A Arábia Saudita está construindo um lago artificial de 2,7 quilômetros de extensão no meio do deserto, com três barragens gigantes e um investimento de US$ 4,7 bilhões, que produzirá 90.000 metros cúbicos de água por semana sem impactar significativamente o meio ambiente
Toda a água do projeto será produzida por usinas de dessalinização alimentadas por energia renovável.
No noroeste da Arábia Saudita, entre montanhas que alcançam 2.600 metros de altitude, a construtora italiana Webuild está erguendo três barragens gigantes que formarão um lago artificial de água doce com aproximadamente 2,7 quilômetros de extensão. O projeto, orçado em US$ 4,7 bilhões, faz parte de Trojena, o destino turístico de montanha do megaprojeto NEOM, e promete funcionar inteiramente com água dessalinizada produzida por energia renovável, sem impactar significativamente os recursos hídricos da região.

O que é Trojena e por que construir um lago no deserto saudita?
Trojena está localizada na região de Tabuk, a cerca de 50 quilômetros da costa do Golfo de Aqaba, em altitudes que variam entre 1.500 e 2.600 metros acima do nível do mar. Essa elevação garante temperaturas mais amenas do que as do deserto em planície e um relevo montanhoso íngreme o suficiente para escavar uma bacia de reservatório entre os vales. O lago cobrirá uma área de aproximadamente 150 hectares e incluirá até uma ilha reservada para caminhadas botânicas.
O projeto está inserido na Visão Saudita 2030, o plano nacional de diversificação econômica que busca reduzir a dependência do país em relação ao petróleo. Trojena é projetada como um resort de alto padrão com hotéis de luxo, esportes aquáticos e atividades ao ar livre durante o ano inteiro, transformando uma região desértica e montanhosa em um destino turístico internacional.
Como são as três barragens que vão formar o lago?
A engenharia por trás do projeto é monumental. A barragem principal terá cerca de 145 metros de altura e 475 metros de comprimento, construída em concreto compactado com rolo. Uma segunda barragem utilizará a mesma técnica construtiva, enquanto a terceira será erguida como estrutura de rocha, selando o vale em múltiplas direções para reter a água.
O volume de material movimentado impressiona: as escavações no local do lago já ultrapassaram 3 milhões de metros cúbicos de rocha, com um ritmo de extração de aproximadamente 90 mil metros cúbicos por semana. A rocha escavada está sendo reaproveitada na construção das próprias barragens e no revestimento do leito do lago, reduzindo a necessidade de mineração adicional em outras áreas.
De onde virá a água para encher um lago no deserto?
Toda a água do projeto será produzida por usinas de dessalinização alimentadas por energia renovável. O programa de dessalinização do NEOM prevê a capacidade de processar até 1 milhão de metros cúbicos de água por dia dentro de dez anos, o equivalente a 264 milhões de galões diários. Além da produção, o sistema inclui reciclagem total de águas residuais para irrigação e processamento de salmoura com recuperação de recursos, visando minimizar o impacto no ecossistema marinho.
No entanto, especialistas apontam desafios que o projeto precisará enfrentar continuamente:
- Evaporação: um estudo publicado na Nature Communications demonstrou que reservatórios em regiões quentes e secas perdem uma proporção de água por evaporação maior do que sua capacidade de armazenamento sugere, exigindo reposição constante.
- Bombeamento: transportar água dessalinizada do nível do mar até altitudes acima de 1.500 metros demanda energia significativa, mesmo com fontes renováveis.
- Pegada de carbono da construção: a produção de cimento responde por 7% a 8% das emissões globais de carbono, um fator relevante em um projeto com uso intensivo de concreto.
- Manutenção do ecossistema: concentrar demanda de água, paisagismo, refrigeração e gestão de resíduos em uma região com ecossistemas naturalmente frágeis exige monitoramento ambiental rigoroso e contínuo.

Quais instalações turísticas estão previstas ao redor do lago?
O lago é o elemento central de um complexo hoteleiro de alto padrão. A rede Marriott já anunciou a construção do primeiro W Hotel da Arábia Saudita em Trojena, com 236 quartos, além de um JW Marriott integrado à estrutura das barragens. A rede Minor Hotels também confirmou um resort Anantara com 270 quartos na Vila Aquática, com vista para o lago, piscina de borda infinita, spa e heliponto.
A previsão é que Trojena comece a receber visitantes e residentes ainda em 2026, embora o cronograma completo do projeto se estenda por vários anos. O destino, que originalmente seria sede dos Jogos Asiáticos de Inverno de 2029, perdeu essa atribuição após o Conselho Olímpico da Ásia assinar contrato com Almaty, no Cazaquistão, em fevereiro de 2026, o que altera a narrativa de justificativa mas não interrompe a construção.
O lago artificial de Trojena é, ao mesmo tempo, uma proeza de engenharia e um experimento em tempo real sobre os limites da intervenção humana em ambientes extremos. Se as promessas de sustentabilidade se confirmarem, ele demonstrará que é possível criar um oásis funcional no deserto sem drenar recursos naturais de outras regiões. Se falharem, se tornará um dos exemplos mais caros do mundo de como a ambição pode superar a física. O mundo estará observando os números de perto.
O comunicado oficial foi publicado pelo Conselho Olímpico da Ásia.