Recordista de HQs no Catarse dá 6 dicas para fazer crowdfunding

Por: Redação | Comunicar erro

Muitas vezes os quadrinistas brasileiros precisam também se arriscar em áreas como edição, financiamento e divulgação para viabilizar seus projetos. E, apesar de bons artistas, eles podem não ter muita experiência nesses aspectos e se frustrar. O Catraca Livre publica um artigo de um recordista de financiamento no site de crowdfunding Catarse, Ivan Freitas da Costa, que diz o que aprendeu e como quadrinistas podem fazer seus projetos acontecerem.

Ivan, um dos organizadores da Comic Con Experience, é um amante dos quadrinhos. Seu livro “Ícones dos Quadrinhos”, que traz 100 artistas brasileiros e estrangeiros representando 100 grandes símbolos dos quadrinhos, arrecadou R$ 61 mil em 2013, quase o dobro de sua meta de R$ 34 mil.

Abaixo, o publicitário, organizador da FIQ e também dono de uma vasta coleção de arte, organizada em exposições que já lhe renderam dois troféus HQMix, detalha o que tirou do processo, e como evitar os principais erros.

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Página do “Ícones dos Quadrinhos” no site Catarse

O que aprendi com financiamento coletivo

Desde 2007, quando fiz minha primeira exposição de arte original no FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, senti falta de um registro permanente daquele trabalho, tanto para dar perenidade a um projeto que demora, em média, quase dois anos para ser feito, quanto para servir de souvenir para quem conseguiu visitar a exposição e de alento a quem não conseguiu se deslocar até lá.

Consegui viabilizar isso em 2013, quando a exposição “Ícones dos Quadrinhos” foi registrada em livro com recursos captados através de uma campanha de financiamento coletivo realizada através do site Catarse.

Para montar o projeto de financiamento coletivo para o livro Ícones dos Quadrinhos, acabei por utilizar todo o conhecimento de gestão que acumulei em 19 anos de carreira como executivo de marketing e de inteligência de mercado. É essa experiência que quero compartilhar neste artigo.

1. Você não é o primeiro fazer um projeto de financiamento coletivo, então aprenda com os outros projetos.

O primeiro passo foi entender esse mercado. Eu já tinha acompanhado e apoiado diversos projetos no site americano Kickstarter, que se tornou uma plataforma importante para o financiamento de quadrinhos independentes: não são raros os projetos que ultrapassam cem mil dólares em contribuições. No Brasil, o Catarse foi abraçado pela comunidade de quadrinhos há vários anos e, especialmente em 2013 com a proximidade do FIQ e a expectativa de lançamento de novos álbuns no festival, houve um aumento considerável no número de projetos, cada um deles com diferentes recompensas (que são os prêmios dados a cada pessoa em função do valor de sua contribuição financeira para o projeto), variando de edições em PDF da história em quadrinhos a estatuetas feitas à mão. Entenda o que faz mais sentido pra o seu projeto e aquilo que é mais valorizado pelo seu público.

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Composto de Marketing

2. Composto de marketing é um conceito que se aplica ao seu projeto, seja ele qual for

Em marketing, tudo é produto ou serviço e, em ambos os casos, é fundamental ter absoluta clareza sobre os seguintes aspectos:

  1. Produto. O que você pretende produzir, qual é o produto final do seu projeto? Ele é relevante para seu público-alvo? Haverá demanda para ele? De quem?
  2. Preço. O preço que você pretende cobrar por esse produto e pelas recompensas é justo? Está dentro, acima ou abaixo das expectativas do seu público-alvo, inclusive considerando produtos similares ou mesmo concorrentes?
  3. Promoção. Como você irá divulgar essa campanha? Você já tem meios para acionar outros veículos e canais, além da tradicional divulgação nas redes sociais? Como fazer com que outras pessoas fora do seu círculo de amizade saibam e se interessem pelo seu produto e apoiem seu projeto?
  4. Ponto de venda. O Catarse ainda é pouco amigável para pessoas que não são fluentes em Português (poucas telas estão em inglês, inclusive aquela com as informações para pagamento). Essa limitação à parte, ainda cabem algumas perguntas: como você irá distribuir as recompensas: pelo correio, em pontos de entrega ou de outra forma? Como você resolverá as questões logísticas para envio do produtos e demais recompensas?

3. Custos, custos, custos

Apesar de ser publicitário de formação, sempre tive cabeça de engenheiro e a logística de produção e envio dessas recompensas foi uma das minhas primeiras preocupações pois, além do tempo e do trabalho exigidos, havia um aspecto crucial que poderia colocar tudo a perder: o custo envolvido, que é um aspecto crucial do item “Ponto de Venda” citado anteriormente.

Num projeto que pode ter centenas de apoiadores (o projeto Ícones dos Quadrinhos teve exatamente 757), qualquer erro de cálculo tende a ser multiplicado com esse número. Digamos que o organizador do projeto defina que uma das recompensas é um pôster colorido no tamanho A3. Numa leitura simplista, teríamos dois custos aqui: produção (impressão) e postagem. Porém é necessário responder a algumas perguntas: O manuseio desses pôsteres será feito pelo próprio autor ou ele terá que terceirizar esse trabalho? Como ele deverá ser embalado de forma a garantir que o pôster chegará em perfeito estado nas mãos do apoiador do projeto? Qual tipo de postagem será utilizada? A postagem será com ou em seguro? Os endereços do destinatário e do remetente serão escritos à mão ou impressos em etiquetas?

