Cientistas mapearam uma enorme fenda submarina de 500 quilômetros escondida sob o oceano Atlântico e agora acham que descobriram como essa ferida gigante surgiu há 37 milhões de anos

Pesquisadores investigam uma colossal fenda subaquática de 500 quilômetros localizada nas profundezas do Oceano Atlântico

Uma imensa cicatriz subaquática localizada nas profundezas do Oceano Atlântico foi mapeada recentemente por cientistas detalhadamente, revelando segredos surpreendentes sobre as forças tectônicas que moldam o nosso planeta. Este artigo analisa como o calor do manto terrestre e o movimento das placas criaram a intrigante vala de King’s Trough há milhões de anos, alterando permanentemente a geologia marinha com uma impressionante ruptura geológica.

Cientistas mapeiam a imensa cicatriz tectônica de King’s Trough no Oceano Atlântico.
Cientistas mapeiam a imensa cicatriz tectônica de King’s Trough no Oceano Atlântico.Imagem gerada por inteligência artificial

Como os cientistas conseguiram desvendar os segredos de King’s Trough?

A recente expedição do navio de pesquisa alemão METEOR permitiu recolher amostras essenciais de rochas vulcânicas diretamente das profundezas oceânicas da imensa estrutura. Os geólogos analisaram os materiais coletados e conseguiram construir, de maneira inédita, uma representação detalhada que esclarece a origem cronológica dessa surpreendente fenda de 500 quilômetros de extensão total.

Os pesquisadores identificaram que o desenvolvimento da abertura não ocorreu de forma simultânea ao longo da fenda, mas avançou gradualmente de leste para oeste. Esse mapeamento detalhado de alta resolução transformou uma antiga incógnita em dados concretos, demonstrando claramente as seguintes descobertas fundamentais obtidas na pesquisa científica:

  • 🚢
    Expedição METEOR: Coleta inédita de rochas vulcânicas fundamentais e mapeamento de alta resolução espacial.
  • 🧭
    Progressão linear: Abertura gradual da imensa fenda que avançou do setor leste para o oeste.
  • 🌋
    Lava jovem: Sedimentos magmáticos depositados posteriormente sobre a crosta antiga que já estava consolidada.

Qual foi o papel do calor do manto na fragilização da crosta?

Muito antes da abertura definitiva da fenda, a região oceânica já apresentava uma espessura muito maior do que o padrão comum. Os geólogos descobriram que uma pluma mantélica provocou uma intensa atividade vulcânica prévia, injetando uma quantidade massiva de calor subterrâneo que amoleceu a crosta superior.

Expedição revela como o calor do manto terrestre moldou a geologia da fenda King’s Trough.
Expedição revela como o calor do manto terrestre moldou a geologia da fenda King’s Trough.Imagem gerada por inteligência artificial

Essa fragilidade térmica explica o motivo pelo qual a divisão tectônica aconteceu exatamente naquele ponto específico do oceano. O enfraquecimento prévio tornou aquela área propensa a sofrer rupturas severas assim que as pressões geológicas externas começaram a esticar o assoalho marinho daquela zona enfraquecida.

Como as placas tectônicas rasgaram o fundo do mar?

A alteração crucial na estrutura ocorreu em um período estimado entre 37 e 24 milhões de anos atrás, motivada por uma rápida reorganização de placas. A movimentação ocorrida na fronteira temporária localizada entre a Europa e a África acabou gerando um imenso bloco deprimido por falhas geológicas conhecido como fenda graben.

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Fronteiras em Movimento

O Processo de Estiramento e Rompimento Tectônico

A movimentação tectônica gerou uma tração horizontal severa que separou as bordas rochosas de forma abrupta.

O rompimento estagnou prematuramente antes que uma nova dorsal oceânica pudesse se consolidar no local.

Os cientistas constataram que essa separação abrupta perdeu força antes de criar uma nova dorsal, preservando o registro fóssil da atividade tectônica. O estudo detalhado revelou características marcantes sobre a composição mineralógica e a conformação estrutural dessa bacia profunda, evidenciadas pelos seguintes fatores geológicos identificados:

  • Profundidades extremas atingindo quase 20 mil pés nos setores mais baixos situados ao leste.
  • Rochas profundas semelhantes ao material comum do manto superior devido à fusão por descompressão.
  • Ausência de assinaturas químicas enriquecidas nas fossas mais profundas e rasgadas da fenda.

Por que essa enorme fenda não foi esculpida por rios?

Uma associação comum para depressões geológicas lineares em formato de cânion é a erosão provocada por fluxos de água continentais. No entanto, as profundezas oceânicas não possuem correntes hídricas capazes de provocar esse tipo de desgaste severo no relevo, descartando totalmente a ação de qualquer agente erosivo.

Pesquisadores mapearam o complexo King’s Trogh, revelando como o calor profundo do manto e as placas móveis moldaram o fundo marinho do Atlântico.
Pesquisadores mapearam o complexo King’s Trogh, revelando como o calor profundo do manto e as placas móveis moldaram o fundo marinho do Atlântico. - Créditos: Dürkefälden et al. / GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel

A arquitetura mista da fenda revela que falhas tectônicas derrubaram blocos inteiros da crosta enquanto montanhas submarinas adjacentes se ergueram. O processo violento gerou uma morfologia única na bacia, cujos componentes estruturais primários e dinâmicas associadas são apresentados em detalhes nos tópicos listados a seguir para análise:

  • Bordas elevadas formadas pelos ombros inclinados resultantes do intenso processo de rifteamento.
  • Montanhas subaquáticas que receberam fluxos adicionais de magma durante as fases posteriores.
  • Grandes falhas normais que causaram o rebaixamento de imensos blocos rochosos centrais.

Existe alguma conexão entre King’s Trough e o arquipélago dos Açores?

As análises químicas das rochas coletadas revelaram uma semelhança surpreendente com os materiais vulcânicos encontrados atualmente nas ilhas dos Açores. Os cientistas sugerem que a antiga fonte de calor que enfraqueceu a região de King’s Trough era, na verdade, uma ramificação primitiva daquela mesma pluma de magma.

Esse sistema magmático acabou se concentrando mais ao sul posteriormente, dando início à construção do grande platô dos Açores há cerca de 20 milhões de anos. O mapeamento preciso dessa fenda fornece uma janela científica rara, funcionando como um excelente modelo comparativo para entender como as rupturas oceânicas começam e param de se desenvolver no planeta.

Referências: Origin of the King’s Trough Complex (North Atlantic): Interplay Between a Transient Plate Boundary and the Early Azores Mantle Plume – Dürkefälden – 2025 – Geochemistry, Geophysics, Geosystems – Wiley Online Library