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‘A lama fez uma pneumonia em mim’, diz Dona Geralda, de 79 anos

Nascida e criada em Gesteira, Mariana (MG), Maria Geralda Bento sofre as consequências da tragédia até hoje

Por: Heloisa Aun | Comunicar erro

A geladeira de Dona Geralda já estava cheia de carne para a ceia de Natal quando, no dia 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão (Samarco) destruiu a sua casa e todo o distrito de Gesteira, em Mariana (MG), onde vivia ao lado de parte da família.

A senhora de 79 anos e os demais moradores foram salvos por sua filha e a neta, que se dirigiram até o local para avisar o que havia ocorrido. O pequeno distrito mineiro teve suas nove casas, a escola, a Igreja e o mercadinho completamente devastados pela lama poucas horas depois da barragem ter rompido.

O desastre levou tudo o que Maria Geralda Bento tinha: móveis, fotos, roupas, animais, plantações e toda as memórias de uma vida. “A lama veio e pegou a gente de surpresa. Meu porquinho morreu, meus cachorros, meus gatos morreram tudo. Se não fosse a minha família, a gente ia ter morrido afogado”, conta.

Dona Geralda perdeu a casa, móveis, animais e toda a história de uma vida em Gesteira
Dona Geralda perdeu a casa, móveis, animais e toda a história de uma vida em Gesteira

Para além da perda material, a tragédia fragilizou a saúde de Dona Geralda. Ela não consegue comer e nem dormir direito. “Eu tô muito sem saúde. Eu peço a Deus que me ajude, que me dê a minha casinha. A lama fez uma pneumonia muito forte em mim, eu tô em tratamento. É difícil, é triste dentro do coração da gente. Um ano, e nada”, relata.

Nascida em Gesteira, a mineira criou os 8 filhos, 17 netos e 12 bisnetos com muito esforço e luta, trabalhando na roça todos os dias. Hoje, Geralda vive em uma casa de aluguel paga pela Samarco, localizada em Barra Longa, distrito em Mariana. No entanto, de acordo com a ex-moradora, a empresa não cumpre com os gastos há três meses e ela corre riscos de ser despejada.

Saiba mais sobre a história de Dona Geralda no vídeo abaixo:

E a ‘nova’ Gesteira?

O distrito está à espera da reconstrução das casas em uma nova área escolhida em votação pelas famílias que viviam lá. Por enquanto, os ex-residentes da região moram em cidades próximas nas casas alugadas pela empresa e tentam, aos poucos, restabelecer o cotidiano.

A promessa da Fundação Renova – criada pela Samarco, Vale e BHP Billiton para a condução dos programas de recuperação nas áreas impactadas pelo desastre – é que a “nova” Gesteira seja construída até o final de 2017.

Procurada pelo Catraca Livre, a Fundação Renova disse, em nota, que “as oito famílias de Gesteira elegeram, com 95% dos votos (52 no total), a área denominada de ‘Macacos’, que possui um terreno com 7 hectares e está localizado próximo à quadra central do distrito, atendendo ao pedido da comunidade”.

Segundo a empresa, o processo e os critérios para a votação foram definidos em conjunto com os moradores e representantes do Ministério Público. “O projeto urbanístico de Gesteira está em fase de esboço. A obra será entregue em dezembro de 2017”, completa a nota.

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Autor: Heloisa Aun

Feminista, vegetariana e repórter de Cidadania no Catraca Livre. ("nossas costas / contam histórias / que a lombada / de nenhum livro / pode carregar" - Rupi Kaur)