Sim, são aspectos estritamente operacionais e logísticos e, para muitas pessoas (e especialmente para artistas), são assuntos extremamente chatos. Mas cada um deles implica em custo (sejam despesas com terceiros ou o custo do seu próprio trabalho) e isso pode salvar ou arruinar seu projeto de financiamento coletivo.

Digamos que o realizador do projeto esqueça de um desses detalhes, por exemplo, em como garantir que o pôster chegue em perfeito estado e não inclua o custo de um tubo de papel resistente (ou outra solução) no orçamento do projeto. Isso significa que, após receber o valor total arrecadado e, com ele, o compromisso de cumprir tudo que foi prometido, ele descobrirá que esqueceu de prever um custo de, digamos, R$ 2,00 por tubo. O problema é que são 757 apoiadores (novamente pegando o exemplo do projeto Ícones). Um erro de cálculo de R$ 2,00 virou um problema de R$ 1.514,00. Eventualmente, essa pode ser a diferença entre um projeto bem-sucedido e um projeto que deu prejuízo.

Por esse motivo, é fundamental estimar e orçar tudo o que será preciso para realizar o projeto da forma como está sendo prometido e, se possível, superar as expectativas dos apoiadores. Erros de orçamento podem prejudicar a qualidade do projeto, exigir mais tempo do que o inicialmente previsto para sua realização ou, até mesmo, inviabilizá-lo. Em fevereiro de 2014, o quadrinista norte-americano John Campbell publicou um vídeo em que queimava exemplares de seu livro “Pictures for Sad Children” que deveriam ser enviados a apoiadores de seu projeto no Kickstarter sob a alegação de que não tinha dinheiro para enviá-los pelo correio.

4. Divulgue seu projeto de forma interessante, atraente e envolvente

As primeiras contribuições para sua campanha virão inevitavelmente de amigos e familiares, mas são as pessoas que você não conhece tão bem ou mesmo quem você absolutamente nunca ouviu falar que viabilizarão seu projeto. Divulgar nas redes sociais é um caminho, mas é preciso ir além. É importante enviar releases para veículos especializados e para a imprensa em geral, sempre com imagens em alta resolução que possam ser utilizadas em uma eventual matéria em mídia impressa. Esse trabalho de assessoria de imprensa é o caminho para atingir um público (bem) mais amplo que aquele que você acessa diretamente e uma matéria publicada num veículo reconhecido dá reputação ao seu projeto.

Lembre também que as campanhas tendem a ser longas (no Catarse, o limite é de 60 dias). Você precisa ter conteúdo para manter uma campanha tão longa no ar, sob o risco de entendiar o público-alvo. Imagine 60 dias postando a mesma imagem, falando as mesmas coisas. Divida as novidades, não coloque todas as cartas na mesa ao mesmo tempo: as campanhas tendem a ter um impulso no final da campanha e, se você não tiver nada novo a dizer quando chegar esse momento, essa arrancada ficará comprometida. Está produzindo uma história em quadrinhos? Ao invés de publicar uma página inédita, faça de cada quadro um post independente, publicado em um dia diferente. Concluiu alguma fase do projeto? Divulgue, especialmente com imagens (posts com imagens geram mais interação que posts somente com texto). Mantenha o projeto vivo na cabeça das pessoas, para que continuem contribuindo e, principalmente, para que ajudem a divulgar.

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O livro “Ícones dos Quadinhos” com as recompensas.

5. Prometeu? Cumpra! E, se possível, surpreenda!

As pessoas gostam de ser surpreendidas positivamente. Guarde algumas cartas na manga para o momento da entrega das recompensas. Prometeu um pôster em A4? Envie em A3. O livro é em capa dura? Envie com uma sobrecapa ou com um marcador de páginas. E nunca – NUNCA – envie menos do que prometeu ou do que as pessoas esperavam e, se possível, não atrase nenhum prazo firmado. Você usou sua reputação para arregimentar apoiadores e você não quer colocar isso em risco em função de uma entrega que ficou aquém das expectativas das pessoas.

6. Mantenha contado

Projeto concluído, itens entregues, tudo pronto. Fim da história? Nem pensar! Você conseguiu montar uma rede de relacionamento que tem você e seu produto como ponto focal e isso não pode ser desperdiçado. Mantenha as pessoas informadas sobre seus novos projetos: esse público pode viabilizar sua próxima campanha em tempo recorde ou mesmo permitir que você lance voos ainda mais altos.

Em resumo: um bom projeto de financiamento coletivo está baseado em uma boa ideia mas, acima de tudo, em planejamento, orçamento, execução e prestação de contas e comunicação impecáveis. Foi isso que eu aprendi.

Ivan Freitas da Costa ama quadrinhos desde que se conhece por gente. Enquanto construía uma sólida carreira como executivo de Marketing em empresas como Ericsson, Ibmec São Paulo, FAAP e FIAP, encontrou tempo e energia para participar da organização do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte e também para reunir uma vasta coleção de arte, organizada em exposições que já lhe renderam dois troféus HQMix. Até que, em 2013, essa paixão reclamou mais do seu tempo e dedicação e, ao lado do amigo Joe Prado, fundou a Chiaroscuro Studios, dedicada ao agenciamento de quadrinistas, venda de arte e organização de eventos como a Comic Con Experience, da qual é sócio. Mora em São Paulo, mas seu coração está sempre em Gotham City.

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