A espécie que inspirou o Homem-Aranha é uma das seis novas descobertas no Alentejo
Como o isolamento geográfico criou seres únicos em Portugal
Em pleno Alentejo, uma área conhecida sobretudo pelas paisagens abertas e pela agricultura, um conjunto de seis novas espécies de aranhas do Alentejo chama a atenção da comunidade científica e reforça a importância desta região para a conservação da natureza, mostrando que ainda há muito por descobrir mesmo em locais já estudados há décadas.

O que torna as aranhas do Alentejo uma descoberta tão especial?
Essas novas aranhas do Alentejo foram identificadas na região de Grândola por uma equipa ligada à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, durante campanhas de campo realizadas entre 2024 e 2025. Entre elas está uma aranha do género Scytodes, grupo que inspirou a criação da personagem Homem Aranha, o que ajuda a aproximar o tema da biodiversidade do imaginário popular.
Os exemplares recolhidos apresentam dimensões reduzidas, variando de poucos milímetros a cerca de um centímetro e meio, mas revelam grande diversidade de formas, cores e comportamentos. A descoberta reforça a ideia de que mesmo em regiões consideradas bem conhecidas ainda podem ser encontradas espécies totalmente novas para a ciência, muitas com hábitos discretos e pouco visíveis a olho nu.
Quais são as principais características das aranhas do Alentejo?
Ao abordar a diversidade de aracnídeos em Portugal, o destaque vai para as aranhas do Alentejo. A variedade de espécies identificadas distribui-se por géneros como Scytodes, Dysdera, Harpactea e Pelecopsis, revelando um ecossistema rico onde cada grupo possui estratégias de sobrevivência e caça muito particulares.
Em algumas espécies de Scytodes, se a presa for maior a aranha dispara mais vezes a mistura de teia e veneno até a presa estar totalmente imobilizada, o que torna esta forma de captura especialmente eficiente. Para entender melhor esta diversidade de formas de vida, vale destacar alguns traços marcantes destes géneros:
- Dysdera costuma ser predadora especializada em bichos de conta e apresenta quelíceras robustas e poderosas.
- Harpactea tende a ser menor, mais escura e esguia, adaptando se bem a fendas e microhabitats do solo.
- Pelecopsis agrupa aranhas discretas, descritas como caçadoras furtivas que usam a vegetação e o solo para emboscar pequenos invertebrados.
Como as aranhas do Alentejo são estudadas e classificadas pelos cientistas?
O estudo das aranhas do Alentejo segue um protocolo rigoroso de levantamento e análise, típico da taxonomia moderna. Na estação de campo da herdade onde as coletas foram feitas, foram instalados sensores de temperatura e humidade do solo, além de diferentes tipos de armadilhas adequadas para capturar pequenos invertebrados, permitindo relacionar a presença das espécies com condições ambientais específicas.
Depois da captura, cada exemplar é levado para o laboratório, onde passa por um processo detalhado de identificação. Para esclarecer como isso é feito, os investigadores observam de perto alguns aspetos fundamentais:
- Disposição e número de olhos, que variam consoante o género e ajudam na distinção entre espécies.
- Estrutura das fieiras, órgãos responsáveis pela produção de teia e pela forma como a teia é utilizada na caça.
- Formato das pernas e quelíceras, importantes para a locomoção e captura de presas em diferentes tipos de habitat.
- Dimensões do corpo, frequentemente entre 2 e 15 milímetros nas espécies agora estudadas, o que exige instrumentos de medição precisos.

Por que as novas aranhas do Alentejo são importantes para a conservação?
A Serra de Grândola tem sido apontada como uma espécie de ilha ecológica no contexto do Alentejo, com topografia, solo e vegetação mediterrânica que criam condições muito particulares. Ao longo de milhares de anos, pequenas populações isoladas de aranhas do Alentejo tendem a acumular diferenças genéticas e morfológicas, favorecendo o surgimento de espécies endémicas com grande valor para a conservação.
Cada nova espécie descrita acrescenta informação sobre a história evolutiva da região, a saúde dos ecossistemas e a resposta da fauna às alterações climáticas. Como predadores importantes na cadeia de invertebrados, as aranhas ajudam a controlar populações de insetos e influenciam a qualidade dos habitats, assim a sua proteção contribui para manter o equilíbrio ecológico e valorizar o património natural português.