Entregador é vítima de racismo: ‘Esse preto não vai entrar no prédio’

"Mandar outro motoboy que seja branco”, escreveu a cliente. O caso foi denunciado à polícia pela vítima e pela gerente da Hamburgueria

Por: Redação
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A hamburgueria Ham Burger, em Goiânia (GO), denunciou nas redes sociais, o caso de racismo em que uma cliente teria proibido a entrada do entregador Elson Oliveira Santos, em um condomínio de luxo, onde ela mora, por ele ser negro.  A mulher ainda teria mandado diversas mensagens racistas, por meio do aplicativo de entregas: “Eu não vou permitir esse macaco”.

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Crédito: Reprodução/InstagramEntregador é vítima de racismo: ‘Esse preto não vai entrar no prédio’

O caso aconteceu no domingo, 25. Na ocasião, a cliente, que não teve o nome divulgado, precisou enviar uma mensagem para informar a quadra e o lote exatos, pois o endereço não estava completo. Na sequência, a gerente do estabelecimento solicitou que a mulher liberasse a entrada do entregador no condomínio. No entanto, ela se recusou.

“Esse preto não vai entrar no meu condomínio. Mandar outro motoboy que seja branco”, escreveu a cliente.

Em seguida, a gerente negou o pedido da mulher e disse que não iria tolerar racismo na empresa. Ao final, a moradora do condomínio ainda chamou o entregador de macaco e escreveu mais uma mensagem: “adeus. Não uso restaurante judaico”, finalizou a cliente.

“Entramos em contato com o cliente via chat e as ofensas ocorreram por lá mesmo. Onde o cliente disse que não aceitaria um “macaco” entregar o pedido dele e exigiu um entregador branco. Nesse momento cancelamos o pedido do racista e falamos para o Elson retornar para a loja e contamos o motivo pra ele”, afirmou Éder Leandro Rocha, dono da hamburgueria Ham Burger à Catraca Livre.

O Boletim de Ocorrência sobre o crime já foi registrado pela gerente da loja e pelo entregador, afirmou Éder afirmou à Catraca Livre. A polícia irá investigar o caso para saber se a autoria das mensagens foi realmente da moradora do condomínio.

A gerente, irmã de Éder, Ana Carolina Borges, publicou prints da conversa em seu perfil no Twitter e relatou o caso. “Como vocês sabem, eu gerencio a hamburgueria do meu irmão. ontem, no final da noite, tivemos um pedido no aldeia do vale e quando o entregador estava chegando lá, pedi para que ela liberasse a portaria para que ele pudesse entrar. tive essas palavras como resposta”, escreveu a jovem.

Ana Carolina não acreditou de cara que estava diante de um crime de racismo. “No começo, durante uns 15s, pensei que era mentira ou algum tipo de teste com o restaurante, uma vez que me recusei à acreditar que eu realmente havia lido isso. Me veio na cabeça mil xingamentos, mas como representante do estabelecimento, tive que responder com educação”, afirmou a jovem.

Ainda segundo a gerente, “como o entregador não teve nenhum tipo de contato com ela [cliente], eu acredito que ela tenha ligado na portaria pra perguntar se ele havia chegado e aí ficou sabendo sobre a cor dele, até porque a casa dela não fica na entrada e não dava pra ela saber como era o entregador”.

“Me indigna o fato de que isso realmente aconteceu. não divulguei nenhuma informação da pessoa porque não quero ser processada por difamação, até porque vou na polícia amanhã denunciar esse crime de ódio. gravei tudo e está tudo no meu acervo pessoal. Espero que essa criminosa não saia impune, isso é CRIME!”, disse a gerente.

“Nunca tinha passado por isso antes. no momento, eu estava em ligação com o entregador, porque precisava passar as informações da quadra e do lote para que ele pudesse localizar e ele, percebendo que eu tinha me calado, perguntou o que havia acontecido. eu, ali, parada e atônita, tive que contar pelo telefone que um crime de ódio tinha sido cometido contra ele, devido à cor de sua pele. a pessoa finalizou o chat dizendo que não compra em restaurante judaico”, afirmou Ana Carolina.

Após a repercussão do caso, a hambrugueria divulgou um vídeo do entregador agradecendo o apoio que vem recebendo.

Em nota enviada à Catraca Livre, o Residencial Aldeia do Vale, em Goiânia, afirma que a mulher não é “morador do residencial, visitante ou frequentador daquele condomínio” e que entregou na última quarta-feira, 28, à Delegacia Estadual de Crimes Cibernéticos (DERCC) as respostas ao ofício que fora direcionado ao condomínio.

“O nome da pessoa suspeita, identificado pela DERCC não está dentro do cadastro de moradores, visitantes, prestadores de serviço ou frequentadores do condomínio, bem como o CPF informado pela delegacia”.

A nota diz ainda que “ainda em resposta ao ofício, o endereço do suposto autor não é um endereço válido de uma das casas do residencial, pois a identificação das unidades habitacionais são feitas por quadra e lote e não número, conforme registro de imóvel. A administração do residencial se colocou à disposição para entregar imagens das câmeras de segurança da portaria durante o período que foi cometido o crime, e também as gravações realizadas entre portaria e morador, no sentido de autorizar que terceiros entrem no condomínio.

Racismo é crime. Denuncie!

Cenas como essa que acabamos de ver ainda é muito comum no Brasil, infelizmente. Uma forma de conter o avanço do racismo no Brasil é sempre denunciar o agressor. Afinal, racismo é crime previsto pela Lei 7.716/89.

A denúncia pode ser feita tanto pela internet, quanto em delegacias comuns e nas que prestam serviços direcionados a crimes raciais, como as Delegacias de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), que funcionam em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Veja aqui como denunciar casos de racismo.