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A poeta indígena que luta pelos direitos da mulher nas aldeias

"Nós somos povo, temos voz e lutamos por resistência", afirma a escritora Márcia Wayna Kambeba, de 38 anos

Por: Heloisa Aun

Identidade dos povos indígenas, territorialidade e a questão da mulher nas aldeias são os principais temas abordados pela poeta Márcia Wayna Kambeba, da etnia Omágua Kambeba, em sua luta na literatura e na música.

Nascida em 1979 na aldeia Belém dos Solimões, pertencente ao povo Tikuna, no Alto Solimões (Amazonas), a escritora viveu na região até os oito anos de idade. “Eu nasci de parto difícil e fiquei muito doente durante a infância. Peguei pneumonia forte e quase morri, mas fui curada pelas indígenas”, conta.

A geógrafa Márcia Kambeba escreve sobre a identidade dos povos indígenas
Crédito: PicasaA geógrafa Márcia Kambeba escreve sobre a identidade dos povos indígenas

Sua avó era professora e também poeta, o que influenciou Márcia a começar a criar seus versos logo aos 14 anos. Em 1987, ao lado dos pais, ela deixou a comunidade indígena e mudou-se para São Paulo de Olivença, também no Amazonas, que antes foi uma grande aldeia do povo Kambeba. Lá, estudou até o Ensino Médio.

Então, a escritora foi morar em Tabatinga, município do Alto Solimões, para cursar a graduação em Geografia na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Após se casar, ela fez especialização em Educação Ambiental em uma faculdade particular e, em 2010, entrou para o mestrado na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus.

Ir pra beira tomar banho,
Pegar cará e mandí,
Ver o sol se esconder
E esperar a lua se vestir

(“Educação Indígena”)

Em 2012, quando já estava morando no Pará, Márcia terminou seu mestrado. Atualmente, a poeta, compositora, cantora e mestra em Geografia reside em Belém (PA), e tem investido na carreira artística. Já no ano que vem, ela pretende submeter seus projetos de doutorado em Educação, com foco na educação escolar indígena.

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Em entrevista ao Catraca Livre, Márcia Kambeba reflete sobre os desafios de seu povo, as violências sofridas pela mulher nas aldeias e os preconceitos vividos pelos indígenas no Brasil ainda hoje.

Catraca Livre – Quais dificuldades você enfrentou para entrar na universidade?

Márcia Wayna Kambeba – Na época da minha graduação, eu concorri de igual para igual e não usei cotas. Eu nunca tive tantas dificuldades, a não ser aquelas da vida mesmo. Às vezes eu tomava café da manhã e não almoçava para comprar a minha apostila e estudar.

Mesmo após casada, eu e meu marido enfrentamos problemas financeiros. A gente ficava sem comer para poder comprar o meu material escolar. Quando consegui um emprego como radialista, profissão que segui por 10 anos, estudava pela manhã e trabalhava à tarde e à noite. Assim, conseguia pagar, junto com ele, o apartamento que morávamos e as contas da casa.

O meu marido é mecânico até hoje e assim a gente foi levando. Depois, a vida melhorou aos poucos, eu tive o meu primeiro computador e concluí a graduação sempre com notas altas, não me permitia tirar menos que 10 ou 9.

No mestrado, posso dizer que sofri certo preconceito, mas não sentia tanto isso em mim. Pelo contrário: eu fui muito procurada por outros indígenas porque os professores me recomendavam como referência a eles. A união dos povos se consolida dessa forma.

Qual a importância da universidade na vida do indígena?

A universidade na vida do indígena é fundamental. Nós não lutamos mais com arco e flecha. Nosso povo faz da educação, da leitura e da escrita as suas maiores armas porque, se eu tenho um conhecimento que é milenar, a universidade vai me ajudar a trabalhar isso em prol de uma coletividade.

Atualmente, nós temos indígenas na medicina, no direito, na arquitetura, na educação e em vários segmentos da educação ou das áreas de conhecimento, que estão trabalhando projetos e estratégias para a melhoria de sua nação e do seu povo.

É importante que o indígena que entre na universidade compreenda que ele tem que dar um retorno para o seu povo. A luta maior não é de quem está na cidade, mas de quem permanece na aldeia lutando contra as invasões e o desmatamento. E a educação chega para nos dar esse apoio.

Mesmo assim, a primeira sala de aula é a aldeia. É lá que a gente vai aprender o respeito com os mais velhos, a saber o nome de cada árvore e a conhecer a natureza.

Saindo da escola da minha aldeia eu posso entrar na escola do “branco” e dizer: agora eu sou capacitada para estar aqui e aprimorar meus conhecimentos para, depois, levá-los de volta para a aldeia. Nós trabalhamos dentro das articulações, por isso que somos povos ligados em todo o país.

