Cientistas da UNAM descobrem um grupo de bactérias no México com potencial para ajudar a agricultura e essa força microscópica pode funcionar onde os produtos químicos falham

A ciência encontrou no solo mexicano uma força microscópica capaz de transformar a agricultura sem depender de produtos químicos

Pesquisadores da Universidade Nacional Autônoma do México identificaram um conjunto diverso de bactérias nos solos de Oaxaca com capacidade de transformar a forma como cultivamos alimentos, abrindo caminho para uma agricultura mais sustentável e menos dependente de insumos químicos.

Pesquisadores da UNAM identificaram grupos bacterianos nos solos de Oaxaca com potencial para transformar a agricultura sustentável.
Pesquisadores da UNAM identificaram grupos bacterianos nos solos de Oaxaca com potencial para transformar a agricultura sustentável.Imagem gerada por inteligência artificial

O que os cientistas da UNAM encontraram nos solos de Oaxaca?

A equipe liderada por Mario Alberto Martínez-Núñez analisou o microbioma do solo na região da Mixteca Alta, um geoparque reconhecido pela Unesco no México. Foram identificados 21 grandes grupos bacterianos, sendo que apenas quatro deles responderam por cerca de quatro em cada cinco leituras genéticas obtidas nas amostras coletadas.

Os grupos predominantes foram Acidobacteria, Proteobacteria, Actinobacteria e Chloroflexi. Essas bactérias desempenham funções essenciais no solo, como a decomposição de matéria orgânica, a limitação de doenças em plantas e o ciclo do nitrogênio, um processo fundamental para o aproveitamento de fertilizantes pelos agricultores.

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    Acidobacteria: Um dos grupos mais abundantes, associado à decomposição de matéria orgânica e à estabilidade da estrutura do solo.
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    Proteobacteria: Grupo versátil ligado ao ciclo do nitrogênio, essencial para a disponibilidade de nutrientes às plantas cultivadas.
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    Actinobacteria: Produtoras de compostos antibióticos naturais que ajudam a bloquear patógenos causadores de doenças em plantas.
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    Chloroflexi: Grupo presente em solos de diferentes tipos, com participação em processos de degradação de compostos orgânicos complexos.

Qual é o papel dos sistemas agrícolas tradicionais nessa descoberta?

As amostras foram coletadas em três tipos de paisagem moldadas por práticas agrícolas seculares: lama-bordos, terraços em curva de nível e vales. Os lama-bordos são muros de pedra construídos transversalmente em canais para reter sedimentos e formar terrenos férteis ao longo do tempo, uma técnica com pelo menos 3.400 anos de uso comprovado na região.

O estudo mapeou o microbioma do solo na região da Mixteca Alta por meio de sequenciamento genético para avaliar o desenvolvimento de biofertilizantes locais.
O estudo mapeou o microbioma do solo na região da Mixteca Alta por meio de sequenciamento genético para avaliar o desenvolvimento de biofertilizantes locais.Imagem gerada por inteligência artificial

Essa forma de manejo da terra interfere diretamente na composição microbiana do solo. Terrenos com maior retenção de sedimentos e umidade tendem a abrigar comunidades bacterianas distintas das encontradas em encostas mais secas e arenosas, o que explica as diferenças observadas entre os tipos de solo analisados.

Como os pesquisadores identificaram as bactérias presentes no solo?

Em maio de 2023, durante a estação seca, a equipe coletou amostras de solo a cerca de 20 centímetros de profundidade em cada tipo de paisagem. A técnica utilizada foi o sequenciamento de 16S rRNA, um método de código de barras genético que identifica microrganismos por meio de traços de DNA, sem necessidade de cultivá-los em laboratório.

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Limitações do método genético

O que o DNA do solo pode e não pode revelar

O sequenciamento genético é capaz de mapear quais bactérias estão presentes no solo e sugerir funções possíveis com base em padrões conhecidos. Softwares especializados ajudam a prever as vias metabólicas ativas naquele ambiente.

No entanto, o método não garante resultados práticos para a lavoura. Saber que uma bactéria pode produzir antibióticos naturais não comprova que uma plantação de milho ou feijão vai produzir mais na próxima safra. É um mapa detalhado, não uma promessa de colheita.

Os solos de vales e lama-bordos apresentaram composições bacterianas mais semelhantes entre si do que em relação aos terraços, mesmo quando não estavam geograficamente próximos. Os pesquisadores atribuem esse padrão à riqueza de nutrientes, já que solos mais férteis favorecem um conjunto específico de microrganismos.

  • Solos ricos em nutrientes abrigam comunidades bacterianas mais diversas e funcionalmente ativas.
  • Terraços com solo mais pobre tendem a hospedar grupos bacterianos diferentes dos encontrados em vales férteis.
  • A técnica de sequenciamento genético permite identificar microrganismos difíceis de cultivar em condições de laboratório.

Quais são as possibilidades de uso dessas bactérias na agricultura?

Uma das conclusões mais relevantes do estudo aponta para o potencial de desenvolvimento de biofertilizantes locais, produtos elaborados a partir de microrganismos já adaptados às condições da Mixteca. Esses insumos poderiam promover solos mais saudáveis com menor dependência de agroquímicos pesados.

Bactérias nativas encontradas em sistemas agrícolas tradicionais do México desempenham funções essenciais para a nutrição e proteção das plantas.
Bactérias nativas encontradas em sistemas agrícolas tradicionais do México desempenham funções essenciais para a nutrição e proteção das plantas.Imagem gerada por inteligência artificial

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos define biofertilizantes como microrganismos benéficos aplicados a plantas, sementes ou solo para ampliar a disponibilidade de nutrientes, distinguindo-os claramente do composto orgânico e do esterco. Para chegar ao campo, essas bactérias ainda precisariam passar por testes rigorosos em estufa e em condições reais de cultivo.

  • Biofertilizantes são diferentes de compostos orgânicos e dependem de microrganismos vivos para funcionar.
  • Os resultados podem variar conforme o tipo de cultura, a quantidade de chuva e as práticas adotadas pelo agricultor.
  • A produção local de bioinsumos a partir de bactérias nativas pode reduzir custos e aumentar a adaptação ao ambiente.
  • Antes de qualquer aplicação comercial, são necessários testes de segurança para ecossistemas e seres humanos.

Por que a saúde do solo está no centro das atenções da ciência?

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estima que cerca de um terço das terras do planeta apresenta degradação moderada a severa. Além disso, o solo se forma de maneira extremamente lenta, podendo levar até mil anos para acumular menos de dois centímetros de camada fértil.

Esse cenário reforça a importância de tratar o solo como um sistema vivo, e não como um recurso descartável. Os microrganismos têm papel central nessa equação, pois tornam nutrientes disponíveis e mantêm a estrutura física do terreno. A próxima etapa dos pesquisadores da UNAM é isolar as bactérias mais promissoras e testá-las em condições reais de campo.

Referências: Characterizing Bacterial Communities in Agroecosystems of the UNESCO Global Geopark Mixteca Alta, Oaxaca | MDPI