Globo obriga repórteres a usarem máscara, mas até que ponto isso é bom?

OPINIÃO: Percebi uma falha na comunicação entre a emissora e a minha tia, de 80 anos

Era mais um sábado [a]normal em que vivíamos o isolamento social da quarentena no nosso apartamento na zona sul de São Paulo, quando nos sentamos no sofá para assistirmos às infinitas reportagens sobre a pandemia do novo coronavírus.

O canal escolhido naquele momento foi a TV Globo e logo na primeira entrevista levei um susto: o entrevistado estava segurando o microfone do repórter e usando máscaras. Pensei: “Que iniciativa excelente! Isso sim é dar exemplo de como evitar o contágio”.

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Crédito: Reprodução/GloboO uso obrigatório de máscaras por parte dos repórteres na frente das câmeras se tornou obrigatório nesta semana

Entretanto, a minha surpresa feliz durou pouco, porque logo levei meu olhar ao rosto de minha tia. Aos 80 anos de idade, ela tem deficiência auditiva severa e estava com uma expressão meio perdida, como se quisesse que eu traduzisse o que se passava na telinha.

Isso já é comum na nossa rotina, porque seu aparelho auditivo não faz mais efeito como antes. Mas agora, com parte do rosto do entrevistado tampada, a sua técnica de leitura labial ficaria prejudicada em alguns trechos do telejornal.

Foi aí que decidi perguntar, ainda em tom debochado: “Tia, me explica o que esse moço de máscara falou agora?”. Dei uma gargalhada, pois era óbvia a resposta. Ela me olhou, segurando a risada, e disse: “Se antes já não entendia merda nenhuma, agora então… fedeu!”.

Minha mãe se uniu a nós e ficamos alguns minutos rindo e comentando sobre o assunto. Embora a emissora tenha optado pela melhor saída para o momento, não pude ignorar a necessidade de minha tia. Sabia que algo iria se perder na comunicação dela com a TV. A gente faz a nossa parte de explicar tudo pra ela, sem problemas. Mas não seria o ideal, né?! Enfim…

A questão é que as mudanças não pararam por aí. Nesta semana, a Globo decretou como obrigatório o uso de máscaras por parte dos repórteres de rua também. A medida da emissora limitou mais um pouco o contato de minha tia com a informação. E como já era de se esperar, mais um susto em frente à TV: “Xiii… Agora o jornalista também tá de máscara? Lascou-se!”.

Por isso, pensamos em algumas alternativas. A primeira delas é o uso do closed caption. Mas tal saída não viria de forma tão simples, até porque a legenda-descrição passa muito rapidamente e quem é idoso nem sempre consegue acompanhar a leitura completa ou fica naquele impasse: leio a legenda ou vejo as imagens?

Outra alternativa foi aumentar o volume da TV, mais ainda! Contudo, isso não é só prejudicial para a audição das outras pessoas que moram com minha tia, como também causa interferência na função do aparelho auditivo, que limita os sons de grave e agudo para não gerar desconfortos, como labirintite e confusão mental.

Sendo assim, continuamos com a alternativa de explicar o conteúdo da notícia quando ela achar necessário.

Sem querer julgar que a emissora não pensou na inclusão social quando tornou a medida obrigatória, a Catraca Livre foi atrás para saber o posicionamento do canal. Segundo nota enviada, a Globo alega que existem as opções de closed caption – aquela que já dissemos que não é eficiente como pensam – e que o conteúdo que passa na TV também está disponível nas plataformas digitais.

Ok. Partindo disto, podemos concluir que qualquer pessoa que tem televisão em casa, obrigatoriamente tem computador, celular, acesso à internet e capacidade intelectual para lidar com este tipo de tecnologia, certo?

Não, errado! Ninguém é obrigado a acompanhar todas as novidades tecnológicas que surgem a todo momento. Muito menos uma idosa de 80 anos. Duvido muito que esta problematização aconteça somente na minha casa, duvido mesmo. E a Globo, como uma emissora de TV líder de audiência e alcance da maioria da população, poderia cogitar outras alternativas (como máscaras transparentes) para continuar protegendo seus profissionais do coronavírus, e ainda passando informação com qualidade para todo o público que gosta de acompanhar suas notícias. Afinal, é este o papel do jornalismo desde sempre, não é mesmo?

Confira a nota da emissora na íntegra:

“A Globo tem preocupação constante com questões relacionadas à inclusão e disponibiliza o recurso closed caption em seus telejornais para auxiliar pessoas com deficiência auditiva. Além disso, os textos das principais matérias dos telejornais estão disponíveis para leitura no portal G1. Neste momento atípico e delicado, e diante do agravamento da pandemia de coronavírus no Brasil, a Globo optou por determinar que os repórteres utilizem máscara durante entradas ao vivo e gravações em locais públicos. Não apenas pela fundamental segurança de seus funcionários, que já seguiam práticas eficazes de prevenção desde o início da pandemia, mas também para usar a imagem dos jornalistas como reforço no convencimento da população sobre a importância do equipamento. Além disso, a maior parte das reportagens é lida em off (ouve-se o repórter, mas ele não é visto). Da mesma forma, a Globo não poderia obrigar os entrevistados a tirarem as máscaras. Portanto, a leitura labial, hoje, já é feita apenas no momento da passagem, da brevíssima aparição da imagem do repórter”.