Cientistas procuram voluntários saudáveis dispostos a viver gratuitamente nos Alpes durante um mês: alojamento, alimentação e 400 euros

A pesquisa da Eurac Research está organizada em três fases distintas que acompanham o voluntário antes, durante e depois da exposição à altitude

Uma pesquisa científica em andamento na Itália está recrutando voluntários saudáveis para passar quatro semanas a 2.300 metros de altitude no Parque Nacional de Stelvio, com hospedagem, alimentação e uma compensação de 400 euros. O projeto MAHE, sigla para Moderate Altitude Healthy Exposure, é conduzido pela Eurac Research e tem como objetivo entender como o organismo humano se adapta a altitudes moderadas, uma faixa que afeta diretamente mais de 200 milhões de pessoas no mundo, mas que foi historicamente deixada de lado pelos estudos científicos.

A seleção é específica e busca garantir que os dados coletados sejam comparáveis entre os participantes.
A seleção é específica e busca garantir que os dados coletados sejam comparáveis entre os participantes.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a altitude moderada ainda é tão pouco estudada?

A maior parte das pesquisas sobre o impacto da altitude no corpo humano se concentra em faixas acima de 3.000 ou 4.000 metros, onde os efeitos do ar rarefeito são mais intensos e visíveis. Nessas alturas extremas, o mal de altitude, a hipóxia e os riscos cardiorrespiratórios são bem documentados. O problema é que essa faixa representa uma fração pequena da população exposta à altitude. Alpinistas profissionais e expedicionários representam um grupo muito menor do que os moradores permanentes, trabalhadores sazonais e turistas que vivem ou frequentam regiões entre 2.000 e 2.500 metros.

É exatamente essa lacuna que o projeto MAHE pretende preencher. A cada respiração em altitudes moderadas, o organismo recebe menos oxigênio do que está acostumado em planícies, e essa diferença pode afetar o desempenho físico, a qualidade do sono, o metabolismo e o funcionamento cognitivo de formas que a ciência ainda não mapeou com precisão. Compreender esses mecanismos tem implicações práticas para saúde pública, medicina do esporte e gestão de comunidades de montanha.

Como funciona a estrutura do estudo nos Alpes?

A pesquisa da Eurac Research está organizada em três fases distintas que acompanham o voluntário antes, durante e depois da exposição à altitude. O desenho do estudo garante que os pesquisadores possam comparar os dados de cada participante em condições de baixa altitude, durante a exposição e após o retorno, criando um panorama completo das adaptações fisiológicas ao longo do tempo.

  • Fase 1 (uma semana): o voluntário permanece em Silandro, localidade a 720 metros de altitude, onde os pesquisadores coletam todas as medições basais do organismo antes da exposição.
  • Fase 2 (quatro semanas): estadia no Refúgio Nino Corsi, a 2.300 metros de altitude no Parque Nacional de Stelvio, com monitoramento contínuo de dieta, atividade física e parâmetros fisiológicos.
  • Fase 3 (uma semana): retorno a Bolzano para avaliações médicas de seguimento, que medem como o organismo responde ao retorno à altitude mais baixa após o período de adaptação.

Quais são os requisitos para participar do projeto MAHE?

A seleção é específica e busca garantir que os dados coletados sejam comparáveis entre os participantes. A faixa etária abrange homens e mulheres saudáveis entre 18 e 40 anos, sem doenças crônicas diagnosticadas. Há critérios de exclusão que eliminam candidatos cujo histórico recente possa distorcer os resultados da pesquisa sobre adaptação à altitude.

  • Não ter permanecido acima de 1.500 metros por pelo menos um mês antes do início do estudo
  • Não fumar e não fazer uso de drogas
  • Não consumir álcool em quantidade elevada de forma regular
  • Não praticar treinamento físico intenso mais de duas vezes por semana
  • Não apresentar doenças crônicas que possam interferir nas medições fisiológicas
A seleção é específica e busca garantir que os dados coletados sejam comparáveis entre os participantes.
A seleção é específica e busca garantir que os dados coletados sejam comparáveis entre os participantes.Imagem gerada por inteligência artificial

O que os voluntários fazem durante as quatro semanas no refúgio?

Durante a estadia no Parque Nacional de Stelvio, a dieta e a rotina de atividade física dos participantes são monitoradas e controladas pelos pesquisadores. Isso não significa que o período seja de isolamento ou restrição severa, mas que os voluntários seguem um protocolo estruturado que permite à equipe científica medir com precisão os efeitos da altitude sem interferência de variáveis externas como alimentação irregular ou exercício excessivo. O refúgio Nino Corsi oferece as condições de alojamento e alimentação incluídas na compensação.

O estudo será realizado entre agosto e setembro de 2026, com um número limitado de vagas. A Eurac Research divulgou que os resultados serão publicados em revistas científicas revisadas por pares após a conclusão da coleta e análise dos dados. Para os interessados, as inscrições estão abertas diretamente pelo site oficial do projeto, que registrou alto volume de acessos desde o anúncio da chamada pública.

Por que essa pesquisa importa além dos Alpes?

Os resultados do projeto MAHE têm potencial de aplicação bem além dos limites do Parque Nacional de Stelvio. Comunidades andinas, assentamentos no planalto etíope, estações de pesquisa em altitudes moderadas e destinos de turismo de montanha em todo o mundo lidam com as mesmas questões de adaptação fisiológica que o estudo pretende mapear. Entender como o corpo saudável responde a quatro semanas a 2.300 metros pode orientar recomendações médicas, protocolos de aclimatação e políticas de saúde para populações que vivem nessas condições de forma permanente.

Para os voluntários selecionados, a experiência oferece algo que vai além dos 400 euros e da hospedagem gratuita: quatro semanas em um dos parques nacionais mais preservados dos Alpes italianos, com a dieta controlada, sem as demandas do cotidiano urbano e contribuindo para uma pesquisa que pode beneficiar centenas de milhões de pessoas. A combinação é incomum o suficiente para explicar por que o interesse superou as expectativas da equipe logo nos primeiros dias após o lançamento da chamada.