Lula gigante detectada em cânion submarino na costa da Austrália

A lula gigante, espécie científica Architeuthis dux, é um dos cefalópodes mais esquivos do oceano.

09/05/2026 03:18

Uma expedição científica nas profundezas dos cânions submarinos de Ningaloo, na costa da Austrália Ocidental, revelou algo que pesquisadores não registravam na região há mais de 25 anos: a presença da lula gigante. A descoberta não veio de uma câmera ou de um avistamento direto, mas de amostras de água analisadas com uma técnica chamada DNA ambiental, capaz de identificar centenas de espécies a partir de traços microscópicos que os animais deixam à medida que vivem, se movem e se alimentam nas profundezas.

A lula gigante, espécie científica Architeuthis dux, é um dos cefalópodes mais esquivos do oceano
A lula gigante, espécie científica Architeuthis dux, é um dos cefalópodes mais esquivos do oceanoImagem gerada por inteligência artificial

O que é o DNA ambiental e por que ele muda a pesquisa de fauna marinha?

À medida que os animais habitam um ambiente, eles liberam fragmentos de material genético no entorno, através da pele, do muco e das fezes. Esse material, chamado de DNA ambiental ou eDNA, persiste na água por um período suficiente para ser coletado e identificado em laboratório. A técnica permite que uma única amostra de água revele quais espécies passaram por aquele ponto recentemente, sem que seja necessário vê-las, capturá-las ou perturbá-las de qualquer forma.

Na expedição ao Cânion de Cape Range e ao Cânion de Cloates, a equipe coletou amostras em profundidades de até 4.510 metros. O resultado foi o registro de 226 espécies, incluindo animais nunca antes documentados nas águas da Austrália Ocidental. “Com o eDNA, uma única amostra de água pode nos informar sobre centenas de espécies ao mesmo tempo”, explicou Georgia Nester, pesquisadora da Universidade de Curtin e autora principal do estudo, publicado no periódico Environmental DNA.

Por que a detecção da lula gigante surpreendeu os cientistas?

A lula gigante, espécie científica Architeuthis dux, é um dos cefalópodes mais esquivos do oceano. Ela pode ultrapassar 13 metros de comprimento e tem olhos do tamanho de pratos, mas raramente é vista porque vive a centenas de metros abaixo da superfície. Nenhum registro da espécie havia sido feito nas águas da Austrália Ocidental nos últimos 25 anos, o que torna essa detecção especialmente significativa.

Segundo a Dra. Lisa Kirkendale, curadora de Zoologia Aquática do Museu da Austrália Ocidental, trata-se do primeiro registro da lula gigante nessa região usando protocolos de eDNA, e também do ponto mais ao norte já documentado para a espécie Architeuthis dux no Oceano Índico oriental. A detecção não significa que o animal estava ali naquele exato momento, mas confirma sua presença recente naquelas águas profundas.

Um subconjunto de táxons de interesse detectados nos cânions submarinos de Cape Range e Cloates, no Oceano Índico (Austrália Ocidental). Os táxons foram detectados usando metabarcoding de DNA ambiental com os ensaios COI Leray e 16S Fish. Os táxons incluem: (a) o hidroide gigante Branchiocerianthus sp.; (b) o pepino-do-mar profundo Enypniastes sp.; (c) a lagosta-anã Munidopsis cf. subsquamosa ; (d) a lula-polvo Dana Taningia sp.; (e) o verme-bolota Tergivelum sp.; e (f) a enguia-cusk sem rosto Typhlonus nasus
Um subconjunto de táxons de interesse detectados nos cânions submarinos de Cape Range e Cloates, no Oceano Índico (Austrália Ocidental). Os táxons foram detectados usando metabarcoding de DNA ambiental com os ensaios COI Leray e 16S Fish. Os táxons incluem: (a) o hidroide gigante Branchiocerianthus sp.; (b) o pepino-do-mar profundo Enypniastes sp.; (c) a lagosta-anã Munidopsis cf. subsquamosa ; (d) a lula-polvo Dana Taningia sp.; (e) o verme-bolota Tergivelum sp.; e (f) a enguia-cusk sem rosto Typhlonus nasus - Créditos: (Divulgação/Schmidt Ocean Institute)

Quais outras espécies raras foram identificadas nos cânions de Ningaloo?

A lula gigante foi apenas a descoberta mais chamativa de um inventário muito mais amplo. Os cânions submarinos da região de Ningaloo abrigam uma biodiversidade que, até agora, permanecia praticamente desconhecida pela ciência. Entre as espécies identificadas pelo eDNA, várias nunca tinham sido registradas na Austrália Ocidental, e outras podem ser completamente novas para a ciência.

Os pesquisadores identificaram, entre outros organismos:

  • Baleias pigmeus-cachalotes, que expelem uma nuvem de fluido intestinal escuro para confundir predadores ao fugirem
  • Baleias-bicudas de Cuvier, os mamíferos com o mergulho mais profundo já registrado
  • Tubarões adormecidos e enguias-cusk sem rosto, nunca antes documentados na região
  • O peixe Barathrites iris, encontrado a 4.470 metros de profundidade e considerado o peixe de maior profundidade já registrado na Austrália Ocidental
  • Diversas espécies que não correspondem a nenhum registro existente, levantando a possibilidade de serem novas para a ciência
A lula gigante, espécie científica Architeuthis dux, é um dos cefalópodes mais esquivos do oceano
A lula gigante, espécie científica Architeuthis dux, é um dos cefalópodes mais esquivos do oceanoImagem gerada por inteligência artificial

Como os cânions de Cape Range se tornaram um hotspot de biodiversidade desconhecida?

Os cânions de Cape Range e Cloates ficam a cerca de 1.200 km ao norte de Perth e haviam sido pouco explorados justamente pela dificuldade de trabalhar em profundidades tão extremas. A combinação entre a localização remota, a profundidade dos cânions e a ausência de tecnologias acessíveis de coleta não invasiva manteve esse ecossistema fora do radar científico por décadas. O DNA ambiental mudou essa equação ao permitir que amostras simples de água substituíssem mergulhos de alto custo e alto risco.

“Esses cânions são ecossistemas incrivelmente ricos e, até agora, permaneceram amplamente inexplorados por causa da dificuldade de trabalhar em profundidades tão extremas”, disse Nester. A descoberta de tantas espécies raras numa única expedição sugere que a biodiversidade profunda da Austrália Ocidental ainda está, em grande parte, por ser catalogada.

O que esse mapeamento representa para a conservação dos oceanos profundos?

Identificar o que vive nos ecossistemas de profundidade é o primeiro passo para protegê-los. Os oceanos profundos enfrentam pressões crescentes do aquecimento global, da pesca industrial em águas profundas e da extração de recursos minerais do fundo marinho. Sem dados concretos sobre quais espécies habitam cada região, é impossível criar políticas de conservação eficazes. O eDNA oferece exatamente essa base de conhecimento, de forma escalável e sem impacto direto sobre os animais.

Zoe Richards, professora associada da Universidade de Curtin e coautora sênior do estudo, resumiu bem o problema: “Você não pode proteger o que não sabe que existe.” O mapeamento dos cânions de Ningaloo, agora com 226 espécies registradas a partir de amostras de água, representa um ponto de partida sólido para que gestores ambientais tomem decisões baseadas em evidências sobre uma das regiões marinhas mais desconhecidas do planeta.