Como surgiu o seu interesse pela música e a poesia?

O meu interesse pela música e poesia começou aos 14 anos. Nesta idade, eu já escrevia poesias sobre diversos temas, mas ainda não direcionadas a um público específico.

Comecei a escrever as poesias sobre direitos indígenas depois que defendi o mestrado. Minha dissertação falava de identidade e território do povo Omágua Kambeba. O trabalho recebeu a nota 10 de toda a banca examinadora e foi tido como documento do meu povo. Nela, eu trabalhei toda a parte histórica, desde o século XVI até o XXI, e falei sobre diversos teóricos.

Então, tive a ideia de transformar a dissertação em poesias. Foi aí que surgiu o poema “Ser indígena, ser Omágua”, que fala da afirmação de ser indígena; e o “União dos povos”, que reflete sobre os indígenas que vivem na cidade e não perdem a essência de sua ancestralidade.

Isso gerou o primeiro livro que eu escrevi, o “Ay kakyri Tama”, que significa “Eu moro na cidade”. O nome do livro também é de um poema meu, que virou uma música e, agora, é um grande projeto artístico e cultural.

Venho escrevendo poesias, textos críticos e resenhas sobre a mulher indígena e suas lutas, a indígena na universidade e qual a importância da mulher dentro de uma aldeia. Eu também falo muito sobre território. Hoje, a minha luta se dá tanto física, na frente do movimento, como através das artes.

Além de escritora, eu sou compositora e vou lançar um clipe nesta quarta-feira, 19 de abril, Dia do Índio, totalmente na língua Kambeba-Tupi. Também sou fotógrafa, tenho uma exposição fotográfica que conta a resistência e a luta do povo Kambeba.

Qual a principal luta de seu povo Omágua Kambeba? E das demais aldeias?

Em certo momento, o povo Kambeba foi dado como extinto por alguns pesquisadores, mas ele apenas se refugiou.

A princípio, os indígenas desse povo negaram sua identidade para, depois, quando o tempo ficou propício, voltarem e reafirmarem sua luta, que é ancestral. O território não é só físico, também está na memória daqueles que o vivenciaram.

Assim são os povos indígenas de modo geral: eles fazem pequenas migrações, dependendo de suas necessidades. Nesses locais, eles vivem suas diferentes territorialidades.

Até hoje, é natural do indígena conservar o lugar em que vive para evitar o desmatamento ou acabar com os recursos naturais. No entanto, em nome do progresso, nós expulsamos esses povos de seus territórios.

Os povos dependem dessa natureza para viver. Eles constroem sua aldeia onde tem um rio, porque a relação deles com o rio, a mata e a terra é maternal e visceral. Por isso, hoje, nós lutamos por um território em que podemos conviver livremente, mantendo nossos rituais, conservando a nossa biodiversidade e tendo essa relação de reciprocidade com a natureza.

Para você, quais os maiores preconceitos e dificuldades que os indígenas sofrem no Brasil?

As dificuldades enfrentadas na minha aldeia, assim como nas outras, são as mesmas: educação e saúde precárias, saneamento básico, territórios invadidos, hidrelétricas, desmatamento, poluição dos rios, entre outras muitas questões.

Pensar na questão indígena não é só refletir sobre um povo diferenciado, que fala uma língua diferente, anda nu e vive no meio da mata. Não. Os povos indígenas dominam um conhecimento que universidade nenhuma vai dar para um estudante.

Os indígenas são doutores em um conhecimento que é milenar e precisa ser preservado para que a cidade aprenda, sobretudo, sobre a solidariedade que se tem em uma aldeia. Lá, um tem, todos comem. Quando um não tem, o outro vai ajudar.

O pensamento de que o indígena é aquele que vive nu no meio da mata é eurocêntrico e discriminatório, e persiste até os dias atuais.

Por isso que eu digo: é importante as escolas começarem a pensar em uma educação hipercultural, trazendo para dentro da sala de aula a verdadeira visão que os povos indígenas querem que tenham deles, e não a visão errada que os livros didáticos passam. Nós somos povo, nós temos nome, nós temos voz e estamos na luta por resistência.

Como a sociedade brasileira enxerga os povos indígenas?

A ignorância da sociedade brasileira em relação ao indígena é grande: o enxerga como incapaz, como aquele que tem que viver no mato, acha que indígena não pode usar calça jeans, fazer doutorado, ter casa de alvenaria, entre outras coisas.

Aí eu me pergunto: o índio precisa viver estagnado no tempo e no espaço? A cultura corre pra frente, como o rio, e os povos também. Os povos precisam acompanhar o ritmo que segue o rio, e isso a sociedade tem que compreender.

