Renda extra na prática: quatro mulheres, quatro caminhos para aumentar o orçamento

Elas criaram renda extra e mudaram a própria rotina e própria vida. Conheça as histórias reais de quem fez acontecer

05/03/2026 12:36

Com o aumento do custo de vida e a dificuldade de fechar o orçamento no fim do mês, cada vez mais brasileiros buscam alternativas para complementar a renda. Entre elas, o trabalho informal e o empreendedorismo se destacam como opções acessíveis e flexíveis.

Para entender como a renda extra funciona na prática, a reportagem da Catraca Livre ouviu quatro mulheres que encontraram caminhos diferentes para aumentar os ganhos mensais: uma motorista de aplicativo, uma vendedora de brigadeiros gourmet, uma empreendedora de cosméticos naturais e uma veterinária que trabalha com mercado digital.

A motorista de aplicativo

Nome: Luisa Pereira
Idade: 44 anos
Cidade: São Paulo – SP
Ano em que começou renda extra como Uber: 2016

Luisa descobriu nas corridas por aplicativo uma boa fonte de renda
Luisa descobriu nas corridas por aplicativo uma boa fonte de renda - arquivo pessoal

Assistente financeira de profissão, Luisa decidiu buscar uma renda extra quando percebeu que o salário fixo já não era suficiente para equilibrar as contas. A alternativa encontrada foi dirigir por aplicativos como Uber e 99.

O retorno financeiro, segundo ela, sempre foi rápido. “Na época, a Uber e a 99 demoravam uma semana para pagar. Hoje é imediato. Mas em um mês você já vê a diferença no orçamento”, conta. Trabalhando principalmente aos fins de semana — sexta, sábado e domingo — conseguia fazer entre R$ 500 e R$ 1 mil por semana como renda extra.

Os horários mais lucrativos são: das 5h30 às 10h30, no pico da manhã, e das 16h às 20h, no fim da tarde. Aos fins de semana, praticamente o dia todo tem demanda. Quando era apenas complemento, ela rodava três dias por semana. Hoje, para quem decide transformar em renda principal, Luisa recomenda uma dedicação média de 8 a 10 horas diárias.

O começo, no entanto, não foi simples. A maior dificuldade não foi o trânsito ou a adaptação ao aplicativo, mas a falta de apoio dentro de casa. “Meu ex-marido não aceitava”, relembra. Em contrapartida, encontrou incentivo nos pais, especialmente no pai, que era taxista e enxergava a atividade como algo positivo e digno.

Com o tempo, aprendeu lições importantes. Um dos erros iniciais foi aceitar corridas em locais de risco ou ignorar a própria intuição. “Se o santo não bate, a gente precisa saber filtrar.” Também percebeu que trabalhar com pagamento em dinheiro gerava conflitos e riscos desnecessários. Hoje, prefere corridas no voucher, com pagamento direto pelo aplicativo, e recomenda que iniciantes trabalhem de dia, em regiões centrais, evitando áreas mais afastadas até ganhar experiência.

Outro ponto crucial é o controle financeiro. “Ninguém te conta que, se você não souber administrar, pode se endividar mais do que antes.” Combustível, manutenção, seguro e desgaste do carro fazem parte do custo. Sem organização, o dinheiro que parece alto no dia a dia pode desaparecer no fim do mês.

Apesar dos desafios, a renda extra trouxe transformações profundas. Foi dirigindo que ela conquistou independência financeira, saiu de um relacionamento tóxico e passou a ter mais liberdade de horário, o que refletiu diretamente na tranquilidade familiar com o filho.

O que começou como um complemento de renda se transformou em um divisor de águas. Mais do que reforçar o orçamento, o trabalho por aplicativo representou independência, segurança e a possibilidade de recomeçar. Hoje, ela dirige não apenas para aumentar os ganhos, mas para sustentar a própria liberdade.

A vendedora de brigadeiros gourmet

Nome: Clea Medeiros
Idade: 49 anos
Cidade: São Paulo – SP
Ano em que começou a renda extra com brigadeiros: 2015

Os brigadeiros que surgiram como renda extra tornaram-se renda principal de Clea e do marido
Os brigadeiros que surgiram como renda extra tornaram-se renda principal de Clea e do marido - arquivo pessoal

O que começou como uma tentativa de ganhar R$ 1 mil por mês virou a principal fonte de renda, e um negócio que hoje supera, inclusive, a antiga profissão. Enfermeira de UTI pediátrica e centro cirúrgico em grandes hospitais de São Paulo, Clea Medeiros viu a vida mudar completamente após um grave acidente de carro. Foram quase quatro anos entre cadeira de rodas, muletas e 12 cirurgias. Ao retornar ao hospital, conseguiu trabalhar por apenas seis meses antes de ser aposentada por invalidez.

