Parece uma simples cabra, mas é uma espécie invasora prejudicial que destrói os ecossistemas das Ilhas Canárias
A farsa da ovelha selvagem que engana os turistas e destrói montanhas
Entre os animais que mais impactam o meio ambiente espanhol, o muflão-europeu tornou-se um caso emblemático nas ilhas Canárias. À primeira vista, lembra uma ovelha selvagem, discreta e pouco ameaçadora, mas a presença do muflão-europeu invasor em áreas protegidas como o Parque Nacional do Teide está associada a sérios problemas ecológicos que afetam diretamente a flora endêmica, isto é, espécies vegetais que não existem em nenhuma outra parte do mundo.

O que é o muflão-europeu e como virou espécie invasora nas Canárias?
O muflão-europeu (Ovis orientalis musimon) é um mamífero originário de regiões da Ásia e de ilhas mediterrâneas como Córsega e Sardenha. Em Espanha, a expressão muflão-europeu invasor ganhou relevância quando o animal passou a ser ligado à degradação de ecossistemas insulares, sobretudo nas ilhas Canárias, onde foi usado como espécie cinegética, destinada à caça esportiva.
Embora o seu papel como espécie invasora traga desafios ambientais significativos, o animal em si possui características biológicas e históricas surpreendentes. No vídeo do canal Onde o Conhecimento Mora (@OndeoConhecimentoMora), você pode conferir curiosidades que ajudam a entender a resiliência desta espécie, desde a sua pelagem resistente ao fogo até o fato de ter sido um dos primeiros animais domesticados pela humanidade.
Como o muflão-europeu foi introduzido em Tenerife e La Palma?
No caso concreto das ilhas, o muflão-europeu foi introduzido em Tenerife em 1971 e, pouco depois, em La Palma em 1972, marcando o início da sua expansão nos ecossistemas de alta montanha canários. O objetivo principal era criar um recurso para a caça esportiva, prática comum em muitas fincas cinegéticas da Península Ibérica.
Sem predadores naturais e com ampla disponibilidade de alimento, o muflão-europeu encontrou nas ilhas um ambiente ideal para se estabelecer. A combinação de clima favorável, escassez de competidores e flora abundante favoreceu o aumento das populações. Com o tempo, biólogos e gestores ambientais começaram a registrar danos à vegetação nativa, à estrutura do solo e até à regeneração de florestas de alta montanha.
Quais são os impactos do muflão-europeu invasor na flora canária?
Os especialistas classificam o muflão-europeu nas Canárias como espécie exótica invasora porque ele não faz parte da fauna original e provoca impactos negativos claros. Ao consumir plantas endêmicas já vulneráveis antes da sua chegada, o animal interfere em processos ecológicos que levaram milhões de anos para se consolidar e reduz a capacidade de regeneração da vegetação.
Entre os principais impactos associados ao muflão-europeu invasor nas ilhas Canárias, destacam-se os efeitos diretos sobre o solo e sobre espécies raras, como mostram os pontos a seguir.
- Consumo de flora endêmica com preferência por brotos e plântulas de espécies raras.
- Pisoteio intenso que provoca compactação do solo e destruição de bancos de sementes.
- Aceleração da erosão por maior escorrimento de água e perda da camada superficial fértil.
- Alteração de habitats levando à simplificação da vegetação e perda de refúgio para outros animais.

Por que o muflão-europeu é um problema maior em ilhas como Tenerife e La Palma?
A mesma espécie pode ter efeitos muito diferentes conforme o lugar onde se instala, e isso é claro no caso do muflão-europeu nas ilhas Canárias. O ambiente isolado e a elevada taxa de endemismo tornam qualquer espécie invasora mais perigosa, já que muitas plantas só existem em áreas pequenas, muitas vezes em encostas rochosas ou zonas de alta altitude, sem possibilidade de migração.
Em ambientes continentais, a presença de predadores, competidores naturais e maior diversidade de habitats tende a reduzir o impacto de um herbívoro introduzido. Já em um arquipélago, o equilíbrio é mais delicado, o que leva gestores ambientais a recorrer a programas de controle e até de erradicação.