Vítima de bullying, fotógrafo do interior da Bahia brilha na Vogue

"A fotografia se tornou uma 'salva-vidas' na minha vida. Eu vivia afogado nas minhas emoções e nos meus problemas", afirma Caique Silva, de 21 anos

Por: Heloisa Aun Comunicar erro
Autorretrato de Caique Silva
Crédito: Caique SilvaAutorretrato de Caique Silva

“A fotografia se tornou uma ‘salva-vidas’ na minha vida. Eu vivia afogado nas minhas emoções e nos meus problemas. Ela fez eu me enxergar como pessoa, me fez alguém melhor, mais sensível, e desbloqueou uma parte de mim que eu mesmo tinha bloqueado”, afirma o fotógrafo Caique Silva, de 21 anos.

O baiano nasceu em Salvador, onde morou até os 7 anos de idade, mas passou a maior parte de sua vida em Madre de Deus, uma pequena cidade no interior do estado. “Minha família teve que se mudar porque um amigo do meu pai prometeu um emprego a ele. No fim, era tudo ‘furada’ e ele teve que se virar para pagar as contas. Já eu precisei me adaptar em uma escola nova, com amigos novos e tudo mais”, conta.

No novo colégio, Caique começou a passar por um problema que ainda desconhecia: o bullying, decorrente de um problema no maxilar. A partir de então, o baiano foi se fechando para todo mundo, no entanto, não conseguia falar para os pais sobre o que estava acontecendo. “Eu guardava essas situações dentro de mim porque meu irmão estava com depressão e tentou suicídio na minha frente. Como meus pais estavam muito preocupados, não queria levar mais um problema a eles.”

Os professores também não percebiam que o garoto era vítima de agressões. A única que desconfiou foi uma amiga de sua mãe, que era coordenadora na instituição, após ver que o comportamento de Caique estava diferente e que ele saía para chorar durante as aulas.

“Então, ela perguntou para minha mãe, que respondeu que eu não dava sinal algum. Depois disso, um vice-diretor foi até a minha sala e disse a todos estudantes que essas atitudes eram crime e que eu poderia pedir indenização em dinheiro a quem praticava bullying”, relata.

Segundo o fotógrafo, só assim que os colegas pararam, em parte, com a “perseguição” contra ele, embora dois meninos tenham continuado a ofendê-lo. “Eles foram minhas ‘pedras no sapato’ durante muito tempo. Mas eu tive que conviver com eles, mesmo sendo agredido fisicamente”, completa.

A paixão pela fotografia

Depois de certo tempo, quando Caique já havia saído da escola, assistiu a um programa no canal NatGeo sobre um fotógrafo que registrava árvores gigantes. “Ele começou a falar sobre fotografia, sobre o agora, sobre o viver, sobre conhecer o mundo, e eu passei a me apaixonar pela ideia de ser fotógrafo. Eu tinha apenas 10 anos de idade.”

Caique aprendeu tudo sozinho, com ajuda de vídeos no YouTube. Então, ganhou um celular de um amigo, um Lumia 520, com o qual tirou suas primeiras fotos. Em seguida, foi presenteado com sua primeira câmera, uma compacta da Canon. “Os canais no YouTube foram uma forma gratuita de aprender sobre o tema porque cursos de fotografia e edição de imagem são caros e eu não tinha condições de pagar.”

Antes de trabalhar com fotografia, conseguiu emprego em borracharia, oficina de pintura, entre outros, todos relacionados a sua segunda paixão: carros. “Nessa época, eu vi que não queria trabalhar com isso. Foi aí que resolvi me jogar: comecei a procurar na internet bancos de imagens e concursos de fotografia que poderia me encaixar.”

retrato
Crédito: Caique SilvaAs fotos do rapaz já foram expostas em Londres, Itália e França

Reconhecimento internacional

Com o tempo, Caique criou um estilo próprio de fotografar, retratos de pessoas comuns em atividades rotineiras, e aos 17 anos passou a ter um reconhecimento maior de seu trabalho. “Eu vi que as pessoas estavam sendo afetadas diretamente pelo o que eu fazia. E isso me motivou a querer sair da esfera nacional para a internacional”, diz.

Com 18 anos, o baiano encontrou uma rede social artística internacional, que seleciona artistas para aumentar o “hype” deles e os colocar no “caminho certo”. O projeto tem parceria com marcas como Adidas, Nike, Instagram, Facebook, etc. Assim, ele teve suas fotos selecionadas para uma exposição em Londres, outra na Itália e uma terceira na França. “Eu, Caique, não pude estar presente, pois não tenho condições financeiras. Mas as minhas fotos estavam lá.”

A surpresa maior veio quando o rapaz entrou em contato com a Vogue Itália e suas fotos foram aprovadas em questão de minutos. “Eles são muito rigorosos na seleção dos trabalhos. De várias que mandei, sete estão lá, inclusive um de meus autorretratos”, conta, orgulhoso. “Eu fiquei bem animado, e ao mesmo tempo assustado, em ser reconhecido pelo mundo. É um sonho meu ser um dos maiores fotógrafos de retrato do Brasil, e do mundo, nem que seja no Top 200.”

No Brasil, Caique ainda não participou de exposições, mas em breve deverá ter suas fotos no Museu de Arte da Bahia.

Crédito: Caique SilvaCaique Silva aprendeu a fotografar sozinho

Poder transformador da fotografia

Para ele, a fotografia tem um poder muito grande e pode mudar a vida das pessoas. “Ela é ao mesmo tempo um problema e uma solução: o que você pode fazer para mudar ou melhorar a vida de alguém? Eu comecei a ver na fotografia a oportunidade de mudar não só a minha vida, como também a de outras pessoas”, reflete.

Seu estilo, o da fotografia de retratos, vai muito além de só fotos, pois, segundo ele, mexe com a vida e a autoestima. “É muito importante pra mim representar essas pessoas tal como elas são de verdade: como eu as enxergo, como a beleza delas está bem além de só o físico. A fotografia tem esse poder revelador, de mostrar a essência do ser humano.”

Atualmente, Caique trabalha como assistente de criação em uma agência de publicidade em São Paulo, onde vive sozinho. Seu sonho? Que a fotografia passe a ser, no futuro, seu único meio de sobrevivência.

Confira aqui mais sobre o trabalho do fotógrafo.

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Por: Heloisa Aun

Repórter de Cidadania na Catraca Livre. ("nossas costas / contam histórias / que a lombada / de nenhum livro / pode carregar" - Rupi Kaur)

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