Astrônomos finalmente confirmam pela primeira vez a existência de uma enorme caverna vulcânica em Vênus

Tubos de lava, também chamados de piroductos, são estruturas subterrâneas que se formam quando a lava flui por canais recobertos por uma crosta solidificad

10/05/2026 18:35

Dados de radar coletados há mais de três décadas por uma sonda da NASA acabaram de revelar algo que os cientistas suspeitavam mas não conseguiam provar: existe uma caverna vulcânica enorme sob a superfície de Vênus. A estrutura foi identificada na região do vulcão escudo Nyx Mons por pesquisadores da Universidade de Trento, na Itália, e os resultados foram publicados em fevereiro de 2026 na revista Nature Communications. Com quase um quilômetro de largura e pelo menos 375 metros de altura interna, o tubo de lava de Vênus é de uma escala que não existe em nenhuma caverna conhecida na Terra.

Os números do tubo de Vênus são difíceis de visualizar sem comparação.
Os números do tubo de Vênus são difíceis de visualizar sem comparação.Imagem gerada por inteligência artificial

O que é um tubo de lava e como um se forma em outro planeta?

Tubos de lava, também chamados de piroductos, são estruturas subterrâneas que se formam quando a lava flui por canais recobertos por uma crosta solidificada. Quando a erupção termina e a lava escoa para fora, o interior do canal fica vazio, criando um túnel natural. Na Terra e na Lua, essas estruturas já são bem documentadas. Em Vênus, a existência delas era hipotética há décadas, mas nunca havia sido confirmada diretamente por evidências de radar.

A gravidade menor de Vênus em relação à Terra, combinada com sua densa atmosfera, pode ter favorecido a formação de tubos excepcionalmente grandes. A lava que escoava pelos flancos dos vulcões venusianos tinha condições de desenvolver uma crosta isolante espessa muito rapidamente, preservando canais internos de dimensões que simplesmente não existem nos equivalentes terrestres. O maior tubo de lava conhecido na Terra, o sistema Corona em Lanzarote, na Espanha, chega a cerca de 28 metros de largura. A estrutura de Vênus tem largura estimada de 937 metros.

Como a sonda Magellan detectou a caverna décadas após o fim da missão?

A sonda Magellan operou em órbita de Vênus entre 1990 e 1994, mapeando 98% da superfície do planeta com um instrumento de Radar de Abertura Sintética, a única ferramenta capaz de enxergar através da densa camada de nuvens que cobre Vênus permanentemente. Os dados brutos foram coletados naquela época, mas a técnica necessária para identificar cavidades subsuperficiais a partir dessas imagens só foi desenvolvida recentemente pela equipe de Lorenzo Bruzzone, da Universidade de Trento.

O que os pesquisadores encontraram nas imagens foi um colapso localizado na superfície, chamado de “skylight”, que corresponde exatamente ao que acontece quando o teto de um tubo de lava cede parcialmente. Esse colapso, identificado na encosta ocidental de Nyx Mons, tem dimensões de aproximadamente 1.545 por 1.070 metros. O sinal de radar penetrou pelo menos 300 metros a partir da abertura antes de se extinguir, e a profundidade do colapso foi estimada em cerca de 450 metros. Seguindo a cadeia de depressões ao longo da superfície, a equipe estimou que o sistema completo do tubo se estende por pelo menos 45 quilômetros sob o vulcão.

Os números do tubo de Vênus são difíceis de visualizar sem comparação.
Os números do tubo de Vênus são difíceis de visualizar sem comparação.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a escala dessa estrutura surpreende até os especialistas?

Os números do tubo de Vênus são difíceis de visualizar sem comparação. A largura média estimada do conduto é de 937 metros, a espessura do teto que ainda permanece intacto é de pelo menos 150 metros, e a altura interna do vazio chega a 375 metros. Para ter uma referência, isso é mais alto do que a Torre Eiffel. A abertura na superfície, o skylight, mede mais de 1,5 quilômetro no eixo maior. Nenhuma formação equivalente na Terra chega perto dessas proporções.

  • Largura estimada do conduto: aproximadamente 937 metros de diâmetro médio
  • Espessura mínima do teto: 150 metros de rocha vulcânica intacta
  • Altura interna do vazio: pelo menos 375 metros
  • Extensão total estimada do sistema: mínimo de 45 quilômetros sob Nyx Mons
  • Dimensão do skylight na superfície: 1.545 por 1.070 metros de abertura

O que essa descoberta muda para as futuras missões a Vênus?

Dois projetos espaciais em desenvolvimento já foram diretamente influenciados pela descoberta. A missão VERITAS, da NASA, com lançamento previsto antes de junho de 2031, e a missão EnVision, da Agência Espacial Europeia, prevista para o mesmo período, terão como um de seus objetivos mapear estruturas subsuperficiais como essa com muito maior resolução. A EnVision carregará um radar de penetração de solo capaz de sondar centenas de metros abaixo da crosta venusiana, o que pode revelar muitos outros tubos de lava ainda invisíveis nos dados da Magellan.

A descoberta também reacende o debate sobre o potencial científico de Vênus como destino de exploração. O interior dessas estruturas fica protegido das temperaturas extremas da superfície, que chegam a 465°C, e da pressão atmosférica esmagadora, equivalente a cerca de 90 atmosferas terrestres. Para Lorenzo Bruzzone, o achado representa apenas o começo de uma longa atividade de pesquisa. O que a reanalyse dos dados da Magellan revelou é que Vênus guarda muito mais do que a superfície exposta deixava imaginar.

Pela primeira vez, cientistas têm fortes evidências de que uma enorme caverna vulcânica está sob a superfície de Vênus.
Pela primeira vez, cientistas têm fortes evidências de que uma enorme caverna vulcânica está sob a superfície de Vênus. - Créditos: NASA/JPL

O que Nyx Mons revela sobre a história geológica de Vênus?

Nyx Mons é um vulcão escudo localizado no hemisfério norte de Vênus, com uma morfologia semelhante à dos grandes vulcões havaianos na Terra. A presença de um tubo de lava de tal magnitude em seus flancos indica que esse vulcão passou por episódios eruptivos de longa duração e altíssimo volume, capazes de sustentar canais de fluxo por distâncias de dezenas de quilômetros. Isso coloca Nyx Mons entre as estruturas vulcânicas mais geologicamente ativas da história recente de Vênus, em termos planetários.

Para Bruzzone, a descoberta ajuda a entender como o planeta evoluiu e como sua geologia se compara com a de outros corpos rochosos do sistema solar. Vênus, Marte e a Lua compartilham um histórico de vulcanismo intenso, e a identificação de tubos de lava em todos eles aponta para um processo geológico universal entre planetas rochosos. O que diferencia Vênus é a escala. Se as condições do planeta permitiram a formação de tubos dessa magnitude, o inventário completo de cavernas subsuperficiais venusianas pode ser o mais impressionante do sistema solar interno.

Referências: Radar-based observation of a lava tube on Venus | Nature Communications