Adeus ao dia de 24 horas: os dias na Terra estão ficando mais longos e poderá levar o planeta a ter dias de 25 horas
Pesquisadores explicam como a Lua influencia a rotação da Terra e por que os dias estão ficando mais longos ao longo de milhões de anos.
A duração do dia na Terra não é uma constante imutável. Ela está mudando — lentamente, imperceptivelmente para qualquer geração humana, mas de forma contínua e documentada pela ciência há séculos. A rotação do nosso planeta vem desacelerando desde sua formação, impulsionada pela força gravitacional da Lua, e os cálculos dos pesquisadores apontam para um futuro em que um dia completo vai durar 25 horas. A questão é: quando isso vai acontecer?

A força que está freando a rotação da Terra há bilhões de anos
O mecanismo responsável pelo alongamento dos dias terrestres é a força de maré lunar. A gravidade da Lua puxa os oceanos da Terra criando as marés, e o atrito entre a água do mar e o fundo oceânico durante esse processo dissipa energia cinética que originalmente pertencia à rotação do planeta. Parte dessa energia é transferida para a órbita da Lua, que em resposta se afasta gradualmente da Terra a uma taxa de aproximadamente 3,8 centímetros por ano.
O resultado desse processo é duplo e simultâneo: a Terra gira cada vez mais devagar, e a Lua se distancia cada vez mais. Ambos os fenômenos ocorrem na mesma velocidade extremamente lenta, mas são documentados com precisão por instrumentos modernos. Segundo Fernando Roig, pesquisador do Observatório Nacional, essa desaceleração é estudada desde o século XVIII e ocorre de forma sistemática desde a formação do planeta, há cerca de 4,5 bilhões de anos.
- 🌊Força de maré lunar: o atrito entre os oceanos e o fundo do mar causado pela gravidade da Lua transfere energia da rotação terrestre para a órbita lunar, freando progressivamente o planeta
- 🧊Derretimento das calotas polares: a redistribuição de massa de gelo para os oceanos altera a distribuição de peso do planeta e pode influenciar a velocidade de rotação
- 🌋Grandes terremotos: eventos sísmicos de alta magnitude podem causar oscilações bruscas na rotação, alterando a duração do dia em frações de milissegundo de forma imediata
- 💨Marés atmosféricas: o deslocamento periódico de grandes massas de ar ao redor do planeta também impacta a velocidade de rotação, especialmente nas variações sazonais
- 🌐Movimento do núcleo interno: a dinâmica do núcleo sólido da Terra e sua interação com o manto externo influenciam a velocidade de rotação de formas que a ciência ainda estuda
Qual é o ritmo real dessa desaceleração em números concretos
Os dias estão aumentando em média 1,7 milissegundo a cada século. Para ter dimensão dessa escala: seriam necessários mais de 39 mil anos apenas para acumular seis milissegundos de diferença. O dia de 25 horas está estimado para daqui a aproximadamente 200 milhões de anos, mantendo o ritmo atual de freamento gravitacional. Não existe nenhuma data precisa estabelecida pela ciência — e as manchetes sensacionalistas sobre o tema invariavelmente ignoram esse detalhe fundamental.
O que os cientistas monitoram hoje são variações da ordem de milissegundos, imperceptíveis na vida cotidiana mas relevantes para sistemas que dependem de sincronização de tempo em nível atômico. GPS, comunicações por satélite e redes de dados globais precisam compensar essas variações constantemente para funcionar com a precisão que a tecnologia moderna exige.

O que os fósseis contam sobre os dias de bilhões de anos atrás
A evidência mais concreta de que a rotação da Terra vem desacelerando há bilhões de anos não vem de telescópios ou satélites — vem de rochas e fósseis. Pesquisadores conseguem medir a duração dos dias em épocas remotas por meio de anéis de crescimento em corais antigos e camadas de sedimento que funcionam como calendários naturais preservados na geologia.
Como o dia foi crescendo ao longo de bilhões de anos
A linha do tempo da duração do dia na Terra desde a formação do planeta
Há 4,5 bilhões de anos, logo após a formação do planeta, um dia durava entre 5 e 10 horas — a Terra girava muito mais rápido do que hoje. Há 600 milhões de anos, quando a vida multicelular surgiu nos oceanos, os registros geológicos indicam que um dia durava cerca de 21 horas. Hoje, um dia solar completo tem 23 horas, 56 minutos e 4 segundos, com variações sazonais mínimas que os instrumentos modernos conseguem detectar mas que o ser humano jamais perceberia.
Em cerca de 200 milhões de anos, mantendo o ritmo atual de desaceleração causado pela força de maré lunar, o dia deve chegar a 25 horas. Esse histórico confirma que a mudança não é especulação futurista: é a continuação de um processo que já transformou a duração dos dias múltiplas vezes ao longo da história do planeta, e que vai continuar acontecendo independentemente de qualquer coisa que a humanidade faça ou deixe de fazer.
Os dados mostram uma progressão consistente: de 5 a 10 horas na formação do planeta, para 21 horas há 600 milhões de anos, para as atuais 23 horas e 56 minutos. A trajetória é clara e a direção é sempre a mesma — dias cada vez mais longos, à medida que a energia cinética da rotação terrestre migra lentamente para a órbita da Lua.
As variações de curto prazo que contradizem a tendência de longo prazo
Um dado curioso que surgiu em pesquisas recentes é que a Terra passou por um período de aceleração inesperada na rotação entre 2020 e meados de 2025, registrando dias ligeiramente mais curtos do que o padrão histórico. Esse fenômeno, ainda em investigação, vai na direção oposta ao que a teoria gravitacional prevê para o longo prazo e ainda não tem explicação completamente consensual entre os cientistas.
Fatores como o movimento das correntes oceânicas, as variações nas massas de ar atmosféricas e as dinâmicas do núcleo terrestre podem causar oscilações de curto prazo que vão contra a tendência secular. O que esses episódios mostram é que a rotação da Terra é influenciada por múltiplos sistemas simultaneamente, e que a tendência de longo prazo de desaceleração não impede variações de curto prazo em ambas as direções.
Por que essa mudança já importa para a tecnologia que usamos hoje
Embora o dia de 25 horas seja uma perspectiva para daqui a 200 milhões de anos, as variações mínimas na rotação da Terra já têm impacto real nos sistemas de alta precisão que sustentam a vida moderna. Os sistemas de GPS dependem de sinais de tempo extremamente precisos, e qualquer variação na velocidade de rotação do planeta precisa ser compensada nos cálculos para que a localização continue sendo exata.
Os chamados “segundos intercalares” — pequenos ajustes adicionados ou removidos dos relógios atômicos de tempos em tempos — existem justamente para sincronizar o tempo civil com a rotação real da Terra. Pesquisadores do Observatório Nacional e de instituições como a NASA monitoram essas variações com instrumentos capazes de detectar mudanças na velocidade de giro do planeta em escala de milissegundos. O tempo que parece absolutamente fixo na experiência humana é, na escala geológica, uma variável em constante transformação. Compartilhe com quem gosta de ciência e vai adorar saber que o relógio cósmico está, literalmente, ficando mais devagar.