juliane Muller Korb.

Em nota, a Associação informou que estava ciente de que a produção estava sendo realizada com base nos personagens do livro “Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss”, de Daniela Arbex. Veja: