Idoso reencontra família após se tornar cadeirante e morar na rua

Oílio precisou superar a saudade dos irmãos e lutar contra a discriminação, até que uma instituição lhe deu novas perspectivas de vida

Por: Luciana Reis

Cara Norma,

Eu tenho muita vontade de rever minha família, já faz 15 anos que não vejo ninguém. Infelizmente, a gente não prevê o futuro. Sou ex-morador de rua, passei frio, discriminação… Minha vida foi muito difícil. Sendo você assistente social, acredito que tenha meios para me ajudar. Nesta carta, conto detalhes para que, com essas informações, você consiga me ajudar na busca dos meus irmãos. Se quiser, pode até enviar esta carta para um deles. Como são mais de 70 anos de história, separei em partes, pra ficar mais fácil de entender.

Minha infância

Você sabe, sou do interior de São Paulo, de Botucatu. Nasci no dia 7 de novembro de 1947, estou caminhando para 71 anos. Eu perdi meu pai logo cedo, ele não tinha 50 anos e teve um infarto fulminante. Foi um pesadelo pra toda a família. Lembro como se fosse hoje da minha mãe falando pros meus irmãos e pra mim: “Oílio, vocês têm que estudar e procurar um jeito de trabalhar para ajudar a sustentar a gente aqui. O papai morreu, né?”.

Com 8 anos de idade, eu já tava engraxando sapato. Eu queria jogar bola na rua, brincar, mas tinha que trabalhar. Foi uma fase difícil. Trabalhei de engraxate, tintureiro e servente de pedreiro, que é um serviço pesado. Estudei até o quinto ano. Eu cheguei até a fazer o curso de Madureza [educação de jovens e adultos], mas era muito cansativo, eu estudava de noite e trabalhava de dia. Aí eu parei com o estudo. A gente cresce e vai vendo a vida como é difícil, né?

O acidente

Infelizmente, em 2001, a minha mãe faleceu. Depois disso, fui trabalhar de caseiro num sítio. Fiquei contente de trabalhar sozinho, é gostoso, a gente fica mais à vontade. Eu estava lá tinha um ano e pouco e sempre trabalhava de bota, mas, nesse dia, acho que já era predestinado pra acontecer, eu tava de chinelo de dedo. Joguei a enxada debaixo do pé de café e, quando eu trouxe a enxada com o mato, veio a cascavel. Ela me picou. Voltei pra casa, peguei o celular que meu patrão deixou pra mim e liguei pra ele. Quando chegou, ele me levou para o hospital. Eu escutei o médico falar pro meu patrão: “Olha, vou dar duas semanas de vida pra ele”. Eu nunca passei por uma prova tão grande na minha vida.

Eles deram uma anestesia e cortaram um dedo meu, no quarto mesmo, porque a UTI estava ocupada. Passou uma semana, aí começou a ficar escura a minha perna. O médico disse que meu estado era grave, e eu fui parar no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Fiquei três dias no hospital, minha perna cheirava mal e me explicaram que precisavam amputá-la.

“Eu era tão contente com a minha vida e mudei pra uma pessoa triste”

Eu me lembro muito bem, faltava dez pra meia-noite e chegou uma equipe médica pra fazer a cirurgia. Eu tava tranquilo, mas, quando acordei, a primeira coisa que eu falei foi: “Meu Deus do céu, eu perdi minha perna. Pronto, agora eu não vou conseguir andar mais!” Pensei na minha família… Nem mãe eu tinha mais.

Passou um dia, o médico falou: “Seu Oílio, o senhor já tá de alta, tem pra onde ir?”. Disse que não tinha. Não queria ir pra casa dos meus irmãos porque não queria atrapalhar ninguém. A assistente social veio conversar comigo: “O senhor não vai pra rua, vou arrumar um lugar”. Ela ligou pra meio mundo. Fui pra Toca de Assis, em Cotia e lá eles me deram uma cadeira de rodas. Todo dia eles faziam curativo e uma vez por mês me levavam ao Hospital das Clínicas. Foram sete meses fazendo tratamento.

Eu era tão contente com a minha vida e mudei pra uma pessoa triste… Fiquei revoltado porque perdi a perna, ficava me perguntando por que aquilo tinha acontecido comigo. Veio tanta coisa na minha cabeça… Me deu vontade de fazer loucura, eu pensei até em suicídio. Quando o médico do Hospital das Clínicas me deu alta, eu fiquei mais uma semana na Toca de Assis, onde apesar de todo tratamento, era um lugar complicado pra viver e tomei uma decisão: fui morar na rua.

ex-morador de rua
Depois de perder a perna num acidente e dormir na rua, Oílio sofreu preconceito e discriminação

A rua

Morei ali no bairro de Pinheiros, sabe, Norma? Dormi na rua, passei frio, sofri discriminação. Fui depois pra Barra Funda e fiquei dormindo na rua e vendendo coisas. Eu comprava caneta e vendia quando tinha prova lá. Eu dormia dentro do terminal, no estacionamento de ônibus mesmo. Não queria pedir dinheiro pra ninguém.

Como não tinha muita prática na cadeira, naquelas rampas da Barra Funda, perdi o controle e tive uma queda. Nessa queda, quebrei o fêmur. Um motorista de táxi e duas senhoras ligaram pro resgate. Como eu era morador de rua e não tinha documento, fui ao pronto-socorro lá da Barra Funda e me fizeram o maior pouco-caso. A perna começou a ficar dura. Fiquei muito aborrecido: além de perder uma perna, a outra estava quebrada.

Uma mulher então me deu apoio e comprou um carrinho pra eu vender o que quisesse. Foi ótimo! Vendia bala, água. Eu tinha dinheiro pra comer e beber. Até que roubaram tudo o que era meu. Por sorte, de novo, tinha um casal que vendia cachorro-quente por lá e que queria o bem pra mim. O rapaz me levou pra casa deles, no Campo Limpo, um bairro simples. A mãe dele morava ao lado, e os irmãos iam levar comida pra mim. Eu fiquei sozinho na casa, tiveram muita confiança em mim. Depois de dois dias, o rapaz chegou do serviço e falou que tinha arrumado um lugar pra eu ficar. Ele me levou de carro pro Resgate Vida e antes passou no shopping, comprou umas roupas pra mim: calça, camisa, roupa íntima e tal. Eu sei até o dia que eu cheguei lá: 13 de maio de 2010. Era transitório. Por causa da perna, eu fui pra uma instituição com mais estrutura e que você conhece bem, Norma, o Grupo Vida.

O Grupo Vida

Cheguei aqui dia 26 de julho de 2010. A vida melhorou, fiz amizades, passei por avaliação médica, psicológica. Participo de tudo: dança sênior, terapia ocupacional, reunião de morador, palestra de prevenção de quedas. Tem atividade em grupo e individual. Faço parte do Conselho de Idoso e da Comissão contra Violação do Direito do Idoso.

A gente já foi passear em vários lugares: Aparecida, zoológico… Como você bem sabe, Norma, pagam o ônibus e lá a gente tem que ter o dinheiro para se alimentar. Quando eu não tinha dinheiro, o Grupo Vida pagava tudo. Aí eu comecei a me preocupar porque eu gostava de trabalhar, não sei ficar paradão.

Foi quando fiz o curso de informática, peguei o diploma, o básico, né? Nessa época, a dona Neuma me falou: “Eu sei que o senhor gosta de trabalhar, vou levar o senhor lá na sede. O senhor conversa bem, pegou o diploma de informática e de telefonia, vai trabalhar na recepção pra se aprimorar mais”. Eu só fiquei pensando nisso que a diretora de assistência social me disse, mal dormi naquela noite. Eu nunca tinha mexido com telefone. A gente passa por tantos desafios na vida da gente… Que a gente não tá preparado. Mas eu me dei bem, fiquei um tempão lá.

Me aposentei por idade. Fiquei contente, né? Um dia estava fazendo atividade aqui e me falaram: “Sr. Oílio vamos amanhã lá no INSS que o dinheiro do senhor tá liberado, o senhor vai receber”. Foi tanta alegria que até esqueci o problema da perna. E estou aposentado até hoje.

A gente tem tudo aqui, tem nutricionista, cada idoso tem uma alimentação diferente. Os funcionários são bons, tem o turno da enfermagem que trabalha 24 horas. Conheci várias pessoas que me deram apoio, eu agradeço todo mundo: a Madalena, a Beatriz, a dona Silvia, a dona Neuma, a Rosângela, a Dariane, você, Norma.

E deixei o melhor pro final: no meu aniversário de 2014, conheci uma mulher especial. A gente conversou direitinho, saiu e estou até hoje com ela. A Alice mudou a minha vida. Ela vem aqui me visitar e, depois de tanta coisa, posso dizer: eu tô muito feliz.

Crédito: Arquivo Grupo Vida BrasilNeste ano, foi só festa na vida do Sr. Oílio: ele celebrou o Carnaval e a Festa Junina ao lado da namorada, Alice

Oílio é um dos moradores do Grupo Vida Residência Acolhimento Institucional para Idosos que atende 22 idosas e 20 idosos em Barueri (SP). Quando chegou, Oílio tinha perdido todos os dentes, o fêmur estava quebrado e não tinha documentos. Ele é um exemplo de como uma instituição é capaz de transformar a vida de um homem e dar a ele uma nova perspectiva de vida. Desde 1997, Grupo Vida Brasil, o entidade sem fins lucrativos, oferece moradia, alimentação, atendimento médico e atividades para pessoas a partir de 60 anos de idade.

Assista ao vídeo e saiba mais sobre a ampla atuação da instituição: 

Com a ajuda do Grupo Vida Brasil, Oílio Rodrigues Barbosa reencontrou seus irmãos após tantos anos. Ele e a namorada, Alice, foram de ônibus até Botucatu, e o reencontro foi emocionante. Os irmãos achavam que ele estava morto e não acreditaram quando o viram bem e feliz.

Além dos cuidados diários, com os recursos recebidos de algumas iniciativas, os idosos são beneficiados de diversas formas. Em maio, por exemplo, uma das moradoras falou que gostaria de tomar um café no shopping, como presente de Dia das Mães. Ao chegar lá, ela e outras idosas choraram de tão emocionadas. Além disso, os idosos realizaram outras atividades sem custo, como um passeio ao Parque Maeda, um Ciclo de Orientação a Familiares e Cuidadores de Idosos e até uma visita ao Teatro Municipal. 

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Por: Luciana Reis

Devoradora de livros, formada em Letras pela USP, viajante, curiosa, curadora de histórias inspiradoras e editora do Economize. Para viver bem, não é preciso gastar tanto.

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