Os povos indígenas só usufruem da natureza aquilo que eles precisam: um rio, uma mata e uma casa. Mas o mesmo não ocorre na vida das cidades e é por isso que estamos assim: em uma sociedade consumista e que acaba com todos os recursos disponíveis.

Em relação à mulher indígena, que tipos de violência ela sofre?

A mulher indígena, em séculos passados, era vista como a geradora, que cuidava dos filhos e afazeres domésticos, e também era a guardiã dos mitos e das lendas. Mas havia um grau de invisibilidade de outros indivíduos com relação à presença da mulher indígena em decisões que envolviam a luta dos povos.

Hoje, esse quadro começa a mudar, e a indígena reaparece com mais participação nas decisões coletivas. Ela é de luta e está resistindo. Agora nós temos mulheres caciques e mulheres na liderança de vários segmentos.

No entanto, as formas de violência são várias e gritantes. A primeira violência que a mulher indígena sofre é ver o seu povo sofrer. A segunda, ser tratada com preconceito e racismo.

E a terceira vem por ela ser “alvo fácil” de pessoas que querem ocupar aquele pedaço de terra e usam a mulher como se fosse uma forma de “dar um recado” para o cacique ou para a liderança maior. Recentemente, estupraram 3 mulheres indígenas dentro da aldeia, mas não foram os indígenas, foram pessoas de fora, os “dito-branco”, aquele que não é indígena.

Quanto à demarcação de terras indígenas, como você avalia o andamento disso por parte do governo?

Os povos indígenas antes eram os donos do seu chão. Hoje, é o “branco” quem decide como proceder com a demarcação. Antes para o indígena não existia demarcação de território, ora estavam aqui, ora ali, dependiam dos recursos naturais, migravam para não exaurir o que tinham de bens naturais, a floresta.

Atualmente, os povos não são donos de suas terras. É mais fácil para o governo engavetar e não demarcar as terras indígenas. Isso porque ele sabe que a aldeia estará no “meio do caminho” do progresso ou em locais onde existem jazidas e mais jazidas de minério, importantíssimas para a exploração e para o crescimento financeiro do brasil.

Poemas por Mácia Wayna Kambeba

Educação Indígena

Ainda pequeno na aldeia
Na vivência com os irmãos,
Plantar macaxeira, tirar lenha,
Comer peixe com pirão,
É ensino, é educação.

Ir pra beira tomar banho,
Pegar cará e mandí,
Ver o sol se esconder
E esperar a lua se vestir,

Se vem cheia é alegria
Coisa boa vem por aí,
E com sua luz toda aldeia,
Vai cantar, dançar, se divertir.

Aprender a colher o tento na mata,
Fazer cocar de miriti,
A juntar as penas que vem das aves,
Segindo as orientações de Waimí.

É da floresta que vem
A palha que a Uka vai cobrir,
Tecer nelas nossas memórias
Na folha de urucarí.

Na aldeia é assim a educação
Que desde séculos aprendi,
Conviver com a natureza
Sem agredir, nem exaurir,

Se hoje no século XXI
Tens a mata e a biodiversidade,
Nesse verde eu cresci
E conheci sua bondade,
Partilhar água e sombra,
Sem ver nisso tanta maldade.

Mas logo veio o “outro”,
E mostrou-me com sua maldade,
A importância da escrita
E vi nela uma necessidade,
Fui estudar na escola do branco
Para entender sua realidade.

Compreendi que a cultura é um rio
Corre manso para os braços do mar,
Assim não existem fronteiras
Para aprender, lutar e caminhar.

Hoje estamos nas Universidades,
Levamos junto nosso lugar,
A construção do conhecimento é uma teia,
Que liga a tua cidade com minha aldeia.

Sendo que minha identidade se constrói
Nas peculiaridades que em mim permeia,
Minha casa na cidade é também a minha aldeia,
Não perdemos nossa essência,
Somos o fino grão de areia!

Amazonidas

Somos filhas da ribanceira
Netas de velhas benzedeiras,
Deusas da mata molhada,
Temos no urucum a pele encarnada,

Lavando roupa no rio, lavadeiras,
No corpo o gigado de carimbozeiras,
Temos a força da onça pintada,
Lutamos pela aldeia amada,

Mas, viver na cidade nao tira o direito de ser,
Nação, ancestralidade, sabedoria, cultura,
Somos filhas de Nhanderú, Senerú, Nhandecy
O Brasil começou bem aqui…

Não nos sentimos aculturadas,
Temos a memória acesa,
E vivemos na certeza de que nossa aldeia
Resistirá sempre ao preconceito do invasor,
Somos a voz que ecoa. Resistência? Sim senhor!

Por: Heloisa Aun

Repórter de Cidadania na Catraca Livre. ("nossas costas / contam histórias / que a lombada / de nenhum livro / pode carregar" - Rupi Kaur)

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