A aposentadoria caiu como uma sentença que ela não estava disposta a aceitar. Durante o longo período de recuperação, para ocupar a mente, fez diversos cursos de gastronomia. Foi nesse processo que descobriu o brigadeiro gourmet, e decidiu se aperfeiçoar justamente no doce que dizia não saber fazer.

Já aposentada, resolveu tentar. Investiu R$ 2 mil no cartão de crédito para comprar insumos, criou oito receitas próprias e começou a vender os brigadeiros em uma térmica, em Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, de porta em porta no comércio. Em uma semana, recuperou todo o valor investido e ainda tinha matéria-prima para continuar produzindo. Nos primeiros meses, vendia cerca de 150 unidades por dia, trabalhava cinco horas na rua e até 10 horas produzindo em casa. O lucro mensal chegou a R$ 3 mil.

Já nos primeiros meses de venda, a fila chegava a virar o quarteirão
Já nos primeiros meses de venda, a fila chegava a virar o quarteirão - arquivo pessoal

Com o tempo, mudou o ponto para a Vila Olímpia, investiu em degustação para apresentar o diferencial do chocolate belga e transformou a banquinha em um sucesso. Seis meses depois, produziu a primeira food bike, desenhada por ela e montada com a ajuda do marido. A fila virava o quarteirão.

Dez anos depois, o que era renda extra virou um negócio estruturado: hoje, são oito food bikes, pontos fixos, cozinha industrial própria, 10 funcionários e cerca de 50 receitas autorais. A marca atende grandes empresas e eventos corporativos, como Eurofarma, Magazine Luiza e rede Arcor, além de participar de shows e festas de grande porte.

“Hoje é minha renda principal, a renda principal do meu marido”, afirma. Durante a semana, ele trabalha ao lado dela na operação, acordando às 2h da manhã para abrir a cozinha. Nos fins de semana, mantém a própria empresa no interior de São Paulo.

O funcionamento é quase industrial: as bikes são montadas às 10h30 e funcionam das 11h às 15h, horário estratégico para o pós-almoço. Tudo legalizado, com licenças da prefeitura e da vigilância sanitária. Dez nos depois do início, o faturamento bruto mensal hoje varia entre R$ 140 mil e R$ 160 mil, valor que ainda precisa cobrir salários, insumos e custos fixos.

As vendas, no entanto, são sazonais. “No inverno a gente vende muito mais, porque não concorre com o sorvete. A gente trabalha no inverno para sobreviver ao verão”, explica. Nos meses mais quentes, o calor reduz o consumo de chocolate e a margem praticamente desaparece, mantendo a empresa no ponto de equilíbrio.

Ao olhar para trás, ela resume a trajetória como persistência, fé e trabalho intenso. O que nasceu como alternativa diante de uma aposentadoria precoce se transformou em propósito, e em uma empresa que cresceu a partir de uma simples térmica nas ruas de São Paulo.

A vendedora de cosméticos naturais

Nome: Patrícia Aciole
Idade: 48 anos
Cidade: São Paulo – SP
Ano em que começou a renda extra com produtos naturais: 2021

Patrícia iniciou as vendas na rua durante a pandemia de covid-19
Patrícia iniciou as vendas na rua durante a pandemia de covid-19 - Silvia Melo/Catraca Livre

Aos 44 anos, a professora de ensino fundamental Patricia Aciole precisou se reinventar. Durante a pandemia, veio o desemprego, e, com ele, a urgência de encontrar uma nova fonte de renda. A dificuldade enfrentada naquele período, que se estendeu também ao pós-pandemia, foi o que a motivou a buscar uma alternativa.

A resposta estava mais perto do que imaginava: nos saberes ancestrais, herdados da avó e da mãe. Desde cedo, ela cresceu ouvindo sobre as propriedades das plantas medicinais. Sabia, por exemplo, que o barbatimão era tradicionalmente usado para cuidados com o útero. Esse conhecimento foi o ponto de partida.

Patricia decidiu aprofundar o que já sabia. Fez cursos para aprender a produzir cosméticos naturais e começou, aos poucos, a estruturar sua própria banca de produtos na Avenida Paulista. Há quatro anos e quatro meses, ela ocupa um espaço na avenida mais famosa da cidade de São Pulo, vendendo incensos de ervas, sabonetes, hidratantes, lubrificantes e perfumes, tudo natural, da sua marca, a Patrícia Aciole.

O começo foi muito difícil, tanto financeiramente quanto emocionalmente. Já no primeiro dia de venda, foi surpreendida por uma tempestade e ventania, que acabaram virando sua banca e levando seus produtos. O retorno mais consistente só veio cerca de dois anos depois. Hoje, ela chega a faturar em torno de R$ 3 mil mensais com os produtos naturais e cosméticos, valor que funciona como renda extra, já que voltou a dar aulas.

