‘A gente leva amor aos moradores de rua’, diz diretor de ONG

Desde 2013, o projeto "Meias do Bem" já entregou 15 mil cobertores feitos a partir de 600 mil pares de meias a moradores de rua de São Paulo

Por: Heloisa Aun | Comunicar erro

Quando as lojas e os escritórios fecham as portas, por volta das 18h, o centro de São Paulo começa a ser tomado por centenas de pessoas em busca de espaço para dormir. Ao anoitecer, os moradores em situação de rua chegam com seus pertences – carroças, cobertores e papelões para forrar o chão – e ocupam parte das calçadas da região.

Voluntária entrega cobertor a morador de rua no centro de São Paulo

A rotina se repete durante todo o ano, mas é ainda mais complicada com a chegada do inverno na capital paulista, o que coloca esse grupo em situação de risco por causa das baixas temperaturas.

Os estados de atenção e alerta nesses casos são decretados pela Defesa Civil com base nos dados meteorológicos do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) – o primeiro quando a sensação térmica em São Paulo oscila entre 10°C e 13°C e o segundo quando a sensação é inferior a 10°C.

“Eu já passei por uma dificuldade no inverno que marcou a minha vida. Um dia dormi em um parque em Carapicuíba e tive que derrubar duas tábuas do campo para poder fazer uma fogueira e me sustentar do frio. Foi a parte que mais doeu em mim”, relata o morador de rua Hugo Adriano, de 34 anos, ao Catraca Livre.

Foi com a missão de resgatar a autoestima das pessoas em situação de rua e para possibilitar sua reinserção social que surgiu a ONG Anjos da Noite em 1989. De acordo com Kaká Ferreira, presidente da instituição, os voluntários utilizam o alimento e as doações de roupas para poder chegar até eles e estabelecer um diálogo. “Mas a gente leva muito mais do que isso. A gente leva amor.”

Todos os sábados, a instituição atende, em média, 800 pessoas. “Por incrível pareça, a coisa que eles mais pedem na rua é água. Onde você acha uma torneira para beber água na cidade? Em lugar nenhum”, conta Ferreira. “A alegria com que eles nos recebem, a serenidade e o senso de gratidão é uma lição de vida para todos nós.”

Em todos esses anos de trabalho, o presidente da ONG afirma que aprendeu que ninguém é melhor do que ninguém, e que as pessoas não são aquela condição, elas estão naquela condição. “Fale um bom dia para um morador de rua quando ele vier perto de você. Faça ele se sentir ouvido. Às vezes ele só quer isso”, finaliza.

‘Meias do Bem’

Um dos projetos com que o Anjos da Noite tem parceria é o Meias do Bem, criado em 2013. A iniciativa sustentável transforma meias usadas em cobertores para aquecer as pessoas que mais precisam durante os meses mais frios do ano. “A galera que distribui os cobertores para nós é uma bênção”, diz o morador de rua Hugo Adriano.

Desde o início da ação, já foram mais de 600 mil pares de meias usadas coletadas – cerca de 15 toneladas –, que foram reciclados e transformados em 15 mil cobertores, entregues em conjunto com outros 15 mil pares de meias novos. O projeto conta com o apoio de 129 ONGs, que atuam na distribuição do material.

A contribuição do Meias do Bem vai muito além de ajudar o próximo: também é benéfica para a sociedade. Cada par de meias reciclado economiza cerca de 75 litros de água e 66 BTU’s de energia, evitando o uso de 45 milhões de litros de água e 39,6 milhões de BTU’s.

Veja como ajudar aqui.

Assista à reportagem abaixo:

Moradores de rua

De acordo com o último censo divulgado pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), de 2015, a capital paulista tem 15.905 pessoas vivendo na rua, sendo 8.570 nos centros de acolhimento e 7.335 em vias e espaços públicos.

Ao Catraca Livre, a gestão Bruno Covas informou que, desde o dia 17 de maio, a prefeitura intensificou o atendimento à população em situação de rua com o início do “Plano de Contingência para Situações de Baixas Temperaturas – 2018”. A ação segue até 30 de setembro e será reforçada sempre que a temperatura atingir o patamar igual ou inferior a 13º, ou sensação térmica equivalente.

Inicialmente, dois abrigos emergenciais serão abertos, um na região central, com 100 vagas, e outro na Lapa, com 80 vagas. “Essas vagas serão somadas às outras mais de 14 mil já existentes nos Centros de Acolhimento. A rede também conta com 135 Serviços de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (SAICAs), que juntas disponibilizam 2.570 vagas”, diz a gestão.

  • Confira abaixo ONGs e projetos que atuam com moradores de rua e faça a sua colaboração com roupas, cobertores e itens de higiene:

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Autor: Heloisa Aun

Feminista, vegetariana e repórter de Cidadania no Catraca Livre. ("nossas costas / contam histórias / que a lombada / de nenhum livro / pode carregar" - Rupi Kaur)

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