Essa descoberta muda a história do Egito: as Pirâmides de Gizé foram construídas com um sistema hidráulico que combinava canais e reservatórios
O modelo proposto combina captação de água, filtragem de sedimentos e elevação interna
As Pirâmides de Gizé voltaram às discussões sobre engenharia antiga por causa de uma hipótese ligada ao uso de água, canais e reservatórios na construção de grandes monumentos egípcios. O ponto importante é separar o título chamativo da evidência científica: o estudo publicado na PLOS ONE analisa principalmente a Pirâmide de Djoser, em Saqqara, e propõe que um elevador hidráulico pode ter ajudado a erguer blocos de pedra.

O que a pesquisa realmente descobriu sobre as pirâmides?
A pesquisa aponta que a Pirâmide de Djoser, considerada uma das primeiras grandes pirâmides monumentais do Egito, pode ter usado força hidráulica em parte do processo construtivo. Os autores identificaram sinais de barragem, bacias de decantação, retenção de água e controle de fluxo no complexo de Saqqara.
Isso não confirma que as Pirâmides de Gizé foram construídas por esse mesmo método. A relação com Gizé aparece como comparação histórica, já que a arquitetura de Djoser influenciou obras posteriores do Antigo Império, incluindo pirâmides maiores em Meidum, Dahshur e no planalto de Gizé.
Como funcionaria um sistema hidráulico no Egito Antigo?
O modelo proposto combina captação de água, filtragem de sedimentos e elevação interna. Em vez de depender apenas de rampas e tração humana, os construtores poderiam ter usado água sem sedimentos para mover uma estrutura flutuante dentro de um poço central.
- Gisr el-Mudir atuaria como uma espécie de barragem para reter água e sedimentos.
- Uma área a oeste do complexo poderia formar um lago temporário em períodos de maior fluxo.
- O chamado fosso seco conduziria água para compartimentos internos.
- Bacias de decantação ajudariam a limpar a água antes do uso técnico.
- O poço central poderia operar como um elevador movido por empuxo.
Os autores descrevem esse mecanismo como uma elevação em estilo “vulcão”, na qual a água faria a carga subir pelo centro da estrutura. A própria publicação trata a ideia como uma nova linha de pesquisa, não como explicação definitiva para todas as pirâmides egípcias.

Por que canais e reservatórios mudam a leitura sobre Saqqara?
Saqqara não era apenas um espaço funerário isolado no deserto. O estudo sugere que o relevo, os cursos d’água antigos e as estruturas monumentais ao redor da pirâmide formavam uma infraestrutura planejada para controlar água, reduzir sedimentos e abastecer usos práticos.
Essa leitura aproxima a construção das pirâmides de temas como hidráulica, topografia, geotecnia e organização de canteiro. A água já era usada pelos egípcios em irrigação, transporte de pedras por barcaças e obras ligadas ao Nilo, então a hipótese amplia um conhecimento técnico já documentado.

Quais partes do complexo sustentam essa hipótese?
O estudo destaca elementos específicos do complexo de Djoser que, juntos, poderiam formar uma rede hidráulica. A interpretação depende da relação entre essas estruturas, e não de uma peça isolada encontrada no local.
- Gisr el-Mudir, interpretado como possível barragem de contenção.
- Fosso seco ao redor do complexo funerário.
- Compartimentos profundos no setor sul do fosso.
- Possíveis bacias de retenção e purificação.
- Arquitetura interna compatível com um mecanismo de elevação.
O estudo apresenta a descoberta como uma mudança na visão sobre as pirâmides, mas a base acadêmica fala com mais cautela. A publicação científica usa termos como “possível uso” e “pode ter sido usado”, o que indica hipótese técnica ainda sujeita a debate arqueológico.
O que essa hipótese revela sobre a engenharia egípcia?
A hipótese hidráulica reforça que os construtores egípcios trabalhavam com muito mais do que força humana e blocos arrastados pela areia. Eles precisavam calcular peso, inclinação, fluxo de água, estabilidade das paredes, drenagem e logística de transporte em obras que exigiam milhares de toneladas de pedra.
Mesmo sem provar que Gizé usou o mesmo mecanismo de Saqqara, o estudo ajuda a entender a evolução técnica entre as primeiras pirâmides e os grandes monumentos do Antigo Império. Canais, reservatórios, barcaças e controle do Nilo fazem parte de uma tradição de engenharia que transformou água em ferramenta de construção, abastecimento e planejamento monumental.
Referências: On the possible use of hydraulic force to assist with building the step pyramid of saqqara | PLOS One