No caminho, enfrentou desafios que não imaginava quando começou. Um dos principais foi o policiamento da prefeitura em 2025, durante a gestão do PL. Segundo ela, houve momentos em que os fiscais não reconheciam a legislação que diferencia produtores artesanais de vendedores ambulantes tradicionais. “Não sabiam da lei que nos diferenciava de camelôs”, relata.

Outro aprendizado veio na prática: ser autônoma é assumir todos os papéis de uma empresa. “Você reúne todos os departamentos em si mesma: financeiro, produção, social media”, explica. Da fabricação dos produtos à divulgação nas redes, passando pelo controle de caixa e atendimento ao cliente, tudo depende dela.

Mas largar a fonte de renda que vem das ruas não é uma opção. “A satisfação dos meus clientes é o que me faz continuar, muitos já disseram que a minha banca é a melhor de todas da Av. Paulista, comemora.

A afiliada de mercado digital

Nome: Bruna Fernandes
Idade: 30 anos
Cidade: São Paulo – SP
Ano em que começou a renda extra como afiliada: 2025

 

Veterinária concilia atendimento a cavalos com a atuação em venda de produtos na internet, criando anúncios nas redes sociais e atendendo clientes pelo WhatsApp
Veterinária concilia atendimento a cavalos com a atuação em venda de produtos na internet, criando anúncios nas redes sociais e atendendo clientes pelo WhatsApp - arquivo pessoal

Há oito anos, Bruna Fernandes construiu carreira como médica veterinária especializada em equinos. A rotina intensa no campo, o atendimento aos animais e a responsabilidade técnica sempre fizeram parte do seu dia a dia. Mas, paralelamente à profissão que escolheu por vocação, surgiu uma nova frente de trabalho e de renda  que começou quase por curiosidade: o marketing digital.

Como muita gente, ela já tinha visto inúmeros anúncios sobre ganhar dinheiro na internet. Chegou a pesquisar o assunto algumas vezes, mas nunca deu o passo decisivo. Até que, um dia, um detalhe fez diferença: o anúncio que apareceu para ela era de alguém que conhecia, ainda que não acompanhasse de perto. Ao visitar as redes sociais dessa pessoa, percebeu consistência, resultados e uma trajetória que transmitia confiança. “Vi que era alguém que já estava nisso há algum tempo, com conquistas, estabilidade e liberdade. Resolvi tentar também”, conta.

Foi assim que entrou para a comunidade de pessoas que atuam nessa área, onde aprendeu a trabalhar como afiliada de produtos físicos. O modelo de negócio a atraiu pela praticidade: não é preciso ter estoque, nem se preocupar com logística ou entrega. O foco está em divulgar os produtos e atender os interessados.

Hoje, ela cria anúncios que rodam no Facebook e no Instagram. Quando alguém se interessa e clica, é direcionado para o seu WhatsApp. É ali que ela faz o atendimento: tira dúvidas, explica detalhes e, ao final, envia seu link de afiliada. Se a compra é concluída, recebe a comissão.

Bruna vende principalmente produtos de emagrecimento. A identificação com o público e a alta demanda ajudaram na escolha, mas há opções em outros nichos também.

A curva de crescimento foi gradual. No primeiro mês, lucrou cerca de R$ 500, já descontando o valor investido para entrar na comunidade e rodar os anúncios. No segundo mês, o lucro subiu para R$ 1.500. No terceiro, chegou a R$ 3 mil. No último mês, alcançou R$ 4,3 mil.

Ela faz questão de destacar que não existe um padrão de resultados. “Tem gente que começa investindo mais e lucra muito mais logo nos primeiros meses. Varia de pessoa para pessoa, do esforço, do tempo disponível e do quanto se investe”, explica.

A falta de experiência prévia em vendas foi um desafio inicial. Por outro lado, a comunicação sempre foi um ponto forte. “Sou comunicativa, então atender as pessoas é tranquilo para mim.” Além disso, o suporte oferecido pela comunidade, com aulas gravadas,  novas estratégias e estruturas de vendas, foi fundamental para ganhar segurança.

Outro ponto que considera importante é a acessibilidade. Embora ela já tivesse notebook, afirma que não é obrigatório: é possível criar e gerenciar campanhas de anúncios pelo celular, o que reduz a barreira de entrada.

Hoje, a veterinária concilia os plantões e atendimentos com a gestão das campanhas e o contato com os clientes. O marketing digital ainda não substituiu a profissão principal, mas ela caminha para isso: “No digital, o tempo que tenho pra me dedicar hoje já me dá mais retorno que a veterinária, então, a intenção é cada vez ter mais